“LEFT-HANDED GIRL” – A mão do diabo [49 MICSP]
“A mão esquerda é do mal, pertence ao diabo. Usar ela é fazer o trabalho do diabo”: é com base nessa fala que tudo muda em LEFT-HANDED GIRL. Antes dela, humor e drama se mesclavam dentro do ordinário. Depois, a trama gera uma curiosidade que culmina em um clímax novelesco, desatando um nó cujos fios não eram claramente visíveis.
I-Jing acaba de se mudar para Taipei com Shu-Fen, sua mãe, e I-Ann, sua irmã mais velha. Enquanto as duas trabalham – a mãe em uma barraca de lanches e a irmã em uma loja que vende nozes-de-areca -, a pequena se adapta ao novo local. À medida que aumentam as fissuras familiares, a menina, que é canhota, aprende com o avô que não deve usar a mão esquerda – a “mão do diabo” -, o que trará consequências inesperadas para todos.

A protagonista do longa de Shih-Ching Tsou – que o dirige e assina o seu roteiro (junto do corroteirista Sean Baker) – é tão importante que direciona a sua estética. Os créditos iniciais dão o tom infantil, o que é reafirmado pela trilha musical e, especialmente, pelos enquadramentos, uma vez que a câmera repetidamente é colocada em uma altura baixa, simulando a ótica de I-Jing. Ora por travellings, ora por closes estáticos ou mesmo contreplongées, a filmagem constantemente ocorre em um nível abaixo das pessoas adultas, o que estimula o espectador a se sentir no ponto de vista da criança. Certamente a diretora poderia usar de câmera subjetiva para a mesma finalidade; sua intenção, contudo, é colocar o público ao lado de I-Jing, não em seu lugar. É por isso que, em uma cena na qual ela dança sozinha, há uma modificação sonora para esclarecer que, naquele momento, ela está em sua “bolha”. Pela mesma razão, algumas surpresas do roteiro são deixadas para o clímax, dado que a menina não tinha conhecimento, até então, dos fatos revelados (tal como o espectador).
A diretora também privilegia os closes e planos fechados, o que deixa evidente que sua preocupação é com as personagens. De I-Jing, ela aproveita a fofura de Nina Ye para aumentar a identificação cinematográfica secundária, para criar humor (resultado da ingenuidade típica infantil) e para justificar a história da mão esquerda, que é nuclear na narrativa. A mãe e a irmã têm seus arcos narrativos próprios, mas a conduta de I-Jing motivada pela crença do avô, além de também dar comicidade, inicia um processo de ressignificação. Simbolicamente, esse subplot expõe o choque geracional (cabe atentar ao fato de que mesmo a avó, de certa forma, atribui uma superstição à mão esquerda), mas tem também uma função narrativa fundamental de modificar a relação entre as irmãs. O que soa como pretexto para o humor é, na verdade, o ponto de partida para uma mudança nas relações interpessoais. Não por outra razão, a trilha musical se baseia em uma percussão agitada bem distinta da composição inicial.
O humor é uma constante no filme, inclusive na cena envolvendo o momento mais dramático, sendo Johnny (Teng-Hui Huang, creditado como Brando Huang) a personagem secundária a quem é atribuído o alívio cômico. Como contrapeso, Shu-Fen (Janel Tsai) e I-Ann (Shih-Yuan Ma) pertencem ao lado dramático da narrativa. A primeira, com um arco dramático envolvendo o marido e dificuldades financeiras, o que a colocam em um estado aparentemente letárgico; a segunda, com uma desolação amarga aparentemente desmotivada, o que se reflete em uma atitude hostil perante a mãe e certa rebeldia perante o mundo (no vestuário, na escolha do trabalho etc.).
O ato final de “Left-handed girl” é deveras novelesco, com sua arquitetura de tramas entrelaçadas, conflitos inerentes a relações interpessoais e um quê de melodrama, características ausentes até então. O encaminhamento funciona, porém, em razão da progressão narrativa, uma vez que os arcos narrativos separados, em tom de drama intercalado por alívios cômicos, culminam em um desfecho que parece desatar um nó. Apesar de exagerado nas convergências finais (o que não significa inverossímil), o filme encerra bem os conflitos que cria, conseguindo ser tão emocionante quanto engraçado.
* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

