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“ANATOMIA DO CAOS” – Documentário enciclopédico

Entre 2020 e 2022, o Brasil sofreu com a pandemia do coronavírus. Mais de 700.000 pessoas morreram nesse período. O alto número pode ser explicado pela negligência e pelas medidas irresponsáveis do governo de Jair Bolsonaro. Entre abril e outubro de 2021, o Senado realizou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as ações e omissões do governo federal. Este recorte da história do país é apresentado em ANATOMIA DO CAOS, que lembra a tendência do documentário brasileiro de abordar temas políticos contemporâneos a partir de uma perspectiva pessoal do documentarista ou da entrada em círculos restritos da política brasileira. A grande questão é a dificuldade que o filme tem de equilibrar o registro histórico e o uso específico da linguagem audiovisual para registrar a tragédia sanitária.

(© Descoloniza Filmes / Divulgação)

A diretora Dandara Ferreira tem acesso inédito aos bastidores do Senado e acompanha de perto a CPI da Covid-19. Ela reúne imagens exclusivas e materiais transmitidos pelos meios de comunicação tradicionais ou pelas redes sociais. A partir de um mosaico de eventos constrói um panorama sobre as investigações da condução da pandemia, os crimes cometidos e os impactos para a sociedade. Os depoimentos oficiais, as reuniões às portas fechadas, os debates acalorados e as tensões geradas representam tanto o tema em si quanto as discussões a respeito de responsabilidade e direito à memória, verdade e justiça.

Na sequência de abertura, cria-se a sensação de que a combinação entre imagens públicas ou íntimas e os acontecimentos conhecidos pode propor efeitos interessantes. Um plano estático mostra um salão do Congresso Nacional, onde ocorreu as sessões da CPI, enquanto uma narração em voice over reivindica a necessidade de elaborar o luto pelas vítimas e cobra por memória e reparação. Apresentada assim, a imagem daquele ambiente parece evocar o próprio isolamento social ou um gesto respeitoso de homenagem aos mortos e aos seus familiares. Em outro momento, há outro exemplo pontual de como a construção visual e narrativa são importantes para a obra. O contraste entre a festa do Carnaval e o lockdown é visto pela diferença entre os registros de ruas cheias e vazias. Além desses casos, a narrativa se desenrola sem dar tanto espaço para o potencial dramático e reflexivo das imagens.

De forma geral, Dandara Ferreira constrói um documentário que mais rememora o período turbulento da pandemia do que estabelece um olhar especial através das escolhas formais. É claro que a seleção de certos eventos e a exclusão de outros indica uma perspectiva própria da diretora, mas a subjetividade também depende da abordagem estética que se define para o tema. Então, o resultado é a síntese de passagens importantes da crise da saúde, assemelhando-se a um processo enciclopédico que tenta enumerar tudo que fez parte da CPI e da conjuntura ao seu redor. Ao longo de uma hora e trinta minutos, é possível rever as declarações desrespeitosas, negacionistas, autoritárias e intolerantes de Jair Bolsonaro, as manifestações da extrema direita contra o isolamento social e o sofrimento dos familiares das vítimas. Ao mesmo tempo, a trajetória da comissão se destaca, sendo marcada pelas discussões sobre a eficácia da imunidade de rebanho, da hidroxicloroquina, a alta mortalidade em Amazonas, a compra das vacinas, a participação de empresários nas ações do governo e o escândalo de corrupção para a obtenção da Covaxin. O efeito é próximo das cinebiografias que querem resumir rapidamente todas as fases da vida do personagem biografado.

Mesmo que o documentário resuma as atividades da CPI e do contexto histórico, algumas cenas breves demonstram que a documentarista teria a possibilidade de explorar um pouco mais os registros produzidos. É o caso da fala de Eduardo Pazuello, militar que foi ministro da Saúde, que cita a palavra “rápido”, porém se perde entre os papeis que estava lendo e contradiz, nas ações, o que o texto dizia. O instante é reforçado pelo tempo que a montagem insiste naquela confusão antes de cortar para outra cena. Apesar disso, as emoções e as lembranças que o público podem sentir ou retomar dependem apenas da justaposição do material extrafílmico, não sendo tão suscitadas pela construção da linguagem documental. É inegável que a fúria, a indignação, a tristeza e a revolta sejam reações possíveis enquanto se assiste ao filme. No entanto, o desfile de acontecimentos é o responsável por cada resposta emocional, não a proposta autoral do filme. Relembrar que Bolsonaro falou de “histórico de atleta para algo que seria só uma gripezinha”, disse que “não era coveiro e o “mimimi” precisava acabar” e imitou uma pessoa com falta de ar, além de rever os personagens envolvidos (Randolfe Rodrigues, Omar Aziz, Renan Calheiros, Humberto Costa, Simone Tebet, Flávio Bolsonaro, Marcos Rogério, Ricardo Barros, Nise Yamaguchi, Luciano Hang, entre outros) cumprem esse papel.

O esvaziamento das escolhas estéticas é outro problema para as intenções do filme. Ainda que o propósito possa ser importante em termos históricos e ideológicos, não se basta se a forma de comunicá-lo for superficial. Em geral, Dandara Ferreira utiliza muitos planos de estabelecimento para situar os espectadores no Congresso sem extrair algum sentido ou efeito especial, além de abusar de sua quantidade. Já as filmagens de momentos extraoficiais, quando algum membro da CPI está no carro ou eles estão em reunião em uma sala reservada, não se justificam dramaticamente. Na primeira ocasião, parecem apenas depoimentos de entrevistas convencionais dadas para a câmera. Na segunda situação, não conseguem dar um tom observacional da cineasta ou descrever um cotidiano pouco imaginado pelo público. O recurso não dribla a artificialidade nem aproveita a riqueza de estar nos bastidores. Tais passagens são logo encerradas para que se avance para as gravações da TV Senado ou para vídeos de redes sociais, que são exibidas por si só sem qualquer tratamento diferente por parte do documentário. As poucas exceções ficam por conta da conversa telefônica entre Randolfe e Omar Aziz sobre a convocação de Luciano Hang para depor e do desfecho da briga entre o deputado Luís Claudio Miranda e o senador Marcos Rogério.

Anatomia do caos” pode ganhar projeção por conta da urgência de seu tema e pela proximidade cronológica dos fatos narrados. A obra pode se aproveitar das características recentes de um grupo de documentários, como “Entreatos“, “Democracia em vertigem” e “Alvorada“. Porém, os três projetos anteriores se saem melhor para observar o dia a dia de uma figura política na intimidade e atrelar questões pessoais específicas e um cenário político mais amplo. Ao invés de ter esses méritos, o documentário de Dandara Ferreira se concentra demais no levantamento das controvérsias em torno da pandemia e da CPI e na exacerbação dos efeitos prometidos para as escolhas formais. Anuncia-se muito que a equipe de filmagem teve acesso inédito aos bastidores do poder e prefere-se, em contrapartida, criar uma sensação de mistério de uma reportagem investigativa nos planos aéreos sobre a Praça dos Três Poderes. Enquanto isso, perde-se de vista que os eventos revoltantes atingiram as populações indígenas e os grupos urbanos populares e que apresentá-los esporadicamente na narrativa não é o suficiente.