“BOA SORTE, DIVIRTA-SE, NÃO MORRA” – Prompt para a criação de um filme
As obras culturais podem ser intérpretes de seu tempo e dos hábitos de determinados grupos e sociedades. Em seus esforços de reflexão e análise, podem se colocar no papel de discutir algumas marcas e contradições do momento presente em que estão situadas. Quando se trata de um projeto audiovisual, esse trabalho precisa contemplar a combinação entre o texto e a forma estética. No caso de BOA SORTE, DIVIRTA-SE, NÃO MORRA, as críticas à cultura digital na contemporaneidade se restringem ao conteúdo e deixam o filme na ingênua posição de não perceber que ele é o que tenta criticar.

Tudo está aparentemente normal em uma lanchonete em Los Angeles até que um homem estranho entra no local. Ele se intitula um homem vindo do futuro, que precisa recrutar a combinação exata de clientes para salvar o destino da humanidade. Segundo seu alerta, o mundo precisa ser salvo de uma ameaça terminal desencadeada por uma inteligência artificial descontrolada.
Em termos temáticos, o filme aborda várias questões do tempo presente e da sociedade estadunidense. A dependência em relação aos celulares, as transformações sociais geradas pelo uso de inteligência artificial e os tiroteios nas escolas dos EUA são os principais temas propostos pelo roteiro. Por si só, são traços importantes que descrevem as controvérsias atuais e projetam outros futuros possíveis. Porém, a a abordagem do roteirista Matthew Robinson evoca os discursos políticos simplificados das redes sociais, como muitas publicações do X, a exemplo da cena inicial em que o protagonista expõe os problemas geracionais. O modo de apresentar as questões lembra também uma salada de frutas perdida, como se fosse o produto de um comando de IA para enumerar assuntos de apelo social para tentar justificar sua importância.
Quando se observa o núcleo narrativo em torno do Homem do Futuro, um paradoxo se impõe quanto ao trabalho de Gore Verbinski. O diretor pode ser conhecido pela versatilidade artística, sabendo se adaptar muito bem às necessidades de projetos muito diferentes, como a trilogia de aventura “Piratas do Caribe“, a animação “Rango“, a comédia dramática “O sol de cada manhã” e o terror “O chamado“. Em seu novo filme, a construção visual carece de uma identidade própria que cative o olhar dos espectadores e cause efeitos específicos na experiência sensorial. A jornada que a equipe liderada pelo personagem de Sam Rockwell atravessa não possui nenhum momento especial a ser lembrado, tendo pouco a mostrar quanto às escolhas formais, à representação dos espaços e ao desenvolvimento dos membros da “revolução”. A saída da lanchonete, a travessia pelas ruas da cidade ou pelo interior de prédios e a chegada ao destino final em uma casa não conferem qualquer vida às locações filmadas e tratam todos os personagens como figuras dispensáveis sem história própria ou relevância nos eventos acompanhados.
Os demais núcleos formam um tipo particular ao se alternarem à primeira linha temporal: flashbacks que apresentam a história prévia de alguns personagens. O recurso tinha potencial para dar a Gore Verbinski mais possibilidades para imprimir algum estilo ao roteiro e dar pistas da relação que Mark, Janet, Susan e Ingrid possuem com a trama. A princípio, o diretor passa a impressão de que as idas e vindas no tempo têm a função de contextualizar quem são aquelas pessoas e como se integram ao conflito central quanto ao uso da tecnologia. Levando em consideração os três flashbacks, há também uma potência estilística nessas pequenas histórias, que passa pela união entre comentários sociais irônicos e distintos gêneros cinematográficos. É assim quando o casal Mark e Janet se espantam com a dependência de jovens alunos pelos celulares a ponto de agirem como zumbis; Susan recorre à clonagem do filho morto em uma comunidade que naturalizou a violência nas escolas e a mercantilização da vida; e Ingrid deixa um romance perfeito quando seu namorado se rende ao vício pela tecnologia. Ao invés de explorar ao máximo tais características para a proposta em questão, a narrativa parece lançar um comando para a IA simplesmente emular os episódios da série “Black Mirror“.
Mesmo com os eventuais problemas nessas três dimensões, a crise maior se abate à medida que o objetivo de tentar salvar o mundo se aproxima. Ao longo de mais uma jornada do Homem do Futuro para deter o descontrole de uma inteligência artificial, o filme se assemelha cada vez mais aos resultados de uma série de prompts inseridos pela equipe de filmagem em aplicativos tecnológicos. Começa como um discurso político clichê sobre a ruína dos jovens retirado de redes sociais, reúne alguns temas quentes do momento, parte para uma emulação nada inspirada de “Black Mirror“, tenta captar o espírito de obras de ficção científica com viagens no tempo ou para realidades paralelas, como “Tudo em todo lugar ao mesmo tempo“, e extrai a dinâmica acelerada das plataformas digitais para sua estrutura narrativa. Em certo instante, um personagem comenta que as IAs enclausuram as pessoas em uma ilusão de distração, estímulo fácil e resultado falsamente satisfatório. Esta frase pode resumir “Boa sorte, divirta-se, não morra“, sobretudo quando a trama não resiste à tentação de forçar a mão no absurdo tentando atingir na originalidade e acertando na aleatoriedade infantil.
Os exemplos são muitos para sustentar a sensação de que falta vida e sensibilidade a um projeto com as feições de comandos e programações inseridas no Chat.gpt ou similares. Como acreditar em uma autoralidade genuína quando se observa a construção visual estéril de ambientes sempre sombrios e pouco imaginativos? Percebe-se a aparição de elementos insólitos que não conversam entre si, mas parecem interessantes apenas por serem excêntricos (o gato gigante, os antagonistas com máscaras de porcos, os robôs com vida própria, a infestação de ratos…)? Fica evidente que o vilão é a tecnologia em seu sentido mais abstrato como se tivesse surgido e adquirido vida própria sem qualquer relação com os usos ideológicos que se faz dela? E culmina em uma pretensa reviravolta facilmente antecipável quando a primeira dica aparece vários minutos antes do desfecho que quer ser muito surpreendente? Após mais de duas horas de duração, o filme testa a paciência dos espectadores com sua falsa sagacidade e um humor bobo que obscurece o que realmente é. Uma tentativa de crítica tão domesticada sobre as diversões vazias das redes sociais que se transforma, sem perceber, em uma “diversão” vazia.



