“DORMIR DE OLHOS ABERTOS” – Na linguagem do estrangeiro
O senso comum diz que o Brasil e seus habitantes são hospitaleiros, acolhedores e calorosos. O estereótipo acrescenta o calor, as praias, a caipirinha e o carnaval a uma imagem mundialmente difundida. DORMIR DE OLHOS ABERTOS se distancia das expectativas mais usuais e retrata outra experiência estrangeira no país. Ao acompanhar as trajetórias de três imigrantes chineses, o filme enfoca a solidão e a melancolia de uma terra que pode ser estranha, desconfortável e hostil a quem não domina seus códigos, línguas e práticas.

Kai, Fu Ang e Xiaoxin são três imigrantes chineses que tentam traçar seus próprios destinos em Recife. A primeira está em uma viagem de férias após ser abandonada pelo namorado no aeroporto. Ela conhece o segundo personagem enquanto anda pela cidade e chega à loja de guarda-chuvas onde o homem trabalha. Em certo dia, Fu Ang desaparece e leva Kai a procurá-lo pela capital pernambucana. Na busca, toma contato com os cartões postais escritos por um grupo de trabalhadores que vivem em um prédio de luxo, entre eles Xiaoxin. As três histórias se entrecruzam e formam um painel de idas e vindas de estrangeiros distantes de sua terra natal.
Mesmo separados pelas atividades que fazem, pelos estágios em que estão em suas vidas e pelas áreas em que frequentam de Recife, os três protagonistas se encontram espiritualmente. Eles compartilham situações que causam sensações semelhantes de cansaço, solidão e incomunicabilidade. Algumas podem indicar a proximidade de um crime ou de um golpe: o vendedor ambulante que tenta negociar um pulseira com Kai, o furto do celular de Fu Ang e as condições de trabalho análogas à escravidão para Xiaoxin. Em outros momentos, são diferenças culturais e comportamentais em relação aos brasileiros que não são facilmente contornadas. As particularidades da língua portuguesa e da culinária brasileira são alvo de reclamações e a onipresença de festividades carnavalescas é motivo de questionamentos. Porém, nada disso vem acompanhado de ações ou falas muito contundentes por parte dos personagens.
Ao invés de reagirem de forma veemente, os imigrantes são contidos e resignados. As atuações de Chen Xiao Xin, Liao Kai Ro e Wang Shin-Hong chamam a atenção para o fato de que Kai, Fu Ang e Xiaoxin não diferenciam momentos de felicidade, tristeza, prazer, dúvida, irritação e fúria. Prevalece a impassibilidade que sugere como aquelas figuras se encontram afastadas dos próprios sentimentos ou estão em uma condição tão solitária que nem mesmo suas individualidades se tornam um refúgio. Embora existam ocasiões em que rompantes intensos poderiam acontecer, as performances e a encenação drenam as emoções. É o caso de um desentendimento entre os trabalhadores presenciado por Xiaoxin. As expressões corporais dos atores indicam mais um temperamento ácido do que uma personalidade intempestiva, assim como a decupagem da diretora Nele Wohlatz distancia o público de qualquer conexão emocional. No máximo, pode-se ouvir desabafos sobre não sentir mais o cheiro da sua pele (confundido com cheiros estranhos de outra terra) e perder países em suas vidas como metáforas para a fragmentação de suas identidades.
Em um primeiro instante, pode parecer que a obra depende muito do texto e das interações entre os personagens em diálogos mais diretos sobre a situação em que se encontram. A partir de uma observação cuidadosa, as escolhas estilísticas de Nele Wohlatz são perceptíveis. A cineasta pode até assumir a discrição dos personagens para representar as trajetórias de imigrantes chineses no Brasil, mas não o faz desperdiçando elementos específicos da gramática audiovisual. O aspecto preponderante é o registro da cidade de Recife sem glamour nem idealização, já que o local não é apresentado como um ponto turístico a aparecer em cartões postais. Quando as praias são filmadas, predomina uma sensação de desamparo porque surgem sob a escuridão da noite ou sob um filtro de luz azul e frio contrastante com um dia ensolarado, sendo muitas vezes um ambiente vazio por conta da ameaça de tubarões. A mesma iluminação melancólica é utilizada para o centro da cidade, que se alterna entre um espaço simples de comércio popular ou apático de pouco movimento.
O trabalhado realizado para representar a cidade e situar o estado de espírito dos protagonistas não tem a mesma força quando precisa lidar com o entrelaçamento de três núcleos narrativos. Em parte, o filme sofre da armadilha de criar subtramas que não conseguem manter o mesmo grau de interesse ou de gerar tanta resposta afetiva dos espectadores. Em outro nível, a relação entre os núcleos carece de um refino maior para que a passagem de um para o outro desenvolva uma sequência dramática coesa. Não se trata aqui de esperar a aplicação de uma lógica racional para a narração dos eventos, já que a diretora não tem dificuldades para fazer os personagens desaparecerem por um tempo e retornarem minutos depois. Trata-se, na realidade, de não conseguir superar os obstáculos de iniciar com a história de Kai (a menos atrativa), passar para Fu Ang (a menos desenvolvida dentre as três) e chegar a de Xiaoxin (a de maior potencial dramático). As duas subtramas para os primeiros protagonistas crescem apenas no final quando a dificuldade de comunicação os reaproxima em uma praia vazia.
“Dormir de olhos abertos” opta por uma representação menos tradicional para trabalhar a condição dos imigrantes no Brasil. Mesmo aqueles filmes que adotam uma perspectiva crítica em relação à chegada de estrangeiros em nosso país, a abordagem visual contraria essa escolha ao trazer imagens belas de cartões postais que não dialogam com as condições dos personagens. Ao contrário disso, o trabalho de Nele Wohlatz se preocupa com a forma com a qual pode expressar recém-chegados que não se sentem acolhidos por um povo tido como sempre hospitaleiro e caloroso. Por isso, a linguagem é um aspecto crucial. É importante para lidar com as confusões de diferentes idiomas tentados em uma terra estranha e para representar uma cidade não tão turística assim (vislumbrada assim rapidamente nos créditos finais quando a câmera se afasta de Kai e Fu Ang). E continua relevante até quando se coloca como um problema para equilibrar três subtramas correndo em paralelo para se encontrarem e se desencontrarem.



