“CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ!” (2025) – Um retorno das paródias?
Encarar CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ!, de 2025, como um mero “besteirol”, é subestimar uma obra cujos pilares têm grande valor artístico. São eles: riqueza de linguagem, reinvenção de um astro e humor para todos os gostos. O gênero das paródias esteve escasso nos cinemas nos últimos anos, mas talvez esse reboot em forma de continuação seja um estímulo para um profícuo retorno.
Frank Drebin Jr. segue os passos de seu pai no Esquadrão de Polícia, aliando trapalhadas a uma inesperada eficiência. Quando uma investigação envolve um risco em escala global, não há ninguém melhor do que ele para salvar o mundo.

O longa dirigido por Akiva Schaffer espelha o “Corra que a polícia vem aí!” de 1988 (e suas sequências) em diversos sentidos. Na estrutura narrativa, algumas cenas parecem repetidas, como o prólogo aparentemente sério, a apresentação dos coadjuvantes (o interesse amoroso e o vilão), a sequência elíptica de romance e o desfecho envolvendo um esporte de grande apelo nos EUA. No som, repete-se o uso de narração voice over, a trilha de jazz e a incomparável Leitmotiv. Por uma ironia que não é gratuita, o protagonista fala para o falecido pai, olhando seu retrato: “quero ser como você, mas, ao mesmo tempo, novo e original”. É esse o intento do longa de 2025, que cumpre com muito êxito a missão.
Ao contrário do que pode aparentar, a obra demonstra riqueza em termos de linguagem cinematográfica. Usando intertextualidade e referências anacrônicas – citações a “Chicago” e “Buffy, a caça-vampiros”, que fazem sentido se considerada a idade (e o perfil, em especial o gênero) do protagonista -, sobram recursos metalinguísticos, além da quebra da quarta parede, todos em pleno funcionamento. O filme é uma paródia bastante consciente de si e afinada em seu escopo humorístico, revelando completo descompromisso com o verossímil, prezando pelo lado cômico. Assim, o boneco contra o qual Frank luta pode ser escancaradamente falso, o café que bebe pode surgir de mãos surreais e um boneco pode ganhar vida: não há limite para a liberdade criativa, desde que haja fidelidade ao pretexto cômico.
O mesmo pretexto cômico abrilhanta a escalação de Liam Neeson no papel principal. Estrela dos filmes de ação, o ator mantém o estilo de filmes que o consagraram (em especial na franquia “Busca implacável” e seus subsequentes similares, como “Vingança a sangue frio”, “Legado explosivo” e “A chamada”), qual seja, de exército de uma pessoa só, mas agora se despindo do contexto da ação para fazer piada de si mesmo, algo inédito em sua carreira. Frank é uma personagem semelhante às anteriores do ator no tom (a seriedade, as frases de efeito, a imbatibilidade), o que se torna engraçado porque tanto o cenário quanto sua (falta de) inteligência destoam do que foi visto antes. Isto é, Neeson zomba do dissimulado e estúpido irrealismo dos demais filmes ao mergulhar na estupidez descarada. A seriedade inabalável que imprime em Frank o torna mais engraçado, quiçá mais que Leslie Nielsen (que é mais debochado). No elenco estão também Paul Walter Hauser em papel pequeno e Danny Huston em mais um vilão na carreira. Ainda que Beth seja importante, Pamela Anderson é ofuscada por Neeson e, não à toa, tem seu melhor momento quando não está com ele (a cena do bar).
Escrito por Schaffer, Dan Gregor e Doug Mand, o roteiro não decepciona nas piadas, entendendo que o humor quase não tem limites. Ele pode ser situacional (como na reviravolta do prólogo ou na investigação promovida por Sig, papel de Kevin Durand), metalinguístico (por exemplo, no voice over sobreposto dos policiais), dialogal (como na primeira conversa entre Frank e Richard), sonoro (como ao tocar “Only time”, da cantora Enya) ou mesmo escatológico (cujas piadas aparecem com moderação, ou seja, o filme não depende desse tipo de humor); pouco importa, o que importa, como no longa de 1988, é fazer o espectador rir. Ainda que o viés de paródia seja predominante (em relação a filmes noir e, momentaneamente, filmes de horror) e mesmo que algumas piadas não exijam muito intelecto, há pontualmente um humor de sátira, como a associação óbvia do vilão Richard a Elon Musk e o saudosismo moral do protagonista (que não é marcado pela sagacidade) – além, é claro, das críticas ácidas à polícia (por exemplo, no pensamento policial de que policiais não precisam seguir a lei e, principalmente, na inteligente piada sobre o irmão do barman).
Julgando por este filme, é provável que o cinema receba uma nova franquia e, talvez, um estímulo para o retorno às paródias. Se todas forem divertidas como esta, esse retorno será bem-vindo.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

