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“CRIA CORVOS” – Outros olhares para a infância e para a Espanha

As leituras mais correntes consideram a infância um período de pureza, inocência e felicidade. As visões imediatistas priorizam as reformas políticas democratizantes no contexto de decadência de um governo autoritário. Porém, ser criança pode vir acompanhada por anos de tristeza, luto e melancolia a depender das experiências vividas. No mesmo caminho de problematização, a redemocratização de um país deve também envolver as mudanças de mentalidade da população. As duas questões se combinam em CRIA CORVOS, um drama pessoal e político sobre as dores emocionais de uma menina enquanto a Espanha lida com os conflitos geracionais durante o ocaso do franquismo.

(© Platina Filmes / Divulgação)

Nos anos 1970, a ditadura do general Francisco Franco está no seu fim. Ao mesmo tempo, a pequena Ana enfrenta as mortes dos pais María e Anselmo. A mãe morreu após contrair uma doença dolorosa e o pai militar morreu de um mal súbito inesperado. A menina tem como companhia as irmãs Irene e Maite, além dos cuidados da empregada Rosa. As perdas na família fazem com que as três jovens sejam criadas pela austera e disciplinadora tia Paulina. Nesse novo momento da vida, a protagonista desenvolve um estranho fascínio pela morte.

O filme dá o tom de como pode ser experimentado pelo público na sequência em que a adulta Ana, interpretada por Geraldine Chaplin, lembra a própria infância. As imagens transitam gradualmente do presente narrativo para um futuro em que a mulher repensa sua própria vida, destacando o fato de que ser criança não, necessariamente, quer dizer alegria permanente e brincadeiras descompromissadas como muitos podem supor. A sequência mencionada pode ser destrinchada em duas dimensões que se tornam padrões temáticos e/ou estilísticos a serem vistos até o fim: a abordagem emocional da protagonista sob um viés nada idealizado daquele período da vida e o uso de diferentes recursos retóricos/sensoriais para a narração da trama.

Desde muito cedo, Ana teve que lidar com situações emocionalmente difíceis. Acompanhou o adoecimento da mãe, observando os piores dias em que as dores eram insuportáveis. Presenciou discussões entre os pais, que já não se entendiam nem demonstravam tanto carinho. Testemunhou momentos em que o pai abusivo maltratou a esposa, reproduzindo a intransigência de um militar conservador. E ainda descobriu traições extraconjugais de Anselmo, que aceleram o desgaste do relacionamento com María. Os sofrimentos estavam tão arraigados no cotidiano da família que as irmãs acabavam levando as brigas dos adultos para suas brincadeiras, como acontece na encenação feita de um desentendimento causado pela infidelidade do pai. Além disso, a infelicidade e a melancolia transparecem no expressivo semblante da atriz mirim Ana Torrent, captado regularmente por closes feitos por Carlos Saura. A atriz ilustra bem as angústias e os conflitos internos pelo olhar ou, se preciso for, pelas lágrimas finalmente derramadas por saudade da mãe e pelas breves doses de satisfação com a proximidade de Irene e Maite.

Em cada nova demonstração de que Ana e María eram muito próximas, Carlos Saura propõe ferramentas distintas para conduzir as relações entre mãe e filha, entre passado e presente, entre emoções positivas e negativas. Quando a Ana adulta relembra a infância, o diretor usa flashbacks para retomar passagens em que sofreu por causa da doença da mãe ou da postura do pai. Em outros casos, a realidade e a fantasia se confundem, deixando dúvidas se os fatos realmente ocorreram daquela forma ou se são impressões subjetivas da personagem. Pode ser o desejo subconsciente de rever María na cozinha após encontrar o corpo falecido do pai na cama; a irrupção de memórias adormecidas de brigas entre os pais ou dos sintomas da doença da mãe; o sonho de ouvir mais uma vez uma história contada pela mãe; e a imaginação de misturar uma viagem no presente à casa de um amigo da família e as traições cometidas pelo pai no passado. A junção de temporalidades distintas também é encenada pela montagem que funde o plano em que Rosa revela um segredo comprometedor de Anselmo e outro em que uma ação do homem exemplifica seu comportamento imoral.

Nem sempre as lembranças da infância carregam sofrimentos e tristezas como a própria protagonista admite. A convivência entre Ana e Rosa, de certa maneira, proporciona o amparo que nenhum outro adulto consegue dar à menina através de conversas sobre as virtudes de María ou participando das brincadeiras infantis sobre a maternidade. Além disso, são as trocas entre as irmãs que produzem exemplos simples de amor e carinho. Maitê apresenta a ingenuidade típica da filha mais nova e Irene preserva os mesmos traços apesar da cobrança pela maturidade por ser a mais velha. O trio oferece algum alívio em meio às dificuldades do contexto familiar, sobretudo, quando estão se divertindo juntas. Pode ser a corrida para brincar de esconde-esconde em uma fazenda ou a dança para acompanhar a canção “Por que te vas“. Mesmo que tenha um sentido melancólico sobre a ausência dos pais e as promessas de amor que partem com eles, a cena em que as três danças juntas consegue gerar beleza e delicadeza diante de um cenário tão desalentador.

Ainda assim, não se pode negar que a morte exerce uma influência incomum sobre Ana. Não se trata apenas de indícios óbvios que se referem aos falecimentos de Anselmo e María, mas de vários outros incidentes ou detalhes em torno da personagem. Ela entende que uma substância que escondeu a pedido da mãe seria veneno e oferece a avó em um momento em que a senhora considera o suicídio; manuseia uma pistola dada pelo pai como herança; enterra o animal de estimação; grita para as irmãs fingirem estar mortas durante o esconde-esconde; e reage impulsivamente desejando a própria morte ou da tia Paulina quando se sente solitária ou indignada com a disciplina imposta pela mulher. A morte também pode ser compreendida simbolicamente como um ponto de ruptura radical entre as gerações, sejam dentro de uma mesma família, sejam na sociedade espanhola pós-franquismo. É nesse corte geracional que as crianças podem se sentir desamparadas pelos adultos e os setores conservadores podem se enfraquecer com a redemocratização do país e a mudança de mentalidade do povo.

Cria corvos” domina a sensibilidade de trabalhar temas densos e dramáticos valorizando o olhar infantil. Tendo como base a trajetória de Ana durante as férias escolares, a narrativa discute o peso de tragédias e a sensação de abandono das crianças pelos adultos. Simultaneamente, a morte de um militar franquista e o desmantelamento de famílias tradicionais podem indicar a transformação profunda que a Espanha passava na década de 1970 com o fim de uma longa ditadura. Desse modo, a reposta da protagonista à saudade que sente da mãe e ao descontentamento que nutre da tia pode ser tanto extrema quanto ingênua. O resultado não é a morte que Ana, em um rompante impulsivo desejou. A lição a ser aprendida pode ser que a vida é mais complexa e dura do que a infância prometia até então. Apesar das frustrações e dos tormentos, seguir vivendo é uma escolha que pode levar a experiências positivas e acolhedoras. O aprendizado não rende um desfecho absolutamente feliz ou triste, mas a consciência de que a melancolia pode ser um convite a reflexões necessárias sobre as próprias emoções e a aceitação das ambiguidades da vida. É assim que as irmãs voltam para a escola ao som de “Por que te vas“.