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“EXTERMÍNIO: O TEMPLO DOS OSSOS” – Memento vivere

A franquia “Extermínio” costuma ser lembrada por dar outra roupagem aos zumbis. Em vez de continuarem como criaturas de movimento lento, passaram a ser mais ágeis, com tremores de fúria e acessos mais violentos. Excetuando o segundo e frustrante filme de 2007, todos os outros foram além da reformulação da imagem do zumbi e propuseram abordagens dramáticas curiosamente inesperadas. É assim que a trilogia atual está fazendo com “Extermínio: A evolução” e o lançamento do novo EXTERMÍNIO: O TEMPLO DOS OSSOS.

(© Sony Pictures / Divulgação)

Na segunda parte da trilogia, Spike continua fora de sua comunidade e se aproxima da seita aterrorizante liderada por Jimmy Crystal. Em paralelo, Dr. Kelson acredita que pode desenvolver uma amizade com o zumbi por ele chamado de Sansão e até descobrir uma forma de reverter a infecção. Os dois núcleos se encontram e criam uma oposição entre ciência e religião, mostrando como a maior ameaça daquele mundo pode vir da humanidade.

Em 2002, Danny Boyle lançou o primeiro “Extermínio” e surpreendeu pelas escolhas visuais e narrativas. A fotografia com baixa resolução e uma estética suja para as imagens combinou com uma dramaturgia de desolação diante da destruição da ordem social e das instituições. O tempo passou e a continuação de 2007 não conseguiu evitar os clichês do cinema de ação da época nem propor algo autoral. A franquia foi restaurada em 2025 com a volta de Danny Boyle à direção e de Alex Garland ao roteiro. “Extermínio: A evolução” ampliou o universo diegético ao apresentar novos personagens em uma comunidade isolada, uma forma mais forte e violenta de zumbis (os alfas) e a jornada edipiana de Spike de rejeição do pai para tentar salvar a vida da mãe. Acima de tudo, valorizou o Dr. Kelson e o ensinamento “Memento mori” (“Lembre-se que você vai morrer”) para reconhecer a inevitabilidade da morte (como parte constitutiva da vida e não como resultado de uma brutalidade aleatória) e homenagear os mortos.

Como prosseguir no desenvolvimento da mitologia e da estrutura dramática já realizado pelo anterior? Com a mudança na direção e a entrada de Nia DaCosta, o novo filme dobra a aposta nas ousadias sem ter receio e propor ideias e rumos menos comuns para a história. É o que se pode ver com a decisão de fazer o Dr. Kelson estreitar os vínculos com o zumbi Sansão. Não que isso signifique amenizar a violência, pois os ataques permanecem brutais e a câmera não se desvia do gore. Porém, há espaço para a bondade cômica e, ao mesmo tempo, sábia do médico ser um contraponto àquele mundo de morte e destruição. A cada conversa, cuidado dos ferimentos de Sansão e até danças, Ralph Fiennes e Chi Lewis-Parry tornam esse núcleo um suspiro de esperança e um repositório das melhores cenas. Em linhas gerais, uma discussão filosófico-existencial sobre o resgate da humanidade é estabelecida.

Os contrapontos positivos são necessários quando se observa o núcleo composto pela seita e por Spike, uma demonstração da perversidade humana em situações limites que colocam em risco à sobrevivência. Tudo tem ligação com o autoritarismo doentio e pseudorreligioso de Jimmy Cristal. Em primeiro lugar, há um caráter fascista em uma liderança que drena a individualidade dos seguidores em favor da criação de uma massa amorfa (todos são chamados de Jimmy ou de variações desse nome e precisam usar uma peruca loira semelhante ao cabelo do líder). Além disso, o grupo naturaliza a violência ou a considera parte de um plano maior. As duas posturas se sobressaem nos momentos em que Spike deve lutar para entrar na seita e os liderados por Jimmy torturam os moradores de uma casa invadida. Essa última sequência permite adentrar na mentalidade satanista do grupo, que faz sacrifícios ou “caridade” em nome de Old Nick (referência ao Diabo). O ponto negativo no segmento recai no subaproveitamento de Spike, que interrompe o arco dramático do personagem e compromete o trabalho de Alfie Williams.

