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“LAR” – O destino igual à partida

Demonstrar carinho pelos indivíduos e pelas experiências retratadas. Abordar um tema socialmente relevante. Representar as transformações sociais e culturais de uma dada época. Nenhum dos elementos anteriores é garantia de que se está produzindo um bom filme. Por isso, o documentário LAR não consegue fazer com que suas melhores intenções se tornem um resultado sólido cinematograficamente. O filme quer muito transmitir seu discurso sobre a sociedade brasileira atual pelo texto e desvaloriza a construção em imagens.

(© Embaúba Filmes / Divulgação)

As composições familiares contemporâneas são plurais, indo além de laços e relacionamentos tradicionais. A partir dos olhares e das vivências de filhos e filhas de três famílias LGBTQIAPN+, os cotidianos, desafios e conquistas de lares diversos são apresentados. Em paralelo, o documentarista Leandro Wenceslau interliga sua trajetória de autodescoberta e revisita memórias de infância para criar um painel de amor, afeto e resistência.

Leandro Wenceslau se filia a um conjunto de realizadores que concebe documentários íntimos, que mergulham nas suas próprias experiências passadas e as revela para o público em um processo de autoanálise. Flavia Castro faz isso em “Diário de uma busca” ao investigar a perda do pai, vítima da repressão da ditadura civil-militar brasileira. E Petra Costa fez o mesmo em “Democracia em vertigem” ao entrelaçar a ascensão da extrema direita no país e suas lembranças familiares. O diretor divide com os espectadores, através de uma narração em voice over, algumas questões sensíveis: a criação pelos avós, a ausência da figura paterna, a descoberta da homossexualidade, as incertezas diante das relações amorosas e o desejo por uma família. Em meio a tantas dúvidas, apreensões ou belos sentimentos, ele entende que acompanhar as três famílias para a produção do filme seria uma forma de tanto lidar com os dilemas de sua vida quanto encontrar inspiração para seus sonhos.

Entretanto, as duas dimensões que se manifestam na abordagem pessoal do documentarista não são trabalhadas visualmente para além da narração. A princípio, a invocação de memórias da infância e de outros estágios da vida é relacionada com imagens caseiras de festas ou outros momentos familiares dentro de casa, tendo uma granulação própria que se distingue das demais sequências no presente. No decorrer da narrativa, o uso dos arquivos visuais é abandonado e, em seu lugar, aparecem registros de brinquedos em um parque de diversão. Tais imagens remetem ao universo infantil dos meninos e meninas que estão no documentário, não guardando conexão semântica com a divisão de questões pessoais de Leandro Wenceslau com os espectadores. Além disso, os comentários do diretor a respeito da criação do documentário poderiam evocar um exercício de metalinguagem, já que comenta sobre as dificuldades e as vitórias em seu trabalho criativo. Apesar do potencial em jogo, a metalinguagem se limita às citações na narração e não se evidencia em alguma estratégia estética de execução das etapas do fazer cinema.

Observando mais de perto as famílias acompanhadas pela câmera de Leandro Wenceslau, os temas da diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero parecem ser o eixo estruturante da obra. Há um casal de homens gays, uma mulher lésbica e uma mulher trans como personagens centrais nos três lares representados, que adotam crianças e jovens negros de orfanatos populares. Por mais que o filme esteja sintonizado com uma visão de mundo progressista, inclusiva e moralmente comprometida com a pluralidade de existências, a concretização visual é bastante limitadora. Ao invés de utilizar as imagens em consonância com a mensagem, o discurso é alcançado em um patamar superior para que ele tente se sustentar por si mesmo. Como consequência, o projeto se estabelece como um cinema de tese que quer reafirmar constantemente suas ideias e percepções sobre o Brasil contemporâneo. O resultado final deixa de lado, por exemplo, as experiências específicas de cada família para se formar e prioriza os monólogos sociológicos para descrever preconceitos sociais e ações de resistência.

Ao mesmo tempo, a narrativa sofre de problemas para definir um foco coerente e compatível com as imagens captadas. O tema da adoção está sempre coadjuvante em torno da questão da formação de famílias LGBTQIAPN+, por isso não é tão explorado. Os relatos pessoais de jovens sobre deixar o orfanato e ser integrado a um lar proporcionam os momentos mais interessantes, ainda que não durem muito. Em alguns deles, fica a sensação de que seria melhor ouvir mais as experiências de não se sentir aceito em uma nova casa. Em outros instantes, a naturalidade de ver um menino interagir com os pais na mesa de refeição se torna uma exceção em meio a outras cenas sem efeitos semelhantes. Até mesmo o que poderia ser uma qualidade se enfraquece em virtude da maneira como esse aspecto foi filmado: o registro do cotidiano comum daqueles indivíduos. Algumas sequências podem evocar a espontaneidade típica, como as crianças brincando, mas outras podem insinuar uma encenação preparada previamente e contrária à proposta, como uma conversa entre duas amigas jogando cartas.

Lar“, em resumo, apresenta dois grandes problemas. O primeiro a ser notado diz respeito à dificuldade de interligar o texto/narração às imagens para que o conteúdo em questão não precise ser sempre verbalizado sem aproveitar as ferramentas audiovisuais do cinema. Um exemplo claro está presente nos momentos em que Leandro Wenceslau narra os encontros entre suas experiências pessoais e as reflexões sobre fazer o filme. O segundo a ser percebido está ligado ao propósito de criar o documentário para discursar didaticamente sobre uma tese para famílias e sexualidades no Brasil atual, como se fosse uma aula. Os exemplos são vários, como a conversa entre amigos sobre a falta de suporte da escola ao filho adotado pelo casal e a ligação telefônica de uma mulher trans para sua amiga sobre a incapacidade de muitos de compreenderem suas vivências. Em geral, os dois problemas partem de uma origem em comum: o filme quer defender uma tese já conhecida desde antes de sua concepção. Se família é amor e cuidado, independentemente da composição que se forma, o audiovisual nada acrescenta de pessoal ou autoral a uma conclusão idêntica ao ponto de partida.