“ATO NOTURNO” – Exibicionismo incontrolável
O palco está sendo arrumado para um espetáculo teatral. Os atores organizam os objetos cênicos e se posicionam no local. Um jovem está no centro. Um colega se aproxima dele. A câmera faz um rápido movimento na direção do primeiro homem. O recém-chegado comenta “Eles estão vindo”. A resposta do outro é afirmativa “Eu sei”. A sequência inicial pode tanto remeter aos primeiros eventos da trama quanto sintetizar a lógica narrativa e estética do filme. ATO NOTURNO é uma experiência voyeurística que trabalha a tensão entre o exibicionismo dos conflitos dramáticos e a necessidade de privacidade imposta aos personagens.

Matias é um jovem ator que está ensaiando a apresentação de uma peça no Rio Grande do Sul com uma companhia teatral. Fábio é um amigo com quem divide apartamento e também está no elenco da peça. os dois se interessam pelo teste para viver um protagonista em uma série de TV badalada na cidade. Ao mesmo tempo, Matias e Rafael, um político em ascensão que concorre à prefeitura de Porto Alegre, começam um relacionamento secreto e descobrem um fetiche em fazer sexo em lugares públicos. Quanto mais perto eles chegam da fama ou da realização profissional, mais se colocam em risco.
A primeira sequência adianta uma ideia central que passa a ser vista por toda a narrativa: o filme reconhece (e por vezes brinca) com o fato de se exibir para a apreciação voyeur do público. Além das impressões óbvias, a fala de Matias pode simbolizar a chegada de espectadores que estão assistindo àquela história e a percepção de que os personagens estão expostos. Mais à frente, uma conversa entre ele e Rafael conclui que estariam sozinhos em um momento de intimidade, o que, simbolicamente, não seria possível porque estamos observando. Essa autoconsciência é desenvolvida a partir de diálogos formais com o cinema de Brian de Palma, já que a estética destaca alguns excessos estilísticos e a intervenção chamativa dos realizadores: a trilha sonora carregada para o melodrama ou o mistério, a fotografia estilizada em neon nos ambientes internos ou a iluminação expressiva de cenários externos à noite, os movimentos rápidos de zoom-in para closes dramáticos e a técnica split screen para a divisão do quadro em duas partes.
Existe mais um elemento estético que chama a atenção por dar conta de uma característica exibicionista. Os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon trabalham a cidade como um cenário essencial para a exposição dos personagens. Em um primeiro instante, as locações internas podem ser mais facilmente lembradas, como o teatro, o apartamento de Matias e Fábio e o prédio de campanha de Rafael. Logo em seguida, as recordações se transformam, fazendo com que as ruas de Porto Alegre e o parque central ganhem um espaço considerável. A importância pode estar atrelada aos acontecimentos visíveis da trama, em especial os encontros amorosos e clandestinos de homens gays em uma área afastada do parque, mas não se resume à factualidade em si. Outro valor significativo está na transmissão de sensações pelo simples fato de estar em deslocamento pelas ruas da cidade à noite. Os cineastas exploram muito bem os ambientes noturnos como evocativos de um mistério indecifrável e de um erotismo tentador. Curiosamente, a utilização dos espaços abertos nesse filme se diferencia das escolhas dos realizadores em “Tinta bruta“, quando centralizaram as ações do protagonista no seu quarto.
Como a ideia geral da narrativa gira em torno de um exibicionismo que não se pode evitar, o núcleo formado por Matias e Rafael se torna muito orgânico. Eles são atraídos pelo risco de se relacionarem em público, expostos cada vez mais ao escrutínio de outras pessoas e às consequências de seus atos. De início, os dois homens fazem sexo em uma casa desocupada, mas mantêm a janela aberta mesmo com os ruídos e as luzes que sugerem a chegada de alguém ali perto. A escala da ousadia cresce a cada nova cena, sugerindo que o prazer sexual depende da exposição e que ambos precisam de plateia para assistir às suas performances (similar à atuação de artistas diante de um público). O namoro secreto também passa a envolver beijos do lado de fora da sede de campanha de Rafael e relações sexuais dentro do carro no alto de um morro e no estacionamento ao lado do veículo de uma família. Tais momentos operam dentro da tensão em face da descoberta ou não do casal por outras pessoas, o que faz o filme se filiar aos códigos de um thriller erótico e dialogar de outras maneiras com o cinema de Brian de Palma, sobretudo “Dublê de corpo” e “Femme fatale“.
