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“AMORES MATERIALISTAS” – Saint-Exupéry está démodé

O título nacional dado a “Materialists”, AMORES MATERIALISTAS, pode parecer uma contradição em termos. Em princípio, de fato, o amor é um sentimento que pertence ao campo ideal das emoções, não se traduzindo de forma material. Há, porém, quem não entenda dessa forma.

Lucy trabalha em uma empresa como casamenteira: sua atividade é encontrar os parceiros ideais, dentro dos critérios esperados por cada um, para que, no futuro, venham a se casar. Enquanto consegue sucesso na vida profissional, na vida pessoal o mesmo não ocorre, em especial depois de conhecer Harry, o oposto de seu ex-namorado, John, por quem ela ainda nutre fortes sentimentos.

(© SONY / Divulgação)

É provável que Celine Song ainda esteja tentando traçar um padrão em sua carreira como cineasta. Em 2021, ela trabalhou no roteiro da primeira temporada de “A roda do tempo”, uma série de baixa qualidade. Em 2023, ela presenteou o público com o excelente “Vidas passadas”, que roteirizou e dirigiu, e que foi um grande sucesso que levou seu nome ao Oscar. Com “Amores materialistas”, de 2025, a diretora se aproxima de características da série – notadamente a estrutura narrativa, a estética e o elenco hollywoodianos -, mas trabalha com maior profundidade os seus temas. Por outro lado, o novo longa é muito menos envolvente que o anterior.

Uma característica positiva do filme é que ele não tem a pretensão de apresentar respostas, mas denunciar uma situação. Talvez fizesse mais sentido expor o “materialismo amoroso” pelas vias virtuais, afinal, são muitos, quiçá majoritários, os relacionamentos hoje formados graças a aplicativos de celular. Para driblar o anacronismo, a explicação que o roteiro dá é que o serviço oferecido pela empresa em que Lucy trabalha é pago por quem tem boa condição financeira (a verdade, contudo, é que também existem apps voltados ao público de alta renda). De todo modo, a premissa do filme é que o dinheiro pode e tem sido usado para comprar, no mínimo, encontros (e, quando frutíferos, relacionamentos). Ou seja, uma primeira denúncia é que até mesmo para as questões pessoais mais íntimas (relacionamentos afetivos), o dinheiro pode interferir.

A segunda denúncia é ainda mais profunda: não é apenas o dinheiro que pode interferir nessa área, mas tudo aquilo que é tangível e que se sobrepõe ao intangível. As pessoas que contratam o serviço de Lucy não procuram um parceiro que seja, por exemplo, engraçado, mas que tenha uma altura mínima. O critério pode ser, é verdade, a orientação política, mas a questão é que tudo o que norteia os clientes da empresa são assuntos banais e que formam um filtro, por vezes, absurdo, para os encontros. Ainda mais grave, a atratividade das pessoas é categorizada e precificada, com atributos muito distantes do imaterial valendo como prioridade, tais como a idade, a altura, o corpo e a conta bancária. Lucy é tão mergulhada nessa lógica objetificadora que acaba aplicando-a em sua própria vida, sobretudo ao se relacionar com Harry. O problema de John não era a altura, a idade ou o corpo; nesses quesitos, os dois empatam. O diferencial é que Harry é rico, o que o torna muito mais atraente.

Diante disso, o filme provoca o espectador a questionar o quanto aquilo que é material determina a atratividade de uma pessoa. Saint-Exupéry está démodé, as relações contemporâneas estão pautadas naquilo que, se não é exatamente corpóreo (como a orientação política), é redutível em palavras e passível de tradução empírica. Não existem nuances ou qualidades indescritíveis, pois a realidade é moldada para evitar ao máximo o “desperdício” de um encontro malsucedido. A reflexão é oportuna, mas apresenta dois problemas da maneira como é formulada. O primeiro é a flagrante dificuldade de lidar com estereótipos: enquanto um homem de quase 50 anos decide buscar mulheres “maduras” de 27 anos (uma generalização de que homens preferem mulheres mais novas, o que é reiterado em um diálogo de Lucy com Harry), uma mulher que presumivelmente seria progressista busca alguém conservador. As hipérboles são frágeis para fins cômicos e ainda mais frágeis como argumento. O segundo problema é que Lucy repete de maneira irrefletida o que vislumbra em seu trabalho, parecendo o tempo todo uma mulher fútil e antipática (além disso, a atuação limitada de Dakota Johnson não coopera para torná-la mais real). Os coadjuvantes também são rasos: John (Chris Evans) é um homem pobre, mas devoto a ela; Harry (Pedro Pascal) é um homem rico, mas com quem a “química” demora para aparecer.

Isso não significa que um conceito abstrato como a “química” de um casal faz parte do discurso. Diante da avalanche de materialidades, como o design de produção que parece ter saído de um filme de Nancy Meyers (uma Nova Iorque fria e onde uma pessoa é considerada pobre por dividir um apartamento e ter um carro relativamente antigo), apenas ao final é que Lucy cede espaço para o imaterial e reconhece que relacionamentos não podem se limitar ao sensível. Celine Song cria um problema para uma personagem acessória com o fim de dar sentimentos a Lucy, mas sua protagonista não entende verdadeiramente de sentimentos. Julgando exclusivamente por este filme, o mesmo poderia ser dito da cineasta, que teve aqui boas ideias sobre relacionamentos, mas não sobre amores.