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“GUERREIRAS DO K-POP” – Sintoma midiático-ideológico dos nossos tempos

Desde o seu lançamento na Netflix, GUERREIRAS DO K-POP se tornou um fenômeno midiático. As canções viralizaram, vídeos curtos foram produzidos para as redes sociais e o público-alvo se deleitou com as performances do trio protagonista. O filme parece feito sob medida para agradar a todo custo, recorrendo aos estímulos apropriados, à cultura do momento e à zona de conforto da segurança devidamente calculada. Sob outro ângulo, o projeto pode refletir as contradições, as mazelas e as preocupações dos nossos tempos dentro de uma abordagem rasa ou acrítica.

(© Netflix / Divulgação)

Rumi, Mira e Zoey formam um trio musical de enorme sucesso chamado Huntr/x. Além das apresentações nos palcos e dos holofotes da fama, elas protegem o mundo de criaturas sombrias que tentam capturar a alma dos seres humanos. Enquanto tentam fortalecer um escudo protetor para a humanidade através de sua arte, precisam lidar com outra ameaça: a aparição de uma boy band masculina formada por demônios e disposta a roubar os fãs das heroínas.

É curioso observar que a animação praticamente se esquiva de ser uma narrativa cinematográfica para ser um produto cultural consumido em outras mídias, sobretudo o TikTok. Nos minutos iniciais, a velocidade dos acontecimentos é impressionante, mal dando tempo de sentir ou contemplar tudo o que aparece em tela. Em um contexto de “economia da atenção”, os vários estímulos cotidianos que podem afetar a concentração dos espectadores faz o filme escolher acelerar seu ritmo para passar a falsa sensação de dinamismo e capturar o interesse a todo instante. Concomitantemente, os momentos musicais e cômicos parecem concebidos para um corte ou um edit a ser feito e publicado nas redes sociais, como se pode observar no uso de diversos elementos visuais no primeiro confronto entre as Huntr/x e os Saja Boys. Nem mesmo as piadas resistem à necessidade de aceleração porque, em duas ocasiões, a quebra de expectativa das jovens em relação ao que irá acontecer é revelada em poucos segundos como se o público precisasse de uma resolução fácil.

Como consequência, o universo diegético e fantasioso da obra é prejudicado. Na sequência de abertura, é apresentada de forma apressada uma mitologia que contextualiza, ao longo das eras, a escolha de pessoas para enfrentar os demônios através da música. Existe pouco cuidado para continuar explorando esse pano de fundo histórico e importante para a trama, já que o roteiro assinado pelos diretores Chris Appelhans e Maggie Kang e também pelo roteirista Hannah McMehan prefere uma simplicidade clichê: a luta do bem contra o mal, a existência de uma grande entidade a ser combatida e os enfrentamentos constantes com os demônios. Dentro do plot central, há pouco espaço para algo além da premissa banal de criaturas querendo se alimentar da alma humana e sendo enfrentadas pelas protagonistas. Se a fantasia parece criada com preguiça e sem atenção a maiores detalhes para encorpar o universo, o mesmo se aplica ao que se passa na realidade mais próxima da nossa. A narrativa está mais interessada em evocar a cultura sul-coreana do k-pop e menos comprometida em desenvolver as personagens principais, que parecem sem personalidade ou resumidas a um único traço (Mira é a agressiva, Zoey é a excêntrica em busca de aprovação e Rumi se entrega demais ao trabalho).

O lado lúdico que falta em parte da diegese pode ser encontrado com mais facilidade na concepção visual da animação. A construção estética não é realista e utiliza a fantasia para caracterizar muitos dos espaços vistos na trama, como os palcos onde as apresentações acontecem. Por um lado, pode ser uma escolha que faz com que a magia do universo fantástico se prolongue para o mundo cotidiano dos fãs. Por outro lado, pode deixar uma sensação ambivalente na experimentação sensorial do estilo construído, sugerindo uma artificialidade que deixa dúvidas sobre o efeito que pode provocar. O artificialismo é um recurso proposital para representar visualmente a imaginação de uma proposta nada realista ou um tiro pela culatra que assume um tom indesejadamente crítico para as interações entre ídolos e fãs. Esse efeito estético pode continuar na linha tênue entre a potencialidade e a fragilidade no que tange à comparação entre as cenas de ação e os números musicais. Nas primeiras sequências de confronto com os demônios, pode haver algumas doses de criatividade, mas nas últimas, a delimitação espacial se torna um borrão que dificulta a visualização dos efeitos das lutas. E as apresentações das canções são irregulares, tendo saldos positivos em “Golden” e “What I Sounds Like” e negativos em “Free” e “Your Idol“.

A mitologia fantástica não é o único aspecto que sofre de paradoxos não percebidos pelos realizadores. O desenvolvimento dramático de Rumi, líder das Huntr/x, e de Jinu, líder dos Saja Boys, sofre com os arcos narrativos permeados por uma série de lacunas mal resolvidas e de convenções empobrecedoras para os dilemas que deveriam enfrentar. Rumi deveria lidar com o conflito interno de esconder quem, de fato, é e Jinu deveria cuidar do sofrimento que carrega pelo peso de escolhas feitas no passado em nome de seus próprios interesses individualistas. O filme nunca se aprofunda sobre as dores do segredo da jovem porque toma sua identidade como um dado que não precisa ser dramaticamente explicado. Ao passado que jamais convence em relação à aflição do jovem em termos visuais para além da utilização repetitiva de flashbacks. Já a dinâmica entre eles não passa do clichê do romance surgido entre pessoas que se julgam muito diferentes, mas encontram pontos em comum. Quando o clímax emocional do terceiro ato depende de algo mais do que um romance previsível, a narrativa não consegue propiciar um momento marcante para a conclusão.

Por fim, “Guerreiras do k-pop” resolve seus conflitos combinando ação e musical e deixando alguns subtextos problemáticos ou, no mínimo, estranhos para o que a animação se propunha a ser. A estrutura narrativa maniqueísta de bem contra o mal não cabe bem dentro da ambiguidade que o roteiro procura criar a partir da problematização das identidades de Rumi e Jinu. E, principalmente, a metáfora da captura das almas gera resultados questionáveis. A vitória sobre vilões é obtida quando as cantoras recebem as almas dos fãs, um recurso que abre margem para pensar que o público precisa entregar toda sua essência aos ídolos e praticamente perder o espírito crítico e a personalidade. A última cena mostra Rumi, Mira e Joey abrindo mão das férias para voltar ao trabalho e cumprimentar os fãs, como se repassassem suas almas para o público e aceirassem a exploração de uma rotina desgastante. No afã de ser um projeto multimídia que reverbere nas redes sociais e alcance os entusiastas das bandes de k-pop, o filme se preocupa pouco em se resolver bem como filme.