“BUGONIA” – A sátira fácil [49 MICSP]
Quando o objeto de uma sátira é um setor da sociedade unido por ideias, ela gera dois riscos. O primeiro é de formar uma câmara de eco. Por exemplo, separando a sociedade entre conspiracionistas e o resto, o diálogo ocorre apenas com o segundo grupo, reverberando junto ao primeiro, no máximo, para causar raiva. O segundo é o de subestimar algo ou alguém perigoso. BUGONIA incorre principalmente no primeiro, criando a dúvida sobre até que ponto ele é, de fato, engraçado.
Teddy acredita que alienígenas invadiram a Terra e se infiltraram junto aos humanos para o nefasto objetivo de dominação. Com base na crença, convence Donny, seu primo, a sequestrar Michelle, a CEO de uma grande empresa, afirmando ser ela uma das infiltradas.

Yorgos Lanthimos trabalha mais uma vez com Emma Stone, atriz que entrega ao papel seriedade e frieza que funcionam muito bem para os fins satíricos. Quando Teddy – vivido por Jesse Plemons, excelente ator que também repete a parceria com Lanthimos (e com Stone, vide “Tipos de gentileza”) – faz as afirmações sobre a suposta origem extraterrestre de Michelle, ela mantém a calma e tenta convencê-lo que a convicção é infundada e, ainda mais grave, pode acarretar graves consequências negativas para ele e o primo (Aidan Delbis). Ou seja, os diálogos travados entre os dois (já que Donny tem bem menos falas, sendo a mera representação da massa de manobra dos idealizadores do conspiracionismo que Teddy representa) estão no campo de uma conversa impossível, na qual os participantes, por partirem de premissas absolutamente distintas, parecem falar idiomas também distintos. Os argumentos racionais e lógicos de Michelle não são capazes de convencer Teddy, da mesma forma que satirizar conspiracionistas não os tira da alienação, daí porque esse tipo de sátira é uma câmara de eco.
A situação é semelhante à que ocorre, por exemplo, com “Uma batalha após a outra”: o grupo satirizado, caso se disponha a assistir ao filme, pode ficar ofendido, mas certamente não vai refletir sobre o porquê de ser objeto da obra ou sobre a possibilidade de estar errado. A situação é diferente da que é feita com a série “The White Lotus”, na qual o objeto não é um grupo necessariamente unido por ideias (embora possam, eventualmente, compartilhá-las), mas pela sua condição (de pessoas ricas), hipótese em que o resultado pode ser diferente de uma câmara de eco. Pensar dessa forma permite perceber que uma sátira como “Bugonia” não é tão engraçada quanto pensa que é, pois faz chacota do que é engraçado por si só. Em outras palavras, é fácil fazer humor concernente a pessoas que pensam de maneira absurda, difícil seria conscientizá-las ou, mesmo mantendo esse viés, elaborar uma narrativa que instiga independentemente do humor (o que Paul Thomas Anderson faz, diferentemente de Lanthimos).
O roteiro de Jang Joon-hwan e Will Tracy é muito mais interessante quando a sátira se refere ao patronato. Quando se dirige aos conspiracionistas, esse grupo é tão distante da realidade que criticá-los é o mesmo que repreender uma criança que se corta com uma faca: o erro está em quem deu a faca a ela e negligenciou esse risco. Diversamente, quando “Bugonia” satiriza CEOs e, de maneira mais ampla, o patronato e o empresariado, faz uma crítica social mais inteligente ao apelar para a sua hipocrisia (no discurso de Michelle sobre sair mais cedo) e para as consequências do seu modus operandi (causar danos aos empregados e à sociedade em geral, sem uma reparação à altura).
O apuro estético de Lanthimos é o costumeiro, em especial no design de produção com tons amadeirados para a associação às abelhas (uma metáfora bem direta e até mesmo verbal) e na trilha musical que varia entre o épico e o suspense. Ao final, contudo, o diretor se perde ao elastecer a sátira em demasia, com um texto que, a rigor, é contraditório, e um desfecho exagerado e generalista. O filme não desconsidera a periculosidade de pessoas como Donny, Teddy e até mesmo Michelle (cada um à sua maneira), mas se empolga com suas ideias a ponto de se tornar grandiloquente sem necessidade. Ele funciona muito melhor ao traduzir simbolicamente a disseminação de ideais irracionais através da polinização das abelhas do que ao levar essa irracionalidade às últimas consequências.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

