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“KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO” – Idiossincrasias e minúcias de um país e sua cultura

Nas aparências, KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO é uma narrativa bastante conhecida do público: a história de alguém tão obcecado por algo que é capaz de sacrificar tudo e todos para alcançar o que deseja. Com um arco arquetípico de Cinderela (ascensão, queda e ascensão) e um formato cinebiográfico linear e abrangente (do ponto de vista cronológico), o filme parece ordinário. Seu encanto, contudo, repousa nas idiossincrasias e nas minúcias que apresenta.

Nascido em uma família yakuza, Kikuo Tachibana é adotado por um famoso ator de teatro kabuki, Hanjiro Hanai, que vê nele enorme potencial. Treinado por Hanai junto ao filho do ator, Shunsuke Ogaki, Kikuo faz florescer o seu talento. A jornada para atingir a grandiosidade nesta arte, todavia, se revela tortuosa.

(© SATO Company/Imovision / Divulgação)

Ao contrário do que se pode imaginar, Shunsuke não se torna um rival direto de Kikuo. O roteiro de Satoko Okudera, baseado no romance de Shûichi Yoshida, evita tal clichê ao criar um verdadeiro laço de amizade entre os dois. Ainda que exista competição, ela não é desleal; os sentimentos de Shunsuke são ambíguos diante do sucesso de Kikuo, mas não o suficiente para dissolver o afeto entre eles.

Interpretado inicialmente por Soya Kurokawa e depois por Ryô Yoshizawa, Kikuo é um jovem com histórico trágico, mas destinado ao estrelato no kabuki – não sem adversidades -, algo facilmente perceptível. Ele é a representação do homem esforçado que colhe os frutos do próprio suor, ideia amplamente valorizada na cultura nipônica. De outro vértice, Shunsuke, vivido primeiro por Keitatsu Koshiyama e posteriormente por Ryûsei Yokohama, também representa uma ideia cara aos japoneses, que é a tradição familiar. As atuações de Yoshizawa e Yokohama são excelentes e acertam no trânsito entre a afabilidade exposta e a mágoa oculta. É em boa parte graças a eles que a reencenação de “Amor suicida” se torna uma cena visceral em que a oscilação de sentimentos cede espaço para a mais pura compaixão.

O diretor Sang-il Lee constrói ainda duas (outras) cenas estonteantes. A primeira é o longo prólogo, em que a queda dos flocos de neve suaviza uma batalha, ao passo que uma poça de sangue, contrastando com a mesma neve, eleva o impacto dos eventos. Na segunda, o protagonista encena “A garça real” em um cenário cuja neve artificial caindo sob uma luz azul-gelo mesmeriza o espectador logo antes de uma transformação repentina, em uma trajetória que reflete o seu arco narrativo e se torna, sobretudo no desfecho, o epítome do fascínio. Esteticamente, “Kokuho” é sublime, em especial pela dosagem entre o sutil e o escancarado. Por exemplo, nos figurinos, os quimonos luxuosos e vistosos das encenações não ofuscam as argutas contraposições simbólicas dos trajes cotidianos (Kikuo de marsala ou de verde, e Shunsuke de azul, em duas cenas). Da mesma forma, na maquiagem, é de se notar a pesada pintura alva nos rostos dos atores, exposta como resultado de um ritual, tanto quanto as marcas de envelhecimento adicionadas ao elenco para espelhar a passagem do tempo.

Não deve ser à toa a escalação de Ken Watanabe, bem conhecido em Hollywood, para o papel de Hanai. Trata-se de um filme de exportação. Com isso, o longa traduz a própria História do Japão. O teatro kabuki surgiu no período Edo (1603-1868), quando o xogum Tokugawa tentava pacificar e unificar o país; é simbólico que a trama se passe no período pós-guerra, quando a ideia era também de recomeço. Além disso, o filme adota um tom de crítica ao tradicionalismo exacerbado dessa arte, na qual a hereditariedade se sobrepõe ao talento e mesmo ao esforço (por outro lado, o protagonista é a corporificação desses valores, inclusive por não reclamar do difícil treino). Outros padrões da cultura japonesa se fazem presentes, como o machismo (uma arte exclusiva para homens e a irrelevância das personagens femininas) e a rigidez paterna.

Para além das funções narrativas, portanto, o kabuki se torna uma alegoria: no primeiro caso, surge como contemplação diante de imagens inebriantes e de um design de som magnético (note-se que os ruídos intradiegéticos geralmente não são eliminados quando a trilha extradiegética se sobrepõe, para que o público não saia da peça); no segundo, como uma metáfora do que foi e do que ainda é. Como se não bastasse, a obra faz um inteligente diálogo entre as peças e a trama: com “Dois leões”, o enredo da peça é o prenúncio do difícil treino; com “Amor suicida”, o deuteragonista comete um suicídio simbólico, tal como na peça; com “A garça real”, o amor do protagonista pela sua arte é idêntico ao da garça. Há certo detalhamento quanto ao kabuki, em especial no que se refere à corporalidade exigida, uma de suas peculiaridades, e na imagética incomparável. Mais do que uma ode a uma manifestação artística particular – e muito mais do que uma narrativa arquetípica -, o que não seria pouco, “Kokuho” é um retrato de um país e das especificidades de sua cultura.