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“ESTRANHOS PRAZERES” – Ligações nada estranhas

Filme assistido na plataforma da FILMICCA.

Estamos diante do fim do mundo? Ao longo da história, os medos da destruição global foram variados. A profecia maia, as catástrofes climáticas, as pandemias e o bug do milênio foram considerados para extinguir a humanidade. O cinema também se interessou pelo tema com diversas distopias sobre futuros pessimistas e devastados, como a franquia “Mad Max” e “O expresso do amanhã“. Em 1995, ESTRANHOS PRAZERES incorporou o espírito daquela década e ampliou o escopo da discussão para dar conta de diferentes “finais de mundo”: os impactos da tecnologia, a flexibilidade dos gêneros fílmicos, as tensões sociais, a produtificação das relações humanas e a crise das barreiras entre passado e presente.

(© Filmicca / Divulgação)

Na trama, Los Angeles se prepara para a passagem do ano 1999 para 2000. Nos últimos dias, o ex-policial Lenny negocia softwares contendo memórias e emoções de outras pessoas. A posse da gravação e o uso de uma aparelho instalado na cabeça permitem a qualquer um acessar experiências vividas por outrem. A vida do protagonista é colocada em perigo recebe um disco que contém informações sobre o assassinato de uma prostituta. Com a ajuda de sua amiga Mace, Lenny precisa desvendar o crime, proteger-se de policiais corruptos em seu encalço e evitar uma revolta popular se o conteúdo da gravação for revelada.

Filmes que questionam a natureza da realidade não são raros e já foram produzidos em distintos períodos históricos. No entanto, a trama e as escolhas visuais de “Estranhos prazeres” remetem a dois trabalhos de David Cronenberg. “Videodrome” e “eXistenZ” trabalham, através de jogos de videogame e da televisão, a ideia de que as diferenças entre o real e o virtual são fluidas e as tecnologias afetam a materialidade do corpo humano. Já Kathryn Bigelow desenvolve um olhar crítico sobre questões gerais da humanidade a partir da fusão ou da ressignificação de gêneros fílmicos. Foi assim em “Caçadores de emoção“, filme de ação sobre os sentidos da liberdade, “Guerra ao terror“, filme de guerra sobre o adoecimento psíquico de soldados em contraste com a exaltação do militarismo e “Quando chega a escuridão“, filme de terror e faroeste sobre as ambiguidades do ser humano.

A situação de Los Angeles na virada do ano, a investigação conduzida por Lenny e o universo fictício de uma tecnologia de acesso às memórias e emoções alheias são representados na encruzilhada de muitas abordagens. A narrativa pode ser uma ficção científica distópica por imaginar um artefato utilizado por um mercado clandestino para gerar prazer instantâneo, assim como pode absorver dinâmicas típicas do cinema de ação, a exemplo das sequências de perseguição de carro e de lutas corporais dirigidas por Kathryn Bigelow. O desenvolvimento dramático de alguns personagens possibilita a emergência de outros gêneros. O protagonista, vivido com a imoralidade de um trambiqueiro ainda apaixonado pela ex-namorada por Ralph Fiennes, parece saído de um filme policial ambíguo. Mace, interpretada com um engajamento visceral pelas causas raciais por Angela Bassett, adequa-se a um filme de crítica social. E Faith, criada quase como uma femme fatale desestabilizadora de Lenny por Juliette Lewis, combina muito bem com um filme noir de ambientação sombria.

O fim do mundo não é apenas uma metáfora para os limites estanques entre os gêneros fílmicos e para a apropriação singular de diferentes estilos pela cineasta. Este princípio faz parte da construção expressiva de Los Angeles, uma cidade pulsante que jamais é tratada pela obra como um simples pano de fundo para os acontecimentos. Em primeiro lugar, uma sensação implícita de fim de mundo gira em torno da vivência dos últimos dias de 1999 pelos habitantes em associação com o espaço ao redor (embora não se mencione o bug do milênio). Além disso, o local se alterna entre uma dimensão imaginária característica da distopia e uma caracterização palpável relacionada à reflexão social proposta. Um tipo de futurismo decadente se faz presente na descrição de ambientes muito iluminados pelas tecnologias mais modernas que se contrapõe à miséria, à violência policial e aos conflitos na região. Nesse aspecto, ganha destaque a truculência das autoridades contra a população negra, manifestação de um racismo estrutural que vitima um famoso rapper negro e desencadeia a ira popular.

Kathryn Bigelow também explora as diversas possibilidades metafóricas da tecnologia imaginada. A gravação e a replicação de emoções, experiências e memórias a partir de um sistema integrado ao corpo humano permitem à narrativa desenvolver um universo muito próprio e discutir temas complexos. O trabalho do protagonista faz parte de um mercado clandestino, que evidencia a mercantilização de elementos pessoais e íntimos. Ao mesmo tempo, a experimentação dos materiais gravados pode criar dependência, seja porque se constituiu como um meio fácil de acesso a prazeres imediatos (sobretudo a simulação de relações sexuais, seja porque estabelece um apego às vivências do passado (como o vício de Lenny de reviver antigos momentos com Faith). Esse aspecto, por sinal, enfraquece as distinções entre passado e presente, criando o risco de que os personagens vivam suas vidas em função da replicação ininterrupta de das mesmas experiências já ocorridas em uma temporalidade difusa. E ainda pode haver o questionamento acerca do que seria real, alo percebido na sequência de ação inicial e nas reviravoltas no arco principal em relação à morte da prostituta.

A discussão temática ao redor da tecnologia se amplia quando a reflexão ultrapassa os limites dos fatos da trama. Para além do roteiro ou de alguma implicação específica no desenrolar dos conflitos, as opções visuais da cineasta fazem muita diferença na relação entre público e imagens. A encenação das gravações é guiada por planos subjetivos, na qual a câmera assume a perspectiva do personagem envolvido na cena, sendo assim os espectadores são colocados em posições imaginárias para sentir a adrenalina de um assalto, o prazer de um momento erótico ou a repulsa diante de um assassinato filmado. Afinal, não é este o encanto do cinema? Gerar diferentes impactos sensoriais para as audiências, muitas vezes alternando-se entre reações mais ou menos confortáveis. Há ainda a oportunidade de conter o ritmo frenético da ação ou da história policial para refletir sobre a importância do esquecimento para o bem-estar de nossas vidas. Na voz de Mace, a frase “as recordações são programadas para serem esquecidas” repercute como um alerta para os perigos de memórias que não deixadas para trás.

Estranhos prazeres” parte da premissa de que a tecnologia em questão pode promover ligações variadas sobre o fim do mundo, passando por caminhos pouco usuais. No título original, uma estranheza se manifesta nos últimos dias do ano de 1999 (“Strange days“). No título em português, a estranheza está associada às reações que personagens e espectadores podem ter. De qualquer maneira, as “ligações” citadas não se restringem à conexão do aparelho à cabeça dos usuários. A palavra pode ser empregada para um filme que começa como uma ficção científica distópica, converge para outros gêneros fílmicos, representa uma cidade pulsante em meio às ameaças de fim do mundo, trata de várias simbologias, lida com uma dose de metalinguagem e ainda leva à trama policial para uma conclusão de tensões raciais em uma Los Angeles convulsionada pelo racismo estrutural, pela corrupção e pela violência policial. Ao invés de ser um desfecho apelativo para parecer socialmente relevante, a obra responde às contradições do sistema capitalista com conflitos raciais. Quando as tecnologias estão a serviço da vigilância social ou dos interesses de autoridades repressivas ou empresários, a rebelião tende a ser inevitável.