“KONTINENTAL ‘25” – Contido até demais [49 MICSP]
O diretor Radu Jude tem em KONTINENTAL ‘25 o seu filme mais contido dos últimos anos. Muito menos cansativo que “Dracula” (na verdade, “menos tudo”, o que é bom) e menos frenético que “Não espere muito do fim do mundo”, ele se aproxima do tom documental de “Oito cartões-postais da utopia” e da narrativa em formato tradicional de “Má sorte no sexo ou pornô acidental”. Não obstante, falta-lhe um punch para que se destaque na filmografia do cineasta.
Orsoloya Ionescu é uma oficial de justiça húngara que trabalha em Cluj, capital da Transilvânia. Quando seu trabalho implica despejar um homem humilde de um porão, para que no local seja construído um hotel de luxo, as consequências da ordem de despejo passam a atormentá-la.

Do ponto de vista narrativo, Radu Jude é minimalista: a trama se limita, de fato, aos desdobramentos, sobretudo psicológicos, do que ocorre no dia em que vai executar a ordem, o que leva a protagonista a se culpabilizar (o conflito interno que molda a trama), travar diálogos engraçados com determinadas pessoas e, por vezes, a reflexões extrapessoais. Na prática, o conflito interno é a mola propulsora que coloca Ionescu em situações estranhas (ainda que engraçadas) e a pensar sobre a situação de seu país. Isso significa que a singela trama está mergulhada em ponderações que a ultrapassam.
Uma das temáticas principais se refere ao direito à moradia. De um lado, o sr. Glanetasu (Gabriel Spahiu) não encontra trabalho, nem consegue dinheiro (colocando-se em situações inusitadas para obtê-los, em vão), vivendo em um porão escancaradamente inóspito; de outro, a construtora não se importa com a sua situação (nem com a de outros em condição análoga), sendo Ionescu (Eszter Tompa, ótima) apenas uma peça, dentro do sistema legal, para a consecução de seus objetivos. À medida que a narrativa avança, contudo, surgem temas com menor aprofundamento, como a opressão do aparato policial (com balaclavas e lanternas com a luz direcionada no rosto do cidadão que claramente não representa perigo algum), o sensacionalismo da imprensa (o que acaba direcionando a conduta de Ionescu, pois ela não quer que suas doações se tornem públicas, para não ser mal vista), a precarização do trabalho (representada pelo seu ex-aluno) e a relação entre a Hungria e a Romênia.
Como não poderia deixar de ocorrer em um filme de Jude, existem citações a outros filmes (como “Dias perfeitos”), sendo o próprio longa uma citação em si mesma: “Kontinental ‘25” é uma referência a “Europa ‘51”, de Rossellini, cuja protagonista é uma mulher que se dedica intensamente a causas humanitárias depois do suicídio de seu filho (as semelhanças não são, pois, coincidências). Ionescu é atormentada pela culpa, o que a motiva a doações desmedidas, a não viajar com a família e a falar sobre isso com quase qualquer pessoa que cruza o seu caminho. Um pouco depois do incidente incitante, o roteiro é constituído basicamente por três esquetes: na primeira, a protagonista conversa com uma amiga que a estimula para doar dinheiro; na segunda, ela reencontra Fred (Adonis Tanta), um ex-aluno obcecado por anedotas zen (e a graça está na repetição incessante); na terceira, ela dialoga com um padre de ideias deveras questionáveis para um clérigo.
O diretor romeno não poderia deixar de lado piadas escatológicas e o criativo humor nonsense, marca de sua filmografia: cenas como a da ressuscitação cardiopulmonar e a da primeira conversa com Fred são muito engraçadas. Isso colide com o tom documental adotado por Jude, que, por exemplo, não insere músicas extradiegéticas e cria planos contemplativos da cidade, mas é justamente essa colisão que torna o nonsense engraçado, soando como algo inacreditável em um contexto plenamente crível. Com personagens criativas e comédia embalando uma crítica social, “Kontinental ‘25” é um filme divertido, mas sem a acidez necessária – ou mesmo a contundência – para que essa crítica seja impactante de verdade.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