Quando o núcleo que se passa no teatro é enfatizado, o desejo inevitável de se exibir para o olhar dos outros é ampliado. Em uma dimensão imediatista, é uma característica de atores que se apresentam em alguma obra de arte. No desenvolvimento dos arcos narrativos de Matias e Fábio, é um conflito que se baseia na disputa pelo papel principal na série de TV e pelo monólogo final na peça. Cria-se, assim, uma relação dúbia marcada pela amizade declarada e pela rivalidade silenciosa entre eles, desenvolvida por Gabriel Faryas e Henrique Barreira. Como exemplo, a sequência em que o quadro é dividido não é somente uma apelação técnica porque aparece integrada ao destaque dado aos contrastes emocionais dos personagens. Ao término desse momento, outra sequência trabalha de forma expressiva a sensação de que eles estão atuando mesmo fora do palco do teatro. A reconciliação dos amigos após uma briga ocorre na sala do apartamento (um novo palco?), onde a janela está aberta (espaço por onde o público assiste?) e as cortinas vermelhas foram puxadas para os cantos (as mesmas usadas no teatro para revelar ou ocultar o espetáculo?). Nada mais sintomático é ver o fim dessa cena com o fechamento das cortinas.
Expor-se conscientemente para a observação voyeurística de um público por conta de fetiches sexuais ou de traços essenciais do fazer artístico gera consequências. Os desdobramentos atingem os conflitos morais que cercam Matias e Fábio para a conquista do papel na série. Seria legítimo fazer tudo, desde uma atitude eticamente questionável até uma ação perigosa no limite de um crime? Os sentimentos contraditórios que experimentam podem revelar as diferentes facetas daquelas figuras? No interior de tantas interrogações, as identidades são afetadas em meio às diferenças entre a imagem construída para si e as expectativas atribuídas pelos outros. Matias e Fábio não podem assumir o relacionamento porque o moralismo conservador da política e o mundo das aparências do meio artístico criam empecilhos. A candidatura à prefeitura estabelece uma série de exigências para que possa ser aprovado pelos eleitores, não incluindo a homossexualidade nem os fetiches sexuais. E a obtenção de uma carreira como ator pode impor a construção de um personagem artificial para sua vida pessoal, tendo que agir como o público espera e nem tendo autonomia para cuidar da imagem nas redes sociais.
Todos os conflitos e questionamentos abertos encontram seu auge quando o filme exibe suas próprias mudanças de tom ou de resolução dramática. A presença mais forte de Camilo, vivido por Ivo Muller, introduz ao thriller erótico um personagem digno de filme noir que se responsabiliza pela violência sutil ou escancarada. Sob a alegação de proteger os interesses de Rafael, ele opera como uma arma a favor de um moralismo preconceituoso disseminado socialmente. Em virtude disso, como Matias e Rafael podem combinar a discrição da vida política ou a imagem mercantilizada de um ator famoso com seus desejos expansivos? A resolução de um desafio que passa pelo exibicionismo incontrolável é resumida pelas sequência final na qual o casal percebe a fragilidade de um afastamento forçado. Porém, reunir-se significa repassar por todos os marcos de “Ato noturno“: um suspense sensual, uma estética autoconsciente de seus elementos visuais e um exibicionismo sexual articulado ao voyeurismo de plateias. Nada melhor, então, que as frases “Eles estão vindo” e “Eu sei” retornem, fechem um ciclo e sejam ressignificadas por outro contexto consciente de ser um filme.



