“A HORA DO MAL” – Falta roteiro, sobram aparências
O que há de frustrante em A HORA DO MAL não é o seu valor estético, uma vez que o senso gráfico e sonoro está presente. O que se revela aquém é o valor alegórico da obra, uma vez que suas metáforas são pedestres e pouco refletidas, desperdiçando uma boa construção de universo e um ótimo elenco.
Certo dia, quando chega em sua sala de aula, Justine encontra apenas um de seus alunos, Alex. As demais crianças desapareceram repentina, concomitante e misteriosamente, o que faz com que todos culpem a professora, único elemento comum entre elas. Este é apenas o começo de um emaranhado sombrio envolvendo pessoas que, de alguma forma, acabam se envolvendo com os fatos.

O papel principal é vivido por Julia Garner, uma atriz pouco aproveitada no cinema até o momento, mas que já mostrou qualidade na série “Ozark” (o mesmo vale para June Diane Raphael, de “Grace e Frankie”, que faz uma participação muito pequena, porém marcante). O elenco de apoio conta ainda com dois atores de renome, Josh Brolin e Benedict Wong, além de um ator que pouco justificou o espaço dado pela indústria, Alden Ehrenreich (que tem o pior desempenho). Quem brilha, contudo, é Amy Madigan no papel de Gladys, uma personagem cuja maquiagem problemática é ofuscada por uma interpretação na medida certa.
Embora o diretor e roteirista Zach Cregger use de maneira comedida recursos rasteiros como o jump scare, a referência à figura de um palhaço é absolutamente gratuita, sugerindo uma habilidade melhor para o suspense do que para o terror. Vale dizer, não há necessidade de insinuar a presença de um palhaço macabro através de alucinações e personagens maquiadas se nada no plot tem relação com isso. No caso específico de Madigan, a ideia é torná-la assustadora com os lábios mal pintados de batom vermelho, o rosto bem branco e os olhos pretos, o que acaba sendo desnecessário, contudo, porque a maneira como Gladys age é suficientemente amedrontadora, seja pelo discurso, seja pela linguagem corporal. Uma maquiagem que a empalidecesse certamente bastaria.
De todo modo, Cregger é hábil na construção do suspense, pois deixa o espectador curioso para saber o que aconteceu com as crianças. Enquanto a narrativa se desenvolve, o público tem contato com os dramas das personagens: a depressão e o evidente abuso alcoólico de Justine (Garner), a obsessão de Archer (Brolin), a instabilidade emocional de Paul (Ehrenreich), a toxicodependência de Anthony (Austin Abrams) e o bullying sofrido por Alex (Cary Christopher). Exceto por Andrew (Wong), todas são extremamente vulneráveis, o que é coerente com a ideia governante do longa.
Existem dois pontos de vista a partir dos quais é possível enxergar a ideia governante. Pela perspectiva das crianças, extrai-se o retrato da submissão humana àquilo que é material, uma vez que elas, tanto quanto os adultos que sucumbem ao mesmo mal, são passíveis de submissão por objetos simples. Suas histórias, assim, se tornam irrelevantes, de modo que o único que tem os sentimentos expostos é Alex, não à toa, o único que não é sujeito a esse poder. De outro vértice, pela perspectiva da entidade maléfica, observa-se a objetificação das pessoas para fins nefastos, uma metáfora que, em última análise, é consideravelmente religiosa. É esse o foco do diretor, considerando o título original do longa, “Weapons” (“armas”, em tradução livre): indivíduos são instrumentalizados e usados como arma pelo mal, tal como pregam diversas religiões.
A alegoria, entretanto, é um pouco pedestre na medida em que as justificativas são escassas, ou, mais precisamente, o mal é praticado para fins maléficos, uma redundância monótona. Existe uma ritualística interessante do ponto de vista imagético, mas sem explicações, o que não seria ruim se a motivação da vilã fosse melhor esclarecida (ela existe, mas é mal exposta). Nas aparências, o filme tem qualidade, dadas, por exemplo, a não obviedade da trilha musical e a fotografia cinzenta, mas que não prejudica a visibilidade (em termos de distinção dos elementos do campo). Na prática, todavia, ele deixa a desejar com seu roteiro pobre em significado e com seu ritmo deveras irregular. Um esboço de “efeito Rashomon” faz com que a narrativa se divida em capítulos, cada um com o ponto de vista de uma personagem, fazendo com que elas eventualmente se conectem para convergir no ato final. A ideia não é ruim, mas algumas personagens são dispensáveis e efetivamente atrapalham o andamento da narrativa, uma vez que seus capítulos são desinteressantes e provocam essa assimetria (em especial Paul e Anthony).
É certo que “A hora do mal” fará sucesso junto ao público. O gênero terror vive um excelente momento nos últimos anos em termos de bilheteria e, no caso dessa produção, a atmosfera aterrorizadora é eficaz. Com maior esmero no roteiro, porém, o longa poderia não se limitar a sensações durante a sessão, acompanhando o espectador depois dela.
P. S.: a referência a “O iluminado” é, no máximo, uma homenagem, pois a cena em si é um clichê.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

