“ANÔNIMO 2” – Gostar da violência
Em “Busca implacável”, Bryan Mills é um aposentado retorna às suas atividades de investigador e assassino para salvar uma pessoa de sua família. De maneira semelhante, em “O protetor”, o aparentemente pacato Robert McCall volta a enfrentar a criminalidade por sentir empatia por uma pessoa vulnerável. Em “De volta ao jogo”, depois de afastado da organização da qual fazia parte, John Wick regressa a uma espiral de violência para se vingar. “Anônimo”, que ganha ares de franquia com ANÔNIMO 2, também pertence ao subgênero “exército de uma pessoa só”, mas seu protagonista difere em um quesito específico.
Depois dos acontecimentos do primeiro filme, Hutch agora trabalha para o Barbeiro, executando várias missões que demandam suas habilidades de assassino impiedoso. Percebendo que está ausente no seio familiar, ele decide tirar férias, levando a esposa, os filhos e o pai a um lugar que visitou quando criança. Rapidamente ele descobre, porém, que o local é bem mais hostil do que em suas recordações, o que estimula seu instinto feroz.

No roteiro, Derek Kolstad é mantido, dessa vez junto de Aaron Rabin. Na direção, contudo, Timo Tjahjanto é quem assume o comando. Do ponto de vista estético, na primeira parte do filme (na qual o protagonista está em seu mundo comum), a atmosfera é mantida, sobretudo a fotografia escurecida, ao passo que, após o incidente incitante, o longa se torna mais claro. Ainda assim, de maneira geral, o estilo é repetido, com pequenas diferenças que refletem mais uma evolução narrativa do que uma escolha estilística. Por exemplo, a rotina aparece em sequência elíptica pontuando os dias da semana, mas não é o mesmo cotidiano tranquilo de antes. Outro exemplo é o clímax, no qual a lógica é mantida (ajuda de terceiros e preparação de armadilhas em um local improvisado), modificando apenas a natureza do cenário.
Os acontecimentos do primeiro filme (em especial envolvendo o Obshchak) reverberam aqui, permitindo que Hutch desempenhe o trabalho que outrora desempenhava com excelência. O plot propõe uma reflexão sobre a (in)afastabilidade dos traços individuais de personalidade: Hutch é naturalmente violento e talvez isso seja inerente à sua própria existência e, portanto, inafastável. O saudosismo surge como solução para a angústia do protagonista, na medida em que as férias se destinam a um afastamento da matança. O longa menciona até mesmo uma reflexão geracional, no sentido de que os pais desejam que os filhos sejam melhores (no sentido moral) do que eles. Nesse contexto, Hutch quer ser um exemplo para o filho Brady (Gage Munroe), mas o que prevalece é a sua personalidade violenta – muito embora seu intento original fosse apenas a criação de memórias junto à família. Ao lado dos filhos Brady e Sammy (Paisley Cadorath), da esposa Becca (Connie Nielsen) e do pai David (Christopher Lloyd), seu objetivo era pacífico e terno. Uma faísca, todavia, é o bastante para catapultá-lo para a ação.
A escalação de Bob Odenkirk para o papel principal surpreende, já que a carreira do ator é mais voltada à comédia e ao drama. Entretanto, ele incorpora bem uma personagem que se divide entre o sereno pai de família e o inabalável homicida. A Sharon Stone coube a antagonista Lendina, uma vilã nada ameaçadora, mas bastante risível em razão do tom caricatural e exagerado. A atuação de Stone é similar à de “Mulher-gato”, de 2004, outra vilã que marcou a sua carreira (de modo negativo, é claro). Certamente a falta de desenvolvimento e a motivação genérica contribuíram para a péssima qualidade da personagem (o vilão do primeiro longa, por exemplo, tem uma motivação que ultrapassa as questões financeiras, o que o torna mais interessante). A propósito, Colin Hanks vive outro vilão ruim.
Talvez a maior diferença entre os dois filmes esteja na trilha musical. Dessa vez, a clássicos do jazz (como “The good life”, cantada por José James, e “If I ruled the world”, de Tony Bennett) são adicionadas canções de rock (como “Ring of fire”, de Des Rocs) e rap (inclusive brasileiro), além de duas músicas pop que têm bastante importância. A primeira é “More today than yesterday” (de Spiral Starecase), que toca em uma sequência elíptica da viagem em família e nos créditos finais, denotando o clima familiar pretendido por Hutch e, simbolicamente, o seu saudosismo (já que a música é de 1969). A outra é “The power of love” (de Céline Dion), que é o epítome do tom cafona que o longa assume, dado o conjunto da cena em que toca. No mais, a obra é uma repetição de um banho de sangue sem muita justificação, como em seu anterior e na maioria dos filmes de exército de uma pessoa só. A única diferença é que Hutch é confrontado com uma verdade inconveniente: o gosto pela violência.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

