Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“A FAVORITA DO REI” – Que história contar?

Reconstituir períodos, personagens e processos históricos de forma fidedigna em uma espécie de janela para o passado? Narrar a trajetória de vida de indivíduos marcantes na história, por vezes sem o devido reconhecimento? Um filme de temática histórica e de abordagem biográfica não pode se restringir a atender às duas expectativas anteriores se não propor uma visão artística própria sobre a época, os eventos e as figuras representadas. O risco de ser vazio ou carente de identidade passa a ser grande, sendo a sensação dominante que atravessa as quase duas horas de A FAVORITA DO REI.

(© Mares Filmes / Divulgação)

No século XVIII, Jeanne Vaubernier é filha ilegítima de uma costureira humilde com um aristocrata. Determinada a ascender socialmente, ela utiliza seu charme para deixar a miséria das classes baixas. Com o tempo, passa a frequentar círculos sociais da nobreza e se relaciona com o Conde Du Barry que, almejando mais riquezas, decide apresentá-la ao rei Luís XV. Jeanne cai nas graças do monarca, fazendo com que criem uma conexão intensa. Porém, viver no palácio de Versalhes também a expõe às intrigas, às disputas por prestígio e ao jogo de aparências da corte francesa.

Além de interpretar a protagonista, Maïwenn também dirige a obra. Ela apresenta nos primeiros minutos uma preocupação considerável com a reconstituição histórica, já que os figurinos, a iluminação, a maquiagem e a cenografia se esforçam para transportar os espectadores para o século XVIII. É um esforço que pode lembrar, em uma escala menor, o que Stanley Kubrick fez em “Barry Lyndon“. Nesse trabalho de recriação de época, percebe-se inclusive que a diretora constrói planos que se assemelham a telas de pintura daquele período, como a imagem de Jeanne ao lado de um dos primeiros aristocratas com quem convive ainda na infância e a exibição do ambiente grandioso em torno do palácio de Versalhes e de seus aposentos. Este elemento visual surge no primeiro ato, porém não se transforma em um padrão estético para a unidade da narrativa e perde força. Sendo assim, Maïwenn opta por trocar o interesse por uma composição visual expressiva pela crítica ou pela sátira do enredo.

A crítica apresenta uma perspectiva feminista em relação à posição subalternizada imposta às mulheres e à influência do patriarcalismo na França do século XVIII. Jeanne é tratada como um objeto sexual a serviço do prazer dos homens ricos, estando sujeita à violência física (como na cena em que é agredida pelo Conde Du Barry) e à exploração de seu corpo (como na cena em que precisa se entregar às vontades de um aristocrata idoso). Trata-se, portanto, de um questionamento à construção de alianças entre os nobres, à ascensão social pelo sexo e a naturalização das traições como mecanismo de relação política. De início, a crítica é desenvolvida para trabalhar a ideia de que a protagonista manipula essas convenções sociais a seu favor para ascender na corte. Entretanto, a abordagem não se mantém por muito tempo e cede espaço para outros estilos narrativos e preocupações temáticas. Outras chances de contestação dos paradoxos da época não são aproveitadas, sobretudo a entrada em cena de um menino negro dado como “presente” para Jeanne, que naturaliza o racismo sob uma abordagem de “exotismo ingênuo”.

Deixando de lado a crítica feminista, o filme assume uma comédia de costumes sobre a etiqueta e as normas sociais da corte francesa. A protagonista reproduz um comportamento crítico em relação às expectativas para a nobreza, como o modo de agir diante do rei, as vestimentas adequadas para cada situação e os rituais específicos para momentos chave da vida aristocrática. São momentos que até funcionam devido ao humor que se estabelece na conexão entre Jeanne e Luís XV e nas reações chocadas das demais mulheres no palácio. Os escândalos artificiais são o ponto central de uma sátira que ridiculariza a suposta superioridade da nobreza. Apesar de certa “anarquia” nos modos da protagonista, a encenação se mantém muito comportada na maior parte do tempo, exceto pela breve passagem em que o grande conflito passa a ser a dúvida se Maria Antonieta falará ou não com Jeanne. Em geral, prevalece um tratamento convencional de uma biografia histórica que se apoia em uma narração didática que explica as imagens e elipses temporais que tentam dar conta de toda a trajetória da personagem.

Em meio à indefinição se a obra se define como uma crítica à situação das mulheres na sociedade de cortes ou uma sátira às normas sociais do alto círculo da nobreza francesa, o elenco também carece de uma unidade mais bem ajustada. Maïwenn se sai melhor enquanto faz Jeanne ser uma mulher ousada e espontânea, de modo a usar os desejos sexuais masculinos em favor de sua ascensão social e satisfação material ou ridicularizar os padrões sociais dos ritos aristocráticos. A acentuação do drama compromete o trabalho da atriz, que perde parte considerável de sua composição provocativa mais interessante. Já a opção de Johnny Deep para viver o rei Luís XV se revela inusitada porque desperta maior atenção dos espectador por poder revê-lo no cinema após as controvérsias em sua vida pessoal do que por suas escolhas criativas na atuação. A escalação de um ator estadunidense renomado para um personagem francês não cria nada especial para além de uma figura que depende mais das ações do que de suas falas, o que pode ser observado pela grande quantidade de cenas em que está silencioso.

Além de começar como um crítica feminista e transitar para uma comédia satírica, “A favorita do rei” ainda busca um drama histórico tradicional. Em torno dessa última abordagem, a narrativa se concentra sobre os obstáculos para o romance entre Luís XV e Jeanne Du Barry e em uma reviravolta trágica quanto ao estado de saúde do rei. Novamente, é possível constatar que não existe uma visão estética específica para a encenação do relacionamento do casal. As muletas da biografia são colocadas mais uma vez para tentar cobrir uma passagem significativa de anos ao redor dos personagens, seja através de novas elipses, seja através da síntese explicativa da narração em voice over. Então, Maïwenn faz com que o microcosmo da relação entre Luís XV e Jeanne seja a porta de entrada para representar o cenário político mais amplo da França. Em vez de se ater a essa dinâmica, o filme tenta inserir mais uma camada temática ao enredo, acelerar o recorte temporal e explicar como se deu a Revolução Francesa. Não seria uma conclusão ruim, necessariamente, se não fosse mais um sintoma de um filme que não sabe o que quer ser.