“A ODISSEIA” (2026) – Não necessariamente boa
Mesmo tendo bons ingredientes em seu favor, A ODISSEIA (2026) é um filme muito aquém do seu potencial, falhando tanto à luz de sua origem quanto à luz de sua proposta. Inegavelmente, trata-se de uma superprodução, um longa de ação com momentos de terror, o que não significa nada em termos axiológicos.
Liderados por Odisseu, os gregos venceram a Guerra de Troia e agora retornarão a Ítaca. Na viagem de volta, porém, enfrentarão figuras mitológicas perigosas capazes de não apenas atrasar, mas talvez impedir, seu retorno.

O roteiro de Christopher Nolan (que também dirige o longa) é baseado no famoso poema épico de Homero. As proporções épicas, nesse sentido, são mantidas em vários quesitos, como nos elementos visuais grandiosos, no design de som fortemente presente e no elenco estrelado. Entretanto, isso não necessariamente conduz a obra à qualidade almejada. Imageticamente, é tudo concebido em dimensões colossais, porém o uso de pouca profundidade de campo e enquadramentos muitas vezes reduzidos prejudica a compreensão do quão imenso é aquilo que está no campo. Exemplo disso é o próprio Cavalo de Troia, cujo peso é percebido diante da quantidade de homens que o puxam, mas o tamanho não impressiona, em razão de enquadramentos que não expõem suficientemente a sua grandeza. Falta à mise en scène de Nolan o lado contemplativo, que combina muito com a atmosfera grega antiga, referente àquelas construções magnânimas e às paisagens naturais inestimáveis. Como mencionado, no micro, existem bons elementos, como a maquiagem de envelhecimento e efeitos visuais competentes, mas há pouco que faça jus a Homero.
No design de som – assim como na montagem, inclusive -, reina o caos. Embora a edição sonora seja boa (os ruídos do mar bravio, os berros de Polifemo), a mixagem coloca todos os ingredientes em volume ensurdecedor e quase indiscernível, novamente prejudicando a experiência. Se a trilha musical tem como trunfo o uso de instrumentos supostamente utilizados na época, a mistura de tudo, além de desagradável, soa anacrônica. Nesse quesito, faltou dosar cada elemento e perceber que os ritmos apresentados não transmitem uma sensação de pertencer à Grécia Antiga, aproximando-se de tempos modernos. O clímax final, por exemplo, é uma mixórdia de imagens e sons das quais o espectador pouco pode extrair que não a mixórdia em si, isto é, uma balbúrdia em que a adrenalina prevalece face à compreensão do que efetivamente está acontecendo. O áudio e o visual são picotados por uma montagem que claramente acredita que boas cenas de ação devam ser confusas.
No elenco estão alguns dos maiores nomes de Hollywood: Matt Damon como Odisseu; Tom Holland como Telêmaco, seu filho que nem o conheceu; Anne Hathaway como Penélope, a esposa à sua espera; Mia Goth como Melanto, a pouco confiável serviçal de Penélope; Robert Pattinson como Antínoo, um dos pretendentes de Penélope; Zendaya como Atena, a deusa que tenta guiar Odisseu; Charlize Theron como Calipso, a ninfa que encontra Odisseu em sua trajetória; Lupita Nyong’o como Helena de Troia e Climnestra; Jon Bernthal como Menelau; Benny Safdie como Agamenon; John Leguizamo como Eumeu; Elliot Page como Sinon; e Samantha Morton como Circe. O elenco reforça que se trata de uma superprodução, mas a maioria tem pouco tempo de tela. A narrativa segue o presente diegético a partir de duas linhas, uma protagonizada por Telêmaco, outra por Odisseu; o primeiro diante da busca de uma solução para Ítaca (que está sem rei e com uma rainha cercada por pretendentes ignóbeis) e de informações sobre o pai; o segundo, na companhia de Calipso, recordando tudo o que o levou até lá. Assim, o texto é fragmentado por flashbacks anteriores à saída de Ítaca, o que o torna um pouco mais complexo, mas não ininteligível (embora seja bem mais palatável para quem já conheça o original). Há, contudo, três problemas: existe uma diferença qualitativa entre as duas tramas principais, o foco temático desnatura o núcleo concebido por Homero e simbolismos são erodidos. Enquanto Odisseu participa de cenas de ação com seres fantásticos, Telêmaco está no centro de uma disputa de poder muito menos interessante, que o catapulta a uma jornada ainda menos cativante. Além disso, enquanto Homero moldou a sua narrativa como uma jornada de retorno para o lar – antes de tudo, é disso que se trata -, Nolan está mais preocupado em explicitar o quão heroico e grandioso é seu protagonista, muitas vezes esquecendo o quão idílica é Ítaca para Odisseu. Exemplo disso é o fato de ter ignorado a cama de casamento, que, esculpida em uma oliveira enraizada, simboliza a estabilidade e a lealdade do casal. Outros simbolismos são expostos meramente en passant, sem a necessária profundidade. Mais um exemplo é o próprio mar, encarado de maneira literal, como uma adversidade – ou, no máximo, a ira de Posêidon -, ao invés de metáfora para as turbulências emocionais e os desejos carnais que podem tirar o homem de seu rumo. Nolan foca na literalidade dos plot points de Homero em detrimento da enorme carga simbólica atribuída a inúmeros elementos da trama, resultado tanto do seu apego ao realismo quanto do esforço em comprimir um épico enorme em pouco menos de três horas de filme.
Eventualmente, “A odisseia” acerta na criação de tensão, sobretudo nas cenas de terror, como no enfrentamento a Polifemo – cena em que a cadência é impecável, sem a pressa percebida em outros momentos – e, em especial, na ótima sequência de body horror protagonizada por Circe. Existe um viés bastante contemporâneo por trás da proposta, como uma ênfase feminista, o elenco estranhamente diverso (como a escalação de uma atriz negra para o papel de Helena de Troia, descrita por Homero como uma mulher de braços brancos) e os já mencionados anacronismos (como o elmo). Além disso, há uma perda estética, como na fotografia quase monocromática, ignorando descrições expressas de cores vívidas, como o vermelho. Trata-se, portanto, de uma visão autoral – não necessariamente boa.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

