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“DIGGER” – Quando há surpresas demais

Antes de o filme propriamente ter início, seu diretor endereça à plateia um pedido expresso de que não se estrague a experiência alheia através de spoilers. Com isso, pode-se presumir que DIGGER é uma produção com surpresas. Uma delas é o mero fato de se tratar de uma sátira, gênero novo na filmografia de seu realizador. Outra ocorre já nos primeiros minutos, quando uma imagem revela não ser o que parece, fazendo uma rima visual com uma das cenas finais. Quando a sessão se encerra, a sensação deixada é a de que há surpresas demais.

Digger é um homem poderoso e muito rico. Quando o mundo se depara com um desastre ambiental, ele assume a missão de salvar a humanidade.

(© Warner Bros. / Divulgação)

O que há de melhor no longa é o eloquente design de produção elaborado por Dennis Gassner. Por exemplo: Digger é um homem (extremamente) branco de certa idade e com sobrepeso; sua residência é recheada de arte taxidérmica e em seus amplos recintos prevalecem tons castanhos; e seu figurino é composto geralmente de botas, chapéu de caubói, cinto com fivela de metal e gravata texana. Dessas características meramente visuais é possível inferir características a sua persona, como o fato de ser rico, quase certamente um conservador, muito provavelmente do sul dos EUA. O trabalho de maquiagem é soberbo tanto ao envelhecer e engordar Tom Cruise quanto para fazer com que tantos homens brancos assumam tonalidade cutânea cadavérica. A construção dos cenários é esplendorosa ao edificar espaços eficazes em sentido literal, sem perder a função simbólica. É o que ocorre, dentre outros, com o aviário, uma sala com paredes esverdeadas e raízes e troncos de árvores secos indicando que a natureza pode ter sido rica naquele local no passado, mas que certamente deixou de sê-lo há muito tempo, tal como ocorre com o mundo exterior (oportuno mencionar que um dos temas principais do longa é a preservação ambiental). O figurino assinado por Jacqueline West dialoga com os demais elementos gráficos, fazendo com que Digger se destaque: em uma cena, seu terno cinza destoa do verde dos demais ternos e das paredes; em outra, o tom cinzento do recinto (paredes, chão e teto) e dos vestuários contrasta com seu terno marsala.

Sendo “Digger” uma sátira, é natural o emprego de ferramentas comuns no gênero. Com isso, o protagonista é uma pessoa exótica que reúne as características criticadas pelo longa, sobretudo no que se refere aos valores pregados. Cruise interpreta duas personagens na obra, deixando bastante clara, basicamente pela prosódia, a diferença entre elas. As demais personagens também refletem essa questão axiológica: o corpo franzino de Riz Ahmed e da postura amedrontada que adota (o corpo que se encolhe, a gagueira sutil) denotam um cientista desdenhado; John Goodman e Michael Stuhlbarg interpretam políticos ególatras, capazes de comparar a própria saúde à do planeta, e medrosos, incapazes de assumir uma responsabilidade moral. Salvo pelas personagens de Sandra Hüller e Sophie Wilde, as mulheres são assumidamente irrelevantes na trama (é significativo, porém, que os desastres naturais recebam nomes femininos).

Todos esses elementos traduzem uma crítica a um perfil ideológico de pensamentos anticientificistas, meritocratas, militaristas, machistas, xenofóbicos, hipócritas, ególatras, irresponsáveis etc. A sátira, portanto, é política, mas o roteiro escrito pelo diretor Alejandro G. Iñárritu junto de quatro outras pessoas é muito melhor nas hipérboles (reforçadas pelas atuações caricatas e pelos estereótipos) do que no sarcasmo. O script é muitas vezes literal em demasia, com mensagens dotadas de didatismo (como quando Ganesh explica a culpa de Digger) e piadas fáceis (a fala sobre “penetrar nos buracos da Terra”, por exemplo). O longa está aquém da perspicácia de sátiras como “Dr. Fantástico” e “Brazil: o filme”, mas é conspicuamente uma obra de Iñárritu. Para citar apenas as produções mais recentes, de “O regresso” vem a relação da humanidade com a natureza (e o quanto a segunda pode massacrar a primeira); de “Bardo, falsa crônica de algumas verdades” e de “Birdman ou (a inesperada virtude da ignorância)”, a metalinguagem e a reflexão sobre a atuação e o mundo do entretenimento.

É justamente na metalinguagem – e a partir daqui haverá spoilers relevantes – que o filme entra em uma espiral que não se justifica suficientemente. Norteado por uma ânsia de surpreender o espectador, Iñárritu transforma os cenários de maneira extremamente criativa, seja por desconstruções (mostrando maquetes, projeções, névoa etc.), seja por simples movimentos de câmera (para mostrar que aquilo é um palco diante de uma plateia). A metalinguagem propicia um aceno à indústria, como na insistência em ser chamado pelo nome da personagem e na precariedade das condições do teatro (ficam sem água, usam ventiladores etc.). Por outro lado, essa escolha reduz drasticamente o impacto crítico, pois um filme que é a encenação de uma sátira, a rigor, não é uma sátira (no máximo, a contém). Ao invés de mergulhar no gênero, Iñárritu grita para o espectador que o que está sendo visto não é o que parece, como se isso bastasse para exercer fascínio. Isso ocorre até mesmo no epílogo, em que o cineasta tenta ressignificar praticamente todo o filme, mas que seria muito mais interessante se fosse restrito ao final. A revelação de que Digger é uma personagem dentro do filme acontece cedo e tem como desdobramento principal um subplot envolvendo o ator (leia-se, o ator que Cruise interpreta e que está interpretando Digger) que leva a uma ironia curiosa, mas dispensável. Como resultado, ao invés de pensar na crítica social proposta e no abalo do desfecho, os holofotes repousam no fato de que aquilo tudo não é real – como se os perigos apontados também não o fossem.