Nia DaCosta e o roteirista Alex Garland pensam a questão de um possível resgate da humanidade a partir do aprofundamento do Dr. Kelson. Anteriormente, ele apareceu por poucos minutos e muito mistério se fez em relação a sua identidade. No segundo capítulo da franquia, ganhou mais tempo de tela e uma dimensão pessoal efetiva. Ele sente saudades do passado sempre que olha as fotografias da esposa coladas na parede de seu quarto improvisado e enfrentada a solidão com as lembranças suscitadas pelos vinis de música periodicamente ouvidos. Por sinal, a canção “Ordinary world” da banda Duran Duran reverbera dramaticamente no estado emocional de Ian Kelson para sugerir um desejo nostálgico por um mundo humanizado. Por mais que o médico ministre algumas substâncias para tentar fazer Sansão recuperar a humanidade, o tratamento também se baseia em sinais metafóricos: o desejo do doutor pela possibilidade de ter uma companhia, a reativação da linguagem como indício de humanização e a recuperação de memórias reprimidas. Os dois últimos pontos fornecem cenas muito expressivas para Sansão em relação à lua e a uma recordação em um trem. Vale notar, inclusive, as mudanças na expressão facial e no uso de “roupas” de Chi Lewis-Parry ao longo do tratamento em direção à humanidade.

Já o outro núcleo parece ter uma conclusão diferente por contar com a violência de forma direta, mas também depende do contraste que Dr. Kelson oferece para um universo pós-apocalíptico. A princípio, haveria uma oposição entre a ciência, representada pelas explicações racionais do médico para a infecção, e a religião, percebida pela visão sobrenatural de Jimmy em relação a um castigo do Diabo para a humanidade. Essa diferença não é a chave central para a dinâmica entre os dois personagens, pois há apenas um diálogo entre eles sobre as duas perspectivas. Na verdade, a fé nos seres humanos está na raiz dessa polarização. Enquanto Dr. Kelson acredita na possibilidade de redenção dos indivíduos, até mesmo os infectados, o líder da seita apresenta um pessimismo exacerbado que o faz comandar um grupo em uma missão cruel de eliminação das pessoas de um mundo infernal. Nas cenas em que interagem, Jack O’Connell mostra as incongruências religiosas de Jimmy e, sobretudo, a responsabilidade da contraditória relação com o próprio pai na formação da seita. Então, o médico não recorre à violência para derrotar seu oponente. Ele se aproveita das inconsistências do discurso satanista e da apresentação de uma canção da banda Iron Maiden para ridicularizar e desfazer o culto pretendido por Jimmy.

A expressão em latim “Memento morti” dita pelo Dr. Kelson foi uma síntese muito eficiente para a proposta de “Extermínio: A evolução“. Em um cenário em que a violência pode ser banalizada, não se pode esquecer que a morte é um fato natural da vida e os mortos merecem homenagens e a preservação de suas memórias. Em “Extermínio: O templo dos ossos“, existe uma nova passagem para valorizar a expressão em torno da morte. No entanto, a segunda parte da trilogia parece evocar outro pensamento em latim embora não o mencione explicitamente: “Memento vivere” (“Lembre-se de viver”). Logo, a vida é exaltada não no sentido de aproveitar o momento. A ideia é trabalhada a partir da fé na humanidade em tempos difíceis. A crença pode ser depositada na reversão da infecção, na esperança de dias melhores no futuro, na humanização dos sobreviventes e na revitalização da franquia com uma nova vida. A torcer para que o desfecho desse filme não se apoie no simples fan service que possa agradar aos entusiastas de “Extermínio” de 2002 e possa ser mais uma virada interessante nos rumos de um trilogia com grande potencial.