“CRIADAS” – Triunfo da ancestralidade sobre o presente
Há muitas temporalidades em CRIADAS. As protagonistas se reencontram no presente narrativo e lidam com suas próprias angústias pessoais e profissionais. As questões mal resolvidas do passado em comum retornam e geram tensões entre elas. As duas mulheres negras também são influenciadas pelo legado étnico e histórico de gerações predecessoras, tanto na família quanto na formação social brasileira. Na relação entre passado e presente, o filme se sai melhor ao representar a ancestralidade como uma manifestação espectral que transborda por muitos períodos do que ao trabalhar a contemporaneidade por meio de um didatismo político.

Muitos anos depois, Sandra retorna à casa de sua prima Mariana em busca de uma foto da falecida mãe, que trabalhou como empregada residente para os pais de Mariana. Embora elas tenham crescido juntas, viveram a casa e a infância de formas muito diferentes. Ao se reconectarem no presente, as duas voltam a ter contato com memórias até então enterradas. Nesse processo, fantasmas da infância, relações ancestrais e amores permanentes deixam suas marcas nas personagens.
O convívio entre as duas mulheres pode parecer afetuoso em um primeiro instante, mas logo revela dores e frustrações. A princípio, procuram a fotografia, dividem a residência e se apoiam na vida pessoal e profissional. Com o passar do tempo, conflitos adormecidos ganham o primeiro plano e reconfiguram a amizade entre elas. No passado, Ivone, mãe de Sandra, deixou de ser tratada como familiar ao começar a trabalhar como empregada de Olívia, mãe de Mariana. O trabalho não incluiu garantias trabalhistas nem uma consideração maior pela situação das duas crianças. A ascensão social dos pais de Mariana marcou diferenças de classe em relação a Sandra. A primeira é negra de pele mais clara e tem uma emprega portuguesa de pele mais escura trabalhando para ela, enquanto a segunda é negra retinta e não aprova alguém a servindo. A partir daí, o filme discute racismo, colorismo, conflitos de classe, a presença imigrante no Brasil e a fusão entre relações familiares e profissionais.
As discussões são mais profícuas quando a diretora Carol Rodrigues recorre aos simbolismos das imagens. Os objetos cênicos e a composição dos planos traduzem visualmente o peso do colonialismo e da escravidão na história do país e nas trajetórias de vida das personagens. A decoração da casa carrega a influência do passado no presente: os livros de autores negros, como Octavia Butler, os artefatos materiais, como as máscaras típicas de culturas tradicionais africanas, e uma pintura sobre uma figura feminina nua ligada à natureza. Ao redor do imaginário cultural das obras de arte, ganha destaque a tela “A redenção de Cam“, que representa o projeto eugenista de embranquecimento da população brasileira no século XIX. Em mais de uma ocasião, o quadro aparece pegando fogo e se reintegrando ou sendo dramatizado por atores. Assim, a tela sugere a persistência da violência e dos preconceitos na sociedade ao longo do tempo. Além disso, a cineasta constrói momentos específicos para interligar tempos distintos, como a transição do presente para a infância no sonho de Sandra a partir de raccords de movimento na montagem e o plano detalhe do cozimento de cebola em meio ao sangue de um dedo cortado de Sandra (evocativo também da continuidade da violência racializada no Brasil).
Simultaneamente, Carol Rodrigues trabalha o realismo fantástico para dar conta das relações conflituosas entre as duas mulheres. As versões infantis de Sandra e Mariana aparecem constantemente, dando a entender que as memórias ainda estão vivas e são capazes de interagir com o presente. As crianças surgem conversando, brincando ou ouvindo histórias dos adultos a partir de movimentos dos próprios atores ou da câmera. Por vezes, as protagonistas observam algo no extracampo e a sequência do olhar revela essas imagens do passado. Algo semelhante ocorre quando a perspectiva da câmera se desvia das ações principais na cena para mostrar a penetração das meninas em um tempo diferente daquele que ocupavam. É curioso perceber que a retomada das lembranças não permite que o rosto da mãe de Sandra seja visto, sugerindo que ela passou por um processo de apagamento devido à falta de registros (por isso, a busca pela fotografia). À medida que a narrativa avança, as crianças passam a interferir diretamente nos eventos do presente, como é o caso da cena em que um jogo de facas desaparece. Existem muitas possibilidades de leitura para a escolha pelo realismo fantástico: a representação visual das memórias, a descrição espectral do passado ou a percepção dos fantasmas de traumas não elaborados.
