“FAMÍLIA DE ALUGUEL” – Como a cultura determina as emoções
Mais do que um drama reconfortante (quase um feel good movie), FAMÍLIA DE ALUGUEL é um filme sobre como a cultura afeta o modo como as pessoas lidam com seus sentimentos. Para países como os EUA e o Brasil, a cultura japonesa possui idiossincrasias que beiram o absurdo, mas que, ainda assim, guardam coerência dentro de seus padrões. Apenas se tornando um local é que é possível compreendê-las de verdade.
Phillip é um ator que mora sozinho há 7 anos em Tóquio. Embora consiga apenas papéis sem destaque, ele segue à espera de uma oportunidade satisfatória. Depois de ser contratado para um papel simbólico, ele aceita a oferta de interpretar personagens (fictícias) nas vidas (reais) de outras pessoas, um trabalho que, apesar de existir há décadas no Japão, inicialmente lhe causa grande estranhamento.

O estranhamento sentido por Phillip não é gratuito. O roteiro de Hikari (que também dirige o longa) e Stephen Blahut se apropria de um ramo empresarial que é aceito na cultura nipônica com relativa tranquilidade, inclusive maior tranquilidade do que, por exemplo, a terapia. Ou seja, o texto aproveita uma idiossincrasia cultural capaz de incitar a curiosidade do espectador ocidental que, provavelmente, nunca teve contato com um serviço similar. A natureza do serviço executado por Phillip não poderia ser mais peculiar para um ocidental: interpretar uma pessoa (um amigo, um namorado, um pai etc.) na vida de outra pessoa, cuja passagem efêmera é dotada de um significado emocional relevante.
No caso específico do protagonista, depois de atuar como objeto de cenário e de aparecer em um comercial de dentifrício, a proposta de Tada (Takehiro Hira) parece tentadora: a chance de interpretar “papéis com significado”. Existe no fundo uma lacuna existencial no próprio Phillip, que observa seus vizinhos nas atividades rotineiras enquanto ele, sozinho, não tem relações afetivas e vive em território no qual não é mais do que um “gaijin” (palavra usada geralmente de maneira pejorativa em japonês para designar os não japoneses). Na dinâmica do serviço, uma pessoa o contrata para que finja ser alguém perante uma terceira pessoa, que acredita que ele é quem diz ser, ao invés de um ator interpretando um papel. O estranhamento inicial, portanto, faz sentido. Entretanto, também faz sentido o apreço que Phillip passa a ter pelas pessoas com quem interage, criando laços afetivos genuínos. Como protagonista, Brendan Fraser transmite muito bem tal evolução, do desconforto à empatia, demonstrando que se ele está enganando ou não alguém depende do ponto de vista. Quem o contrata não deseja iludir outra pessoa, mas alegrá-la de alguma forma, o que justifica o pensamento de Tada segundo o qual o que vendem não são pessoas, mas emoções. Em um país onde a saúde mental é mal vista (premissa explicitada no próprio filme), negociar bons momentos pode ser análogo à prostituição (analogia que também é feita no filme), mas se torna um remédio aceitável.
A trilha musical é piegas, porém isso combina com o teor da obra, que vive de momentos adocicados, como o que Phillip está com Mia (Shannon Mahina Gorman) em um festival ou o que ele descobre o que Kikuo (Akira Emoto) deseja ao fazer para ele um pedido especial. A trama desliza, por exemplo, ao criar uma breve subtrama envolvendo um dos papéis de sua colega, Aiko (Mari Yamamoto) – um evento que precisa ocorrer com ela porque retiraria o encanto das experiências dele, mas desloca desnecessariamente o ponto de foco -, ou ao permitir uma lacuna considerável envolvendo Mia (uma criança perguntaria o porquê de seus pais não interagirem entre si), sendo ainda extremamente previsível no arco entre Phillip e Mia. Por outro lado, os diálogos com Aiko são bons para expor sua mudança de pensamento e, de modo geral, o filme consegue defender eficazmente a sua ideia governante.
O que é central em “Família de aluguel” não são as subtramas em si, mas a demonstração de que o que as pessoas desejam são emoções autênticas, ainda que sob pretextos desvirtuados. É certamente possível efetuar questionamentos éticos acerca do serviço, a começar pelo fato de que, no filme, o contratante o adquire para o bem de outrem, como se necessariamente soubesse o que é esse bem. Entretanto, Phillip aprende que, a despeito da problematização ética, o que ele vive pode ser mais real do que qualquer outro papel que poderia interpretar; basta que, para isso, deixe de pensar como um gaijin e abrace a cultura de seu novo lar como sua. Em outras palavras, se a cultura afeta a maneira como as pessoas lidam com as suas emoções, não é possível compreender plenamente o funcionamento das emoções pela ótica de um estrangeiro.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

