“A VIDA DE CHUCK” – Sobre a indescritível experiência de existir
Poucos filmes estimulam tantas reflexões quanto A VIDA DE CHUCK sem perder a fluidez narrativa. Isso se torna um feito ainda mais surpreendente considerando a divisão clara entre atos (que funcionam como episódios) bem distintos, uma escolha ousada que valoriza ainda mais o resultado. Demasiado humano, seu tema é nada menos que fascinante: a indescritível experiência de existir (crescer, viver e morrer).
Charles “Chuck” Krantz é um homem comum que viajou para participar de um congresso relativo ao seu trabalho como contador. Sua vida, exposta em três capítulos, é uma vida como a de qualquer outra pessoa, com seus bons e maus momentos, alegrias e tristezas.

A sinopse não faz jus ao longa, e revelar mais implicaria estragar a experiência. Curiosamente, apesar de o filme ser dirigido por um cineasta especializado no terror, Mike Flanagan, e de o roteiro (assinado por ele) ter por base um conto de Stephen King (escritor célebre também no terror), a obra é um híbrido entre outros gêneros. Seu primeiro grande diferencial – que evita que a vida comum de Chuck ganhe um retrato monótono – é a ordem não cronológica que adota, o que é catapultado por um mistério. A narrativa se torna um quebra-cabeça na medida em que o primeiro ato parece desconexo com os demais e só ganha sentido no terceiro (embora existam pistas anteriores). O primeiro é chamado de terceiro porque é um desfecho diegético (mas não narrativo), valendo o inverso para o terceiro. Cada um deles é tão distinto narrativamente que eles parecem pertencer a universos distintos, mas, quando tudo faz sentido, a partir de uma bela explicação, a sensação é recompensadora.
Isso porque o mistério é deveras intrigante: o que significam os outdoors e as campanhas agradecendo Chuck pelos “39 ótimos anos”? O que ele fez? O que explica os desastres e o que ocorre no hospital? Mediante esse primeiro ato enigmático, surgem reflexões sobre o antropoceno, a dependência do digital (temas mais evidentes), a insignificância humana face ao universo (diante do calendário cósmico) e uma sutil crítica ao estado atual do cinema (ao mencionar a Califórnia, o que é corroborado pelos filmes referenciados no terceiro ato). Mesmo com alívios cômicos, como o diálogo do sr. Anderson (Chiwetel Ejiofor) com Josh (David Dastmalchian), prevalece um tom dramático (especialmente no que envolve a personagem de Karen Gillan), reforçado pelos tons frios da fotografia.
No segundo ato, tudo muda drasticamente: a fotografia ganha tons amadeirados e Chuck ganha função ativa na sua versão adulta (antes aparecendo apenas como símbolo), vivida por Tom Hiddleston. A narração voice over ganha mais relevância, reduzindo os diálogos, levando o público a refletir sobre o sentido da arte (que nem sempre faz sentido) e mesmo das ações humanas (idem), além da maneira como as pessoas são tratadas (eventualmente tratadas como invisíveis ou desimportantes, conhecidas ou não). É nesse momento que ocorre uma cena simplesmente soberba, na qual a trilha exclusiva de bateria leva o filme ao gênero musical, com Hiddleston hipnotizando o espectador, e que engrandece os eventos do ato seguinte.
No ato final, Chuck aparece em versão infantil, interpretado brilhantemente por Benjamin Pajak, e adolescente, vivido por Jacob Tremblay, com menos tempo de tela e menor impacto. Depois do hipnotismo de Hiddleston, Pajak mantém o espectador mesmerizado com um coming of age que consegue ser animador mesmo envolto de drama. A personagem de Mark Hamill enxerga um mundo pragmático, que gosta da arte, mas vê mais valor nos trabalhos burocráticos, o que pode afetar as decisões de alguém sugestionável como uma criança. Por outro lado, é também na infância que as atitudes são mais espontâneas e ostentam maior vividez, algo que Chuck consegue atingir como adulto em um episódio catártico, mas singular. A ingenuidade infantil é uma dádiva regada pela constante descoberta e sucessivamente ameaçada pela maturidade.
Com flashes, a montagem indica o sentido de “A vida de Chuck” como um todo, mas não impede que o público aprecie os pensamentos exteriorizados em cada palavra (na narração e nos diálogos), em cada gesto das personagens, e em cada acontecimento com o qual elas se deparam. De maneira similar, a mise en scène faz espelhamentos sugestivos de um eterno retorno nietzschiano (os alunos desconcentrados na aula, ora por conversas, ora pelo celular, os passos de dança, os casais unidos em um momento definitivo, a menina de patins etc.) como um convite para viver (e, portanto, morrer). Cada instante vivido é valioso, cada momento parece eterno e a experiência de viver – inclusive uma vida comum, como a de Chuck – pode ser sublime.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

