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“ELIO” – A solidão atual da Pixar

Sociedades, culturas, superstições, mitologias sempre se perguntaram se a humanidade está sozinha no universo. Séculos depois, a ciência se aventurou pelo mesmo terreno e projetou essa dúvida existencial. Na abertura e no desfecho de ELIO, uma narração em voice over coloca o questionamento “Estamos sozinhos?”. A interrogação faz parte de um paralelo maior que o filme estabelece com a situação do protagonista e os conflitos entre pais e filhos. Trata-se de uma abordagem familiar para a Pixar Animation Studios – combinar uma aventura lúdica/juvenil a uma discussão emocional densa -, porém o resultado vai contra o histórico da empresa e a própria mensagem que o tema pretendia transmitir.

(© Disney / Divulgação)

O título da animação vem de seu personagem principal, o menino Elio. Ele perdeu os pais e passou a ser criado pela tia Olga, uma oficial das Forças Armadas encarregada do monitoramento de detritos na órbita terrestre. O jovem sempre se sente solitário e esquecido, exceto quando está fazendo algo relacionado ao espaço e à vida alienígena. Após mais uma tentativa de se comunicar com seres fora do planeta, é transportado para o Comuniverso e identificado, por engano, como o líder da Terra. Para conquistar o cargo de embaixador e permanecer naquele mundo, precisa negociar a paz com o temido Lord Grigon.

No primeiro ato, a apresentação dos personagens e dos dilemas dramáticos é apressada. Os diretores Domee Shi, Madeline Sharafin e Adrian Molina parecem mais dispostos a colocar logo Elio dentro da aventura do que a desenvolver o protagonista e sua condição emocional inicial. Então, os eventos se sucedem em uma velocidade tão grande que o espectador mal consegue se importar com tudo o que presencia: o relacionamento difícil entre sobrinho e tia na cena da refeição, a ida do menino para uma exposição fechada, o fascínio pelos mistérios do espaço, a solidão em casa, os planos para a comunicação com aliens na praia, os novos desentendimentos com Olga, a chegada de sinais alienígenas, a ida de Elio para um acampamento, as brigas com outros meninos e, enfim, a “abdução”. Como a narrativa se preocupa em demasia com a dimensão factual, deixa de lado a construção do protagonista e dos conflitos em que se encontra. Como o garoto pode ser caracterizado? Ele tem grande interesse pelo tema da vida fora da Terra e acredita que saindo do planeta encontrará seu lugar no mundo. Algo mais? Nada. Nenhuma característica específica, nenhum traço de identificação com o público ou momentos marcantes para representar as diferenças com a tia.

A obra se desenvolve e o segundo ato chega quando o menino é levado para o espaço. A partir daí, os problemas se intensificam. Em tese, a sinopse promete que Elio tem uma imaginação fértil e sugere que o mesmo pode ser esperado da descrição do novo ambiente para onde vai. Nos dois casos, a promessa e a sugestão não se concretizam. Não há nada chamativo nem inventivo para a construção de um universo particular com figuras distintas. As características visuais e espaciais do Comuniverso não são valorizadas, parecendo apenas um satélite espacial. Outros espaços não são sequer vislumbrados para conhecer a vastidão do desconhecido, com exceção de outra nave, aquela que transporta os hylurgianos. As criaturas não são destacadas através de aspectos físicos ou comportamentais peculiares, fazendo com que estejam ali simplesmente para povoar o cenário em questão. A própria ideia de troca de saberes no Comuniverso aparece na sua introdução e é logo esquecida, inclusive sempre dependendo de práticas que possuem um correspondente óbvio na humanidade (clonagem, manual de instruções universal, aparelho de tradução de idiomas…). No fim das contas, as locações, as criaturas e o desenvolvimento dramático parecem uma reciclagem mal resolvida de “Monstros SA“, “Divertida Mente” e “Wall-E“.

Quando os embates entre Elio e Lord Grigon ganham o primeiro plano, os subtextos são percebidos com facilidade. A dúvida que a humanidade tem em relação a ser a única forma de vida no universo se mescla com a preocupação do jovem de continuar se sentindo solitário. O risco de não ficar no Comuniverso reforça seu medo diante da possibilidade de ter que voltar para a Terra e para uma realidade infeliz. O encontro com Glordon, o filho de seu antagonista, redireciona as disputas para a reflexão sobre as relações entre pais e filhos. Assim como Elio e Olga, os dois hylurgianos também se desentendem no dia a dia e quanto às expectativas criadas pelos mais velhos para os mais novos. As diferenças geracionais, a dificuldade de comunicação e a pouca demonstração de sentimentos são abordadas pelo paralelo traçado entre as duas famílias. A estratégia narrativa é coerente com a proposta, sobretudo para preparar o clímax emocional do terceiro ato. No entanto, fazer com que todas as interações parentais se adequem às tradições e às características da humanidade empobrece um universo que se pretendia diferente, imaginativo e dotado de especificidades. Não há espaço para identidades e configurações familiares que não repliquem em outra dimensão o que existe na Terra?

Em determinados momentos, os subtextos avançam para outros rumos complementares para o tema da família em crise que se reconstrói. A clonagem de versões alternativas de Elio e Glordon abre o debate a respeito da relação dos pais com imagens idealizadas e artificiais de seus filhos e da aceitação de imperfeições autênticas para seus familiares. A questão não vai tão longe, pois é um rápido segmento que se encerra com uma sequência em que Olga desconfia do que está ocorrendo com o sobrinho e a frase de Lord Grigon de que os pais sempre reconhecem seus filhos. E o arco dramático do protagonista remete sem qualquer dose de originalidade ou visão própria à jornada de Dorothy pelo mundo de Oz para retornar ao seu lar, dando importância a ele. Em ambas as situações, o trio de diretores (também responsáveis pelo roteiro) e os demais roteiristas Mark Hammer, Julia Cho e Mike Jones não conseguem desenvolver o texto de modo a evocar as emoções dos espectadores nas cenas necessárias. É possível notar cada instante que deveria ser um clímax emocional para resolver os conflitos, mas faltam timing e construção visual para que se tornem momentos marcantes.

Pensando na pergunta que aparece no primeiro e terceiro atos, a resposta deveria ser não por duas razões. “Estamos sozinhos?” Teoricamente não. “Elio” responde negativamente porque quer passar a ideia imediata de que pode haver seres e mundos para além da Terra, desde que a imaginação seja fértil. A mesma negativa também se aplicaria à camada simbólica de que somos seres sociais que precisam fazer parte de comunidades. Apesar das intenções, a animação executa o inverso de seus objetivos e dá a entender de que a solidão existe e afeta, inclusive, a própria Pixar. A humanidade não seria a única forma de vida no universo, mas todos os elementos fora do planeta são exibidos como uma versão humanizada e sem criatividade, como se tudo estivesse centrado nela. As referências visuais e dramáticas soam como rascunhos mal formulados de projetos anteriores da empresa ou do cinema em geral, como se novamente a construção criativa apontasse para inspirações mal resolvidas do passado. E a relação de parceria ou comunhão com o outro é esteticamente vazia porque está lá em imagens, mas está ausente em sentimentos não elaborados previamente.