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“GUARDE O CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE” – História em curso e em imagens

As transformações tecnológicas impactam na forma como vivenciamos, registramos e conhecemos a História. Cada vez mais, os eventos históricos são apenas considerados como tal se houver imagens para representá-los, podendo ser captadas pelas mais diversas câmeras existentes ou redimensionadas pela inteligência artificial. Em paralelo, os registros visuais também podem se constituir como mecanismos de denúncia frente a injustiças, conflitos e mazelas variadas, sobretudo quando os direitos humanos são violados. Todos os aspectos citados se entrelaçam com GUARDE O CORAÇÃO NA PALMA DA MÃO E CAMINHE, documentário que testemunha o genocídio de palestinos na Faixa de Gaza ao acompanhar uma entre tantas vidas atingidas pelos ataques israelenses na região.

(© Filmes do Estação / Divulgação)

Fatma Hassona é uma fotojornalista palestina que vive com a família em Gaza. Ela tenta resistir à violência dos bombardeios da ocupação israelense no local enquanto documenta os ataques de perto. De tempos em tempos, conversa por chamada de vídeo com a cineasta Sepideh Farsi, alguém incapacitada de chegar à cidade de Gaza por conta das estradas bloqueadas e das bombas lançadas. Ao longo de um ano, as duas mulheres conversam e estabelecem uma ligação emocional, apesar da distância, da guerra e dos problemas de conexão dos celulares.

Os diálogos entre elas abordam muitas questões no intervalo de um ano entre 2024 e 2025. Destacam-se, em um primeiro momento, as consequências dos ataques dos soldados de Israel: a destruição da cidade, a tensão diante de novos bombardeios, o aumento do número de mortes, o refúgio em abrigos e a escassez de alimentos. No entanto, o filme ganha em sensibilidade ao fazer com que cada conversa também evidencie as experiências individuais de Fatma em situações limites. Podem ser de natureza negativa, como a depressão manifestada por sinais de maior distração e falta de reação a diversos fatos, a saudade da avó assassinada em uma das operações militares ou a angústia de sair para a rua (inclusive, é em um áudio enviado por WhatsApp que verbaliza a frase que dá título à obra). E podem ser de caráter positivo, como o alto valor dado por ela para a fotografia, a importância da religião islâmica e o sonho de viajar pelo mundo para conhecer outros lugares.

Por conta do contexto de guerra e da distância entre as duas mulheres, Sepideh Farsi incorpora várias restrições na linguagem do documentário. O poder das imagens contemporâneas para retratar eventos em curso e a progressão do cotidiano é realçado pelos registros visuais selecionados. A documentarista utiliza como base da narrativa as imagens produzidas pelas chamadas de vídeo, deixando ver a tela do celular e o próprio reflexo enquanto filma. As formas modernas de comunicação seguem aparecendo quando mostra as conversas e áudios enviados por WhatsApp. Além disso, enquadra os vídeos vistos no YouTube sobre as matérias jornalísticas de veículos franceses. Nas passagens em que apenas apresenta as reportagens, um tom didático quase enfraquece a ideia de fazer um documentário a partir das imagens produzidas no calor do momento. É mais expressiva a escolha de fazer críticas visuais às declarações das autoridades israelenses. Outras construções interessantes são feitas quando as fotografias de Fatma descrevem o cenário em ruínas e são combinadas com a leitura de um poema, a interpretação de uma canção ou a narração da jovem.

Mais alguns vínculos foram criados entre Sepideh Farsi e Fatma para além da empatia da diretora pela jornalista, pois envolvem pontos em comum nas situações de ambas. As duas mulheres lidaram com experiências traumáticas em relação à violência e ao autoritarismo. A jovem vivenciava a prisão de estar em Gaza sob os ataques de Israel, não podendo sair da própria casa por muitos dias e, ainda assim, correr o risco de ter a área atingida por bombas. Já a diretora, de origem iraniana, enfrentou as perseguições do governo do próprio país e ficou detida por algum tempo por se posicionar criticamente contra o regime teocrático do Irã. Embora seja possível identificar semelhanças, seria incorreto fechar os olhos para os contrastes entre elas porque estabelecer vínculos também significa apontar determinadas diferenças. Fatma se encontrava enclausurada em um local sob risco intenso e ainda se apegava a um propósito definido por Alá, enquanto Sepideh Farsi pode estar em viagem constante, por exemplo, pelo Egito, França, Itália, Canadá e Marrocos (nunca o Irã sob o risco de voltar a ser presa) e se mostra cética quanto ao papel da religião em sua vida.

É muito provável que o documentário traga à mente dos espectadores outras produções que se relacionam com a situação da cineasta e da jornalista. As perseguições a artistas iranianos já estiveram na pauta do cinema contemporâneo, sobretudo nos trabalhos do diretor Jafar Panahi, que colocou sua própria experiência pessoal como tema para seus projetos. Em “Isto não é um filme“, ele mostra os dias de prisão domiciliar enquanto esperava a sentença por supostos crimes contra a república islâmica. E no recente “Foi apenas um acidente“, um grupo de cidadãos organiza um plano de vingança contra o homem que acreditam tê-los torturado pelo regime teocrático do Irã. Já em relação ao quadro atual dos palestinos, o documentário evoca os recentes “A voz de Hind Rajab” e “Sem chão” ao acompanhar os efeitos dos ataques israelenses sobre Gaza e os habitantes, por vezes combinando traços ficcionais e documentais. Em ambos os casos, o cinema se torna uma ferramenta de representação de eventos políticos do presente no calor do momento.

A representação cinematográfica do massacre palestino em “Guarde o coração na palma da mãe e caminhe” consegue se utilizar muito bem dos impactos da passagem do tempo a cada nova chamada de vídeo. Antes mesmo de passar um ano completo, algumas marcas visuais nas telas dos celulares já indicavam a tensão inerente à condição de Fatma: o congelamento da tela por falta de conexão com a internet, as mensagens constantes de “reconectando” e, por vezes, o longo tempo até a ligação ser atendida. À medida que o tempo transcorre, esses indícios se intensificam. Algumas ligações não são atendidas, as chamadas de vídeo captam cada vez mais os sons das explosões, o sorriso no rosto da jovem se torna raro, o cansaço fica visível e a desnutrição deixa sintomas físicos na expressão da jornalista. Sepideh Farsi também sente o decorrer daquele ano e externaliza os conflitos internos que atravessa ao acompanhar as ameaças de morte à distância, pois se ressente de não conseguir ajudar a amiga mesmo que demonstre empatia e se conecte emocionalmente a uma situação desumana.

Como o filme lida com questões sensíveis do tempo presente e de eventos ainda em andamento, é de se esperar que o mundo extrafílmico possa alterar os rumos da narrativa. Em termos textuais, Fatma vive embates pessoais intensos com relação à sua experiência de viver em Gaza. Por vezes, ela afirma que pode viajar pelo mundo, mas a tendência é retornar à terra natal devido à família e às memórias íntimas; já em outros momentos, demonstra desespero por não conseguir deixar um local sob ataque constante. Em termos visuais, um plano sequência percorre as ruínas e a destruição material da cidade enquanto as pessoas tentam seguir com suas vidas. Tais passagens combinadas sinalizam que as expectativas criadas pela diretora para o futuro de Fatma podem não se cumprir em função de consequências brutais para seu destino. Ainda assim, não se pode esquecer que a própria jornalista comenta sobre a importância de continuar lutando contra a opressão e documentar as atrocidades cometidas em Gaza. Nesse sentido, o cinema assume um papel atual de denúncia de crimes perversos e de preservação imagética de vidas ceifadas.