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“CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ” (1988) – Fazer rir

Até a década de 1980, Leslie Nielsen era mais conhecido por participar de produções de gêneros não cômicos, como “Cidade em chamas” (1979) e “Assassinato em Amsterdam” (1977). Nas comédias, sua participação era diminuta, tal como em “Como cometer um casamento” (1967). Tudo mudou em 1980 com o clássico “Apertem os cintos, o piloto sumiu”, que lhe deu notoriedade nas paródias. Outra de suas pérolas é CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ!, de 1988, longa que solidificou seu nome no subgênero.

Apesar do cargo, o tenente de polícia Frank Drebin não é o oficial mais competente da força. Diante de uma ameaça de assassinato da Rainha Elizabeth II, porém, ele é o único capaz de impedir o crime.

(© Paramount Pictures / Divulgação)

O filme é na verdade um spin-off do seriado de seis episódios “Esquadrão de polícia”, de 1982, criado por Jim Abrahams, David Zucker e Jerry Zucker, e protagonizado por Nielsen. O roteiro do longa é escrito pelos três junto de Pat Proft, mas dirigido pelo segundo. Faz sentido que o resultado seja tão engraçado quanto é, pois o quarteto se revelou profícuo nas paródias – Proft, por exemplo, roteirizou também “Loucademia de polícia” (1984) e “Top Gang! Ases muito loucos” (1991).

A graça presente em todos esses filmes é resultado de sua lógica de parodiar tanto filmes quanto situações do mundo real. No caso da obra de 1988, a ideia é fazer troça com a polícia na medida em que seu protagonista é a síntese dos policiais: alguém com boas intenções, mas cuja incompetência é flagrante. Não se trata, porém, de uma sátira: os dois subgêneros do gênero comédia moldam seu humor a partir da hipérbole, mas a sátira visa criticar de maneira ácida determinados aspectos da sociedade (grupos, instituições etc.), ao passo que a paródia se apropria de um objeto para brincar com ele com uma crítica muito mais leve.

Corra que a polícia vem aí!” se apropria, por exemplo, de pessoas reais, como a Rainha da Inglaterra (que é central no plot, mesmo participando pouco) e o político líbio Muammar Gaddafi (no prólogo). Contudo, o filme também aproveita a linguagem audiovisual para extrair humor, usando a gramática dos filmes de detetive (sobretudo do gênero noir): a trilha de jazz, o uso de voice over em primeira pessoa, a femme fatale etc. O que a obra faz, então, é distorcer essas ferramentas em favor do humor: na cena em que o piano toca por acidente, o jazz é substituído por uma música divertida e agitada; e às cenas de narração adiciona-se o non sequitur (como a analogia nonsense envolvendo bolhas em um refrigerante ou Drebin pulando “amarelinha”). Quanto à femme fatale, Priscilla Presley tem em Jane uma mulher que combina com Drebin por ser quase tão atrapalhada quanto ele (como em sua primeira aparição).

Sem compromisso com o verossímil (basta ver a “carta na manga” do vilão Ludwig, vivido por Ricardo Montalban), no macro, o roteiro conduz a narrativa a partir da estrutura de um filme de detetive. Isso porque, no micro, as piadas se sobrepõem por recursos visuais (a marca do corpo morto na água) e, principalmente, situacionais. Leslie Nielsen se consagra como Drebin porque consegue tornar irrelevantes as inverossimilhanças. Por exemplo, quando visita o vilão, em uma sala repleta de artefatos caros, não faria sentido que conseguisse fazer tantos desastres, mas sua maneira de agir diante da situação é tão engraçada que o público é capaz de comprar o absurdo. A comédia é descompromissada não em virtude de seu roteiro, mas porque Nielsen ganha a simpatia do espectador diante do perfil ingênuo e autêntico concedido ao protagonista, constantemente atrapalhado e perdido. Mesmo quando é responsável por algo grave (como na cena do carro), o policial permanece fiel à sua própria inocência de fazer o que é certo. A única cena que destoa de seu compasso moral é aquela em que ele suborna uma testemunha, mas o fato de ser subornado em seguida e o jogo de troca de dinheiro envolvido na situação faz com que o propósito humorístico justifique o desvio.

Afinal, “Corra que a polícia vem aí!” é sobre fazer rir. Não se pode desconsiderar o subtexto ufanista presente na obra: no prólogo, os EUA são tidos como líderes na promoção da paz; a forma monárquica de governo é vista com desdém por Drebin; o longo final ocorre em um contexto tipicamente estadunidense (e é a parte menos engraçada). Existe, de fato, um discurso de superioridade do país, sem nenhuma autocrítica. No entanto, o longa claramente não tem a pretensão de elaborar críticas ou estimular a reflexão; seu intento é unicamente fazer o público dar risadas. Isso, sem dúvida, ele faz muito bem, mesmo que com as mais tolas piadas possíveis.