“A DANÇA DAS RAPOSAS” – O protagonista é melhor que o filme [49 MICSP]
Cam, o protagonista de A DANÇA DAS RAPOSAS, quer ser amado pelo que é, não pelo que faz. Quando conversa com outra personagem, afirma, em tom de insatisfação, que as pessoas só o amam por ser um atleta promissor, nada mais. Em que pese ao seu interessante protagonista, o filme seria muito melhor se construísse cenas aptas a estimular fortes emoções (tais como a que ele mesmo sente).
Camille (“Cam”) é um jovem e promissor boxeador de um internato esportivo. Certo dia, ele sofre um acidente que poderia ser fatal, mas é salvo pelo seu melhor amigo, Matteo. Sua recuperação parece ser rápida, mas ele continua sentindo dor em um local lesionado, o que põe em xeque não apenas a sua carreira, mas as suas relações com os colegas de equipe.

O grande trunfo do filme roteirizado e dirigido por Valery Carnoy é o protagonista vivido por Samuel Kircher. Isso se deve não apenas porque Cam é uma boa personagem, mas também ao ótimo desempenho do ator, que transparece apatia em todas as cenas até uma cena específica, que parece uma virada de chave, a partir da qual surgem risos e sorrisos sinceros. Cam é uma pessoa enquanto habita o universo dos jovens boxeadores, mas descobre que pode ser outra pessoa ao se aproximar de Yas (Anna Heckel), com quem aprende que não precisa ser apenas um atleta. O diretor cede à tentação de colocar as duas personagens no muro entre a amizade e o amor, um enorme clichê que é contraproducente (pois Yas representa um exemplo para Cam, alguém que está em patamar diverso do que ele mesmo se coloca), o que, contudo, não reduz o impacto dela na vida dele.
Outra relação interpessoal de Cam, ainda mais relevante, é com Matteo (Faycal Anaflous), um jovem que habita o universo do boxe (diferentemente de Yas), mas que não tem a mesma racionalidade dos outros, incluindo até mesmo o treinador, Bogdan (Jean-Baptiste Durand). É de se notar que Cam recebe um tratamento diferenciado de Bogdan (poucos treinadores começariam mais cedo se não fosse por apostar bastante no atleta), o que inclusive gera inveja dos demais, mas isso apenas reforça que o jovem é valioso enquanto boxeador, não como pessoa. Matteo, diferentemente, parece sempre ter enxergado Cam como um amigo valioso, com quem divide segredos e com quem se preocupa como se fosse um irmão. Porém, fato é que Matteo também reside no mundo do pugilismo jovem (como demonstra ao afirmar que achou bizarro ver seu pai chorando ao ouvir uma música), o que implica abraçar determinada cultura.
Trata-se de uma cultura em que a dor deve ser encarada como algo natural (como ensina Bogdan) e que qualquer fragilidade é digna de chacota, o que causa o bullying sofrido por Cam. É uma cultura machista, não há dúvida, mas de um machismo no perfil das novas gerações, em razão do qual se admite o uso de vestimentas na cor rosa (algo recorrente com Cam), cabelos compridos (Cam e Matteo) e comportamento vaidoso (como Matteo ao não querer sujar suas roupas na floresta ou Cam ao não querer tirar os sapatos no hospital), sem descartar o ego inflado que motiva os rapazes a se gabar (seja por uma cicatrização rápida, seja por sucessos sexuais que podem ser fruto da imaginação). Sobretudo no primeiro ato, o longa apresenta cenas homoeróticas (os atletas abraçados no vestiário passando loção nos corpos seminus, os banhos juntos etc.) justamente para mostrar que o tabu não é corpóreo, mas mental e comportamental: mental, porque quem não reproduz aquela mentalidade de se mostrar inabalável é marginalizado (apenas Matteo parece disposto a apoiar Cam, inclusive mediante riscos pessoais); comportamental, porque há uma cartilha implícita de atitudes inadmissíveis. A imaturidade chega no ápice com o ato de amassar latas na testa, o que confirma a ausência de espaço para vulnerabilidades psicológicas.
Cam se projeta nas raposas, que ostentam a liberdade de fazer o que desejam, sem se incomodar muito com os outros. Essa é a metáfora central do longa, que, todavia, tem uma mise en scène decepcionante em três trechos cruciais. O primeiro é a transição entre o descanso e o retorno de Cam aos treinos: não fica claro o que exatamente no trauma o atormenta, o que não é esclarecido com os pesadelos e ataques de pânico genéricos (seria um medo de nunca mais lutar, de continuar sentindo dor ou de sofrer um novo acidente?). O segundo é uma cena de fuga na floresta, na qual o diretor não consegue criar tensão. O terceiro é a cena em que Cam e Matt estão em um carro e ouvem uma música, momento belo que teria alto valor simbólico, mas que é cortado abrupta e precocemente. Cam tem um backstory rico (basta atentar às menções que faz ao pai) e seu dilema entre ser o que se deseja (seja lá o que for) e ser o que desejam é profundo (ainda que não original), mas o filme como um todo não faz jus a tais virtudes de seu protagonista.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

