“DOLLY: A BONECA MALDITA” – Direto do túnel do tempo
Os anos 1970 e 1980 são referências para o cinema de terror até os dias atuais. O slasher, o gore e o giallo são subgêneros e abordagens que definiram alguns códigos visuais e estruturas narrativas, tornando-se inspirações incontornáveis para realizadores do presente. Em alguns casos, a influência pode ser indireta, já em outros, pode ser um diálogo mais explícito. Esta segunda possibilidade corresponde a DOLLY: A BONECA MALDITA, um filme de terror que reverencia a todo instante “O massacre da serra elétrica“. Enquanto certas homenagens ajudam a criar a atmosfera de horror, outras relações com o clássico dos anos 1970 desconstroem a própria unidade que vinha sendo construída para a obra recente.

Na trama, Macy e Chase são um casal que explora uma floresta em busca de uma experiência especial com a natureza. Aproveitando-se da ocasião, ele pretende pedir a noiva em casamento. Consciente do pedido iminente, ela hesita quanto à decisão de aceitar ou não o pedido. Antes da aliança para o matrimônio ser oferecida, os dois são colocados frente a frente com um perigo mortal: uma figura monstruosa e perturbadora os cerca e os ataca. Macy, então, é levada para uma casa abandonada onde passa a ser tratada como a filha daquele ser misterioso e teme pela própria vida.
As referências a “O massacre da serra elétrica” aparecem desde os primeiros minutos. A sequência inicial trabalha com a estranheza: uma figura oculta mexe em uma tesoura e em bonecas, o sangue está em suas mãos e na cama abaixo dela, os planos fechados confundem as poucas informações disponíveis e a abertura do quadro finalmente mostra um cadáver sem cabeça deitado. Nessas cenas, a fotografia emula a textura de uma película suja e crua muito semelhante ao filme de Tobe Hoper. Em seguida, a apresentação de Macy e Chase é feita com uma viagem de carro em que se escuta pelo rádio uma canção country do sul dos EUA. A combinação de todas as características anteriores cria a sensação de que a narrativa poderia se passar nos anos 1970, prestar homenagens àquele período do terror e definir uma ambientação estranhamente perturbadora através dos poucos sinais dados.
Pouco tempo depois, o casal se depara com uma estranha figura na floresta onde pretendiam acampar. Trata-se de um personagem que simboliza o típico assassino psicopata do subgênero slasher através da caracterização, atmosfera no entorno e nas ações praticadas. A pessoa aparenta ser uma mulher, porém sem idade definida, que utiliza uma máscara de boneca de porcelana e uma roupa vermelha infantilizada. Logo, o rosto está encoberto e sua identidade é misteriosa. Na área onde os protagonistas a encontram, uma ambientação de horror foi criada com a disposição de várias bonecas de fisionomia assustadora no chão e nos galhos das árvores. E todo o comportamento dela revela um estado emocional perturbado, como a repetição de gestos incoerentes com as mãos e os ataques brutais contra as vítimas mutiladas e torturadas. Neste último ponto, o trabalho de composição física da atriz Max Lindsey é fundamental para evidenciar sua força, violência e imponência corporal como uma ameaça quase sobrenatural que se move de forma inflexível para o objetivo. Além disso, ela se constitui como um vilão no estilo de Leatherface, Michael Myers e Jason Voorhees ao ser apresentada sem qualquer explicação de sua origem.
