“DRACULA” (2025) – Extrapolando em excesso os limites do exagero razoável [49 MICSP]
Desde a era do cinema mudo, existem inúmeras versões da história de Drácula no cinema. Nenhuma delas, porém, é comparável ao DRACULA de Radu Jude, um confesso Frankenstein que carrega as características da filmografia de seu realizador, mas extrapola – e muito – os limites do exagero razoável.
Um ator fracassado interpreta Vlad, o Empalador – também conhecido como Drácula – em um restaurante. Ao mesmo tempo, várias outras histórias com temática draculesca também ocorrem.

Diversos elementos recorrentes da filmografia de Radu Jude são retomados em sua versão do famoso vampiro. Ainda mais obsceno que os demais – vale lembrar que uma de suas obras sugere teor sexual no próprio título, “Má sorte no sexo ou pornô acidental” -, o diretor se revela obcecado pela vulgaridade e com piadas de cunho sexual, verbais ou não. O humor não tem limites, variando entre o gráfico (como o Popeye no mamilo) e o narrativo (como ao citar pessoas reais na clínica), sendo muitas vezes estúpido (como uma cabeça raspada onde se vê um rosto) e até mesmo infantil (como a simulação do slow motion). Com altas doses de sarcasmo (por exemplo, quando uma personagem afirma não concordar com a vulgaridade), episodicamente, surge uma comédia com alguma inteligência na sátira (por exemplo, na versão empregador do Drácula). Também como sói ocorrer nos filmes de Jude, o padrão muitas vezes é abandonado. Aqui, porém, o padrão é justamente não ter um padrão: uma sátira social se transforma em filme de zumbi, um filme mudo repentinamente ganha falas etc.
Em termos de linguagem, existe certo experimentalismo no longa: a quebra da quarta parede em uma conversa com uma IA e com o público (com altas doses de sarcasmo e provocação), o uso pontual de animação (cuja qualidade se assemelha à dos videogames, tema que é até mesmo central em uma das narrativas), o emprego de wipes na montagem exclusivamente para um arco narrativo específico, a apropriação (ou reencenação) de filmes clássicos e a constante metalinguagem. Essa última característica permite uma abordagem multifacetada da figura lendária, que vai do olhar histórico (com referência a Vlad Tepes, também conhecido como Vlad, o Empalador) às variantes da sétima arte. São citados, dentre outros, “Nosferatu” (1922), de Murnau; “Drácula” (1931), protagonizado por Bela Lugosi; “O vampiro” (1932), de Dreyer; “Nosferatu – o vampiro da noite” (1979), de Herzog; e “Drácula de Bram Stocker” (1992), de Coppola.
A despeito da riqueza na linguagem, a obra de Jude se excede nos excessos. Suas quase três horas de duração são escancaradamente desnecessárias, sobretudo considerando as repetições e a perda de foco. Um trabalho melhor na montagem poderia reduzir o filme a menos de duas horas sem perda de conteúdo, pois a ideia principal – uma sátira às histórias de Drácula – seria mantida sem prejuízo. Faz sentido fazer piadas sexuais, uma vez que narrativas draculescas contêm um subtexto nesse sentido, contudo, o que o cineasta apresenta é um “supratexto” sexual, pois as piadas desse teor são reiteradas à exaustão. Isso torna o filme cansativo e demasiadamente repetitivo, o que ocorre constantemente até mesmo nas piadas não sexuais (é o caso do cuspe em um dos arcos narrativos). Por via de consequência, o que começa engraçado se torna enfadonho e até certo ponto irritante à medida que as “digressões” (palavra empregada expressamente) do diretor não cessam.
No caso específico dessas digressões, sob a ótica micro, elas incorrem na repetição, sob a ótica macro, na perda de foco. A narrativa principal – a do ator fracassado – gera algum interesse, mas é entrecortada por outras narrativas, menores, como se fosse um objeto penetrado por múltiplos projéteis atirados por uma metralhadora. Entre a clínica de rejuvenescimento, a residência real de Vlad, um caso de amor em cenário bucólico, uma sessão no dentista, o ceticismo de um acadêmico, uma greve de trabalhadores, uma plantação de “rolas” (sic) e um gari, esse ator é obnubilado e perde o interesse. Talvez a falta de material criativo para sustentar o arco narrativo do ator justificasse a adição de outros arcos, mas o resultado é contraproducente, na medida em que o longa perde seu ponto de foco e, sob pretexto de piadas infindáveis (que já não são mais engraçadas em razão da recorrência), suga mais a energia do espectador do que a quantidade de sangue que um vampiro suga de suas vítimas.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

