“CINCO DA TARDE” – Elaborando tempos
O tempo é uma das matérias-primas do cinema. Uma narrativa cinematográfica precisa lidar com diferentes transições, ritmos e durações para contar histórias, desenvolver personagens, propor sensações e exercitar sensibilidades artísticas. Ao longo da história, tendências, movimentos e artistas estabeleceram estilos mais ou menos dinâmicos, mais ou menos lentos e contemplativos. Em CINCO DA TARDE, o tempo é um aspecto central da experiência e se apresenta nas escolhas formais e na dramaturgia das personagens, embora nem sempre seja tão bem explorado nessas dimensões.

Anabel é uma jovem que vivia com a avó até a senhora falecer. Logo depois da perda, ela passa por um doloroso processo de luto que a faz se aproximar de sua tímida vizinha Meiko. A jovem oriental trabalha em uma floricultura próxima ao apartamento onde as duas moram e também está sofrendo com uma morte na família. Em função de semelhanças sofridas em suas vidas, elas desenvolvem uma amizade reveladora de sentimentos ocultos.
Dois elementos se sobressaem na obra dirigida por Eduardo Nunes: a fotografia em preto e branco e a lentidão da decupagem. A composição visual se adequa ao estado psicológico de Anabel e Meiko, cada uma delas enfrentando as dores e a melancolia de suas perdas familiares. O ritmo moroso do desenvolvimento da trama e da condução da câmera pode se relacionar com a dificuldade do luto, que evoca lembranças de vivências passadas e projeta dúvidas para o futuro. As duas características também apresentam pistas da situação emocional da protagonista, que mal consegue passar pelo apartamento da avó e falar sobre a morte como se nota na sequência inicial de longos planos estáticos. Além disso, a fotografia e o tempo narrativo encapsulam as sensações do período da pandemia, não só por causa das máscaras, mas porque há uma atmosfera de temporalidade estendida e fantasmagoria incompreensíveis.
Fantasmagoria é um bom conceito para descrever as virtudes do filme. O diretor trabalha com uma sequência de imagens irreais, fantásticas ou ilusórias que lembram um sonho. Esta escolha criativa dá o tom de todos os momentos em que Anabel acredita estar vendo a avó. Inicialmente, são encontros banais do cotidiano. Ela vê a senhora lendo jornal na sala ou se levantando para preparar uma refeição quando chega ao apartamento. Nessas ocasiões, sente o conforto de rever sua rotina diante dos olhos e a alegria de ainda interagir com a mulher. Porém, a maneira como a interação termina na cozinha e a construção integral da conversa que as duas têm no quarto sinalizam que a saudade e a tristeza da ausência são muito fortes. A elaboração visual das cenas é eficiente para evidenciar as diferenças de sensações, já que, a cada nova aparição da avó, a fotografia ganha cada vez mais contrastes entre as luzes e sombras e um tom sombrio.
Se a narrativa se concentrasse mais nas imagens que traduzem o luto de Anabel, a experiência poderia ser melhor do que realmente é. Isso porque o roteiro de Eduardo Nunes tenta conciliar o enfrentamento da perda com o estreitamento das suas relações com Meiko. A princípio, a produção se esforça para demonstrar que as jovens se identificam e se aproximam por compartilharem o fato de que sofreram mortes recentes na família. Na execução em si, a encenação tem dificuldade de consolidar a amizade entre elas e abusa das passagens lentas, contemplativas e silenciosas. O primeiro encontro ocorrido no apartamento da oriental pode funcionar quando retrata o estranhamento da presença de Anabel e sua dificuldade de verbalizar os sentimentos. A partir daí, os pequenos gestos, os silêncios e as lacunas que formam as interações giram em torno das mesmas situações repetitivas que têm pouco a acrescentar naquela relação e nos arcos narrativos de cada uma delas. Na prática, os diálogos não conseguem relacionar assuntos comuns do dia a dia e as fragilidades emocionais diante da morte e a decupagem custa a mostrar visualmente uma aproximação entre as duas personagens. Os laços parecem mais palpáveis nos últimos minutos, quando cantam de madrugada e se abraçam.
Como toda a estrutura de “Cinco da tarde” depende da relação entre Anabel e Meiko, as eventuais qualidades se diluem e deixam de ser percebidas com mais facilidade e intensidade. Além de confinar o enfrentamento do luto através das imagens da avó a uma dimensão coadjuvante, Eduardo Nunes não explora tanto as potencialidades expressivas dos espaços filmados. As locações têm diferentes possibilidades dramáticas e formais na trajetória da protagonista. O corredor do oitavo andar e o apartamento da avó evocam o sofrimento silencioso da jovem, que não consegue processar o impacto da morte. Já a residência de Meiko traduz a confusão psicológica de Anabel, que não diferencia muito bem a passagem dos dias e as características dos espaços onde está. Alguns sinais são mais evidentes do que outros, como as elipses abruptas de uma cena para outra e o avançar repentino das horas. Outros indícios são tão sutis que a obra deixa de aproveitar o potencial dramático da encenação, como a percepção errônea das características do apartamento da amiga e das diferenças entre sonho e realidade. Existe algo ali que lembra o filme “Meu pai” pela forma como trabalha os espaços, mas é um aspecto tão tímido que apenas ganha algum impacto real nas últimas cenas.
O tempo é, definitivamente, uma categoria complexa para nossa existência e para a construção no cinema. Como podemos lidar com o luto nessa interseção entre reviver o passado e tentar pensar no futuro? Como um filme pode articular, na montagem e na decupagem dos planos, a passagem mais rápida ou mais lenta de acontecimento e emoções? Eduardo Nunes opta por alongar a duração das cenas e criar uma sensação naturalista do fluxo comum do cotidiano. São escolhas coerentes para trabalhar a experiência da pandemia, a flexibilidade das relações com o tempo e o espaço, a melancolia decorrente de períodos sombrios da vida e os suspiros de alívio e felicidade sentidos nos laços inesperados que se criam. Tudo isso se enfraquece quando a dramaturgia menos inspirada esvazia boas soluções visuais. Como o próprio título sugere, as referências à relação entre Anabel e a avó têm mais força do que as interações entre Anabel e Meiko.



