“ANIMAIS PERIGOSOS” – Mergulhar e ser fisgado
Considerando a pouca experiência de seu diretor e seu roteirista, é natural esperar de ANIMAIS PERIGOSOS, no máximo, um terror razoável sobre um assassino cujo único diferencial seria o seu modus operandi. Porém, a produção subverte expectativas, transita entre gêneros e subgêneros e fisga o espectador com maestria.
Zephyr é uma surfista solitária raptada por Tucker, um barqueiro que atira pessoas no mar para que sejam comidas por tubarões. A única pessoa que sente a sua falta é Moses, um surfista que viveu um brevíssimo romance com ela, mas que não sabe para onde ela pode ter ido.

Trata-se do primeiro trabalho (que se tem notícia) do roteirista Nick Lepard, o que não surpreende diante da simplicidade da premissa. A rigor, o plot é redutível a uma história de serial killer que rapta as suas vítimas, ou seja, nada que chame a atenção. É verdade que seu modus operandi é original: diferentemente de “Tubarão” (1975) e dos longas inspirados no clássico, aqui os animais são instrumentalizados pelo assassino, o que aproxima a produção do subgênero slasher. Também é verdade que há uma preocupação em dar um backstory ao antagonista, de maneira a explicá-lo e evitar que ele se pareça com um psicopata qualquer. Entretanto, não é isso que diferencia a obra.
O roteiro e a direção (assinada pelo pouco experiente Sean Byrne) têm como trunfo a maneira como trafegam entre terror, horror e comédia como se as cercas entre os gêneros não existissem. Tucker tortura Zephyr mentalmente e revela também uma personalidade sádica, mas isso não elide seu jeito brincalhão. Com isso, Jai Courtney vive um vilão que precisa variar entre três facetas: aquele cuja fala calma e de tom ameaçador revela o prazer de preparar a vítima para sofrer, aquele que se delicia enquanto uma vítima sofre o clímax da execução do crime, e aquele que deixa transparecer a própria insanidade. A primeira habita o terror psicológico do filme, quando Zephyr sofre por se antecipar pelo que vai lhe acontecer e, evidentemente, pela situação em que se encontra (encarcerada, em condições degradantes etc.). A segunda faceta habita o horror do tipo gore, com cenas de tortura e splatter que expõem o ápice da sua mentalidade perversa, regozijando-se com o sangue e as partes decepadas de sua vítima. O processo de matar é lento, tem suas etapas e requintes de crueldade, o que incrementa a repulsa. A terceira destoa do sadismo das anteriores, na medida em que mostra Tucker ironizando os próprios crimes ou simplesmente saindo da realidade. Exemplos disso são a pergunta que faz a Heather, no prólogo (“fez seu testamento”), cujo sentido aparente, para ela, é de mera piada, a cena em que ele canta para tranquilizá-la e, é claro, a cena de dança.
A dança de Tucker é a representação mais evidente de como ele se sente acima de qualquer responsabilidade e se deleita com seu modo de vida repugnante. Em alguns momentos, o filme cede à tentação de colocá-lo como um vilão cafona (como no excesso de metáforas sobre o mar e ao interagir com um cachorro), mas isso é ofuscado à medida que ele se sente desafiado pela heroína. Hassie Harrison faz de Zephyr uma protagonista que estimula facilmente a empatia, combinando com o ritmo do filme porque ela é muito persistente. Este é o segundo trunfo do longa: ele é envolvente, primeiro, porque o público “torce” pelo êxito da protagonista, alguém que enfrenta o antagonista sem aparentar abalo, e, segundo, porque ocorre uma sucessão de “quase-êxitos” que dominam o espectador até a palpitação. Alucinante, a sequência final é de tirar o fôlego, e o fato de Zephyr se negar a desistir diante de tamanhos infortúnios é deveras empolgante.
Do ponto de vista estritamente técnico, o filme pode ser deficitário enquanto produção (a computação gráfica, ainda que pouco usada, deixa a desejar), mas isso é compensado pelo ótimo uso da linguagem cinematográfica. A trilha sonora dialoga bem com a narrativa e o design de produção escolhe acertadamente as cores simbólicas dos veículos, além de acertar na estética do cativeiro (que conta uma história por si só e oprime as vítimas, mas não causa asco além do necessário). Ademais, o emprego da montagem paralela é cirúrgico, ocorrendo somente em dois momentos específicos: quando é revelada a proporção do histórico de Tucker e quando Moses (Josh Heuston) sai da tediosa esfera do romance (também presente na obra) e se direciona à ação (no que culmina em uma cena muito boa e que foge de um clichê).
“Animais perigosos” não inventa a roda, mas diverte muito e revela uma habilidade natural em mexer com o espectador. Seja pela abominação à própria figura de Tucker, pela aversão aos seus crimes ou pelo comportamento cativante de Zephyr, é inevitável mergulhar na narrativa e concluir que o filme, se fosse um tubarão, seria apavorante.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