Macy e Chase são atacados pela vilã, nomeada posteriormente como Dolly, e sofrem as consequências desse encontro violento. Eles são afastados e a mulher é levada para uma casa em ruínas em um local longínquo, onde as referências a “O massacre da serra elétrica” continuam. A habitação é insalubre, suja, devastada e mal conservada, remetendo ao clássico dos anos 1970, embora o novo filme não destaque tanto o design de produção como recurso visual que transmita a deterioração moral do ambiente. Por mais que o diretor Rod Blackhurst não priorize a composição estética do lugar, ele associa muito bem o espaço familiar à desestruturação da família de Dolly. A vilã sente a ausência da mãe, ainda que não consiga expressar o sentimento de perda, e mantém uma relação doentia com o pai. Se na obra de Tobe Hooper também havia uma família desequilibrada que representava a exposição dos humanos como animais a serem abatidos, o projeto em questão relaciona um lar desestruturado à infantilização perigosa da antagonista. Então, Macy é tratada como uma boneca ou uma criança que precisa de cuidados, o que a coloca em situações deturpadas e repulsivas de alimentação ou atendimento médico.
Em termos dramáticos, a narrativa acerta ao não buscar explicar a dinâmica da família de Dolly e os fatos que a levaram a uma condição extrema. Imaginar as relações que se estabeleceram entre mãe, pai e filha já é suficiente para potencializar o horror observado na casa e nos atos violentos. Entretanto, as escolhas estilísticas para estruturar a história não possuem os mesmos efeitos bem-sucedidos. O roteirista Brandon Weavil divide o roteiro em sete capítulos sem conseguir lidar com as implicações desse caráter episódico. À primeira vista, é possível supor que essa decisão pretende dar à narrativa um aspecto perturbador de fábula sombria. Com o passar do tempo, os problemas da divisão em blocos se sobressaem. A duração do filme como um todo não é muito longa, girando em torno de uma hora e vinte minutos, o que dificulta uma organização equilibrada entre os capítulos. Logo, há uma discrepância considerável no ritmo. E, sobretudo, não há uma sequência lógica de um bloco para outro porque os primeiros têm títulos que se referem ao tema da família (mãe, filha, casa e pai), mas os últimos são meras alusões a fatos da trama (o reencontro, a luta e a despedida).
Consequentemente, a divisão em capítulos é um exemplo de como a obra não se sai tão bem quando insere elementos diferentes dos diálogos com o slasher e “O massacre da serra elétrica“. A sensação é a de que as referências visuais e narrativas setecentistas cabem melhor para o desenvolvimento de noções distorcidas de família e infância sob a chave do horror. Outra tentativa insatisfatória de trabalhar algo singular ocorre na sequência do terceiro ato em que Macy foge da perseguição de Dolly pela floresta. São momentos em que a angústia, o desespero e o medo da protagonista são encenadas de maneira mais estilizada, contando com movimentos trêmulos da câmera, variações abruptas da angulação dos planos e uma decupagem acelerada. Tais recursos se distanciam de abordagens naturalistas e traduzem a dimensão subjetiva da personagem. Não são escolhas frustradas por si mesmas, como se não pudessem ser feitas ou fossem inerentemente ruins, mas porque não se adequam à unidade estética construída até ali. A crueza da encenação proposta no início se choca com a estilização de sequências futuras.
Embora o filme defina como ponto de partida os diálogos com o cinema de terror slasher dos anos 1970 e 1980, as contradições geradas por decisões criativas discrepantes surgem como uma questão delicada ao longo da narrativa. A ideia seria utilizar as convenções do subgênero? Há elementos que sustentam essa visão. Dolly é a assassina que sempre ressurge independentemente do que se faça com ela, Macy se encaixa no tropo da final girl e as mortes gráficas se sucedem. A intenção seria acrescentar aspectos próprios? Há alguns exemplos, como a divisão em capítulos e o uso de um humor mórbido acerca do caráter infantilizado da vilã. A opção seria escancarar a inspiração de “O massacre da serra elétrica“. O desfecho do arco de Macy e a decupagem da sequência final são referências indiscutíveis. Talvez fosse mais orgânico combinar os pontos anteriores de forma mais bem-sucedida se “Dolly: A boneca maldita” não se esforçasse também para sugerir uma continuação. Uma canção que expõe isso didaticamente e uma cena pós-créditos, de fato, não acrescentam mais benefícios ao que já havia sido feito.