Embora o passado, a infância e a ancestralidade sejam muito valorizados pela trama e pela encenação, o filme também propõe subtramas voltadas para o presente. Sandra se esforça para obter a confiança de seus superiores e ser promovida para cargos mais importantes na empresa de engenharia onde trabalha. Mariana é demitida do restaurante onde sonhava ser chef de cozinha e lida com os obstáculos de conseguir outro emprego. Além dos conflitos profissionais, os desafios emocionais também perseguem as personagens quando os relacionamentos amorosos não são tão simples quanto elas desejavam. A primeira hesita em se relacionar com um colega de empresa por conta do receio de misturar trabalho e emoção. A segunda é muito bem resolvida com relação à homossexualidade, mas se desentende com seu interesse amoroso quanto às identidades raciais das primas. Quando o roteiro assinado por Carol Rodrigues se preocupa mais com discussões contemporâneas, as primeiras fragilidades saltam aos olhos. Os diálogos carecem de espontaneidade e se assemelham a um discurso sociológico progressista comunicado sem sutilezas pela autora por meio das atrizes. Sendo assim, o texto não consegue escapar dos ensinamentos didáticos sobre racismo, colorismo, formas de violência cotidiana e outras questões correlatas.
No decorrer da obra, o uso simbólico de algumas imagens também se desgasta e passa a depender dos recursos visuais mais óbvios. Enquanto Carol Rodrigues explorava os significados da pintura “A redenção de Cam” e as aparições de “fantasmas” infantis no presente, a temática da reverberação da violência, do racismo e do colonialismo em diferentes períodos históricos é desenvolvida com sofisticação. No entanto, o desfecho dos conflitos gira em torno de metáforas preguiçosas: uma prateleira suja de pó apesar da limpeza sucessiva pretende transmitir a persistência das mazelas do passado diante dos esforços do presente para combatê-las; os atritos e os ruídos de comunicação entre Sandra e Mariana são retratados apenas como uma parede interposta entre elas; e os traumas sociais e familiares provocados pela exploração do trabalho da mãe de Sandra são relacionados à casa, o que exige uma atitude radical contra a construção. Os três exemplos mencionados remetem ao texto engessado que tenta dar conta das questões sociais trabalhadas ao longo da narrativa, pois perdem sutileza e deixam de encontrar outras possibilidades visuais mais criativas para as contradições sociais do pais e da família das protagonistas.
As diferentes temporalidades mobilizadas fazem de “Criadas” um filme ambicioso que discute questões sociopolíticas complexas no texto e na forma. No fim das contas, o roteiro não equilibra tão bem a abordagem de temas raciais e sociais que atravessam a história do Brasil e a naturalidade das falas no contexto das personagens e da trama. Por isso, os núcleos que representam o presente narrativo ficam reféns da exposição simplificada dos impactos da escravidão, do racismo e do elitismo na sociedade brasileira. Já a construção visual apresenta escolhas formais mais elaboradas que produzem resultados estéticos e sensoriais mais interessantes, como a abertura para um realismo fantástico a partir das aparições quase espectrais das crianças e a utilização simbólica de determinadas imagens (a pintura “A redenção de Cam” e os registros fotográficos e audiovisuais da infância) de Sandra e Mariana. Ainda assim, a interação entre passado e presente a partir das imagens pode ser instável em certos momentos. Pode ser proveitosa quando, por exemplo, os personagens do passado interagem explicitamente com as duas mulheres adultas. Não tem o mesmo efeito quando, em outras ocasiões, as metáforas são óbvias. Entre erros e acertos, a obra cresce por conta do trabalho das atrizes Ana Flavia Cavalcanti e Mawusi Tulani, ambas capazes de ressaltar as contradições de duas mulheres que nutrem carinho uma pela outra, porém sentem os impactos das suas próprias trajetórias de vida e da história do Brasil na pele.



