“LIVROS RESTANTES” – Encontros, gestos e lugares de memória
A memória é o conjunto de lembranças e registros de uma pessoa, grupo, povo ou nação que confere sentidos às experiências humanas com o tempo. A memória também é vital para a constituição de identidades individuais ou coletivas. Tais aspectos perpassam a trajetória de Ana Catarina em LIVROS RESTANTES, um drama sensível que faz a protagonista lidar com as vivências do passado enquanto mira as possibilidades de futuro.

Em Barra da Lagoa, bairro de Florianópolis, Ana Catarina é uma professora de Literatura que vive com a filha Sofia e se mantém próxima da mãe Antônia e do irmão Sergio. Ela está de mudança para Portugal, por isso decide doar os livros que acumulou em sua coleção. Os últimos cinco, que possuem dedicatórias especiais, começam a ser entregues pessoalmente àqueles que a presentearam. A decisão faz com que as recordações de outros tempos venham à tona e a levem a reviver diferentes momentos de sua vida.
Nos primeiros minutos, a diretora Márcia Paraíso trabalha a irrupção de memórias a partir do contato de Ana com os cinco livros a serem dados para indivíduos específicos. Nesse sentido, a literatura é associada às experiências pessoais dos leitores porque, ao invés de ser simplesmente um meio de acessar outros universos, os atos de ler e reler conecta as pessoas às suas próprias existências. O processo começa quando ela se encontra com uma amiga, que desperta conversas sobre antigos e novos relacionamentos amorosos. Diferentemente do primeiro encontro, alguns não chegam a uma conclusão positiva. Uma antiga amiga não aceita o reencontro por não ter boas lembranças do passado e um antigo namorado acredita que o almoço combinado seria uma forma de novamente se envolverem sexualmente, mesmo ele sendo casado. Assim, é criada a ideia de livros-memórias, registros que retomam vivências positivas e negativas de outrora a partir da época, das relações e dos personagens envolvidos.
Os livros não são as únicas possibilidades de lidar com o passado. O ambiente em que a protagonista está e os outros moradores do local com os quais convive também revelam informações sobre outros tempos. Mais uma vez não se trata de um processo idealizado que evita conflitos ou descreve um cenário idílico sem traumas ou dores. A convivência ou os reencontros também podem evocar questões mal resolvidas, tristezas e violência. Por um lado, Ana experimenta as alegrias de ter por perto o amigo (e antigo pretendente) Joilson, revivendo temporariamente o sentimento de outrora com um beijo, e de ser unida à mãe e ao irmão, inclusive no difícil momento em que Sergio precisa de apoio para fazer uma mudança considerável na vida. Por outro lado, ela atua como intermediadora das brigas entre filha e o ex-marido, tamanhas as diferenças entre os dois (como o veganismo da jovem) e enfrenta as lembranças traumáticas dos abusos sofridos na infância por um familiar próximo.
Desse modo, Márcia Paraíso parte da literatura para identificar outros aspectos que evocam o passado, comentam o presente e apontam para o futuro. Algumas estratégias atuam na lógica da sensibilidade, da doçura e da poesia do cotidiano. Outras afetam pouco no vínculo emocional criado com os personagens. No primeiro grupo, estão os planos detalhes nas mãos de Ana e das outras pessoas que encontra, seja para estabelecer o carinho entre elas (o aperto dado pelas mãos de Ana e Katia), seja para demonstrar o afastamento entre figuras que não se entendem (a separação das mãos de Ana e Tárik); estão também os planos abertos que contemplam o bairro, o mar, os animais, as ruas e as edificações, que destacam os elementos não humanos como detentores de suas próprias histórias. No segundo grupo, está a narração em off da protagonista sobre o tempo, o envelhecimento e os caminhos percorridos, que, apesar de ter ligação temática com a narrativa, não vai além de uma síntese textual do que as imagens por si só já conseguem transmitir; estão igualmente as imagens de arquivo sobre a natureza, que soam deslocadas na tentativa de utilizar outro registro visual para expandir a discussão sobre a memória.
Acima de tudo, o filme se distancia da muleta de repetir a estrutura de acompanhar a protagonista entregando os livros a diferentes pessoas e se reconectando às diferentes experiências vividas. Caso a narrativa insistisse nesse padrão, o risco de fazer os acontecimentos se tornarem uma série de esquetes era grande. Ao contrário, a literatura encontra um espaço pertinente de coadjuvante para ceder o protagonismo para a despedida de Ana e para a viagem rumo a Portugal. Nesses instantes, Denise Fraga aproveita a delicadeza do roteiro e da abordagem da diretora para criar uma personagem que demonstra carinho por quem ama, sobretudo a família, impõe a sua força quando precisa confrontar algo prejudicial para si ou para seus entes queridos e busca sua própria paz interna ao se conectar com o mar. A mesma doçura transborda para a concepção da mãe Antônia e do irmão Sérgio, interpretados respectivamente por Vanderléia Will e Renato Turnes. A senhora guarda as contradições de uma mulher aparentemente conservadora, mas que acolhe o filho em um momento vulnerável, e o homem busca sua força na presença da família para lidar com os novos rumos da sua vida e os julgamentos públicos.
“Livros restantes” pode ser definido pela ternura com que trata todos os personagens, inclusive aqueles que, teoricamente, teriam menos tempo de tela. Cada um deles possui sua própria história e identidades multifacetadas. Isso fica evidente na maneira como o filme encaminha sua conclusão, amarrando todos os elementos apresentados com a mesma sutileza já vista. A entrega de um livro para o ex-marido Carlos Henrique dá nuances mais complexas a alguém que poderia ser limitado a uma figura desagradável em qualquer sentido. Porém, o texto e a atuação de Augusto Madeira fazem com que ele tenha seus próprios conflitos paternos, ambições profissionais e preocupações familiares. As recordações despertadas pelo tempo em que foram casados revela como Ana pode colocar os outros como prioridade, abrindo mão de seus próprios interesses. Essa informação redimensiona a relação entre ela e Carlos e a viagem para Portugal. Assim, a sequência final resume muito bem que os encontros com as pessoas que lhe deram cinco livros especiais eram uma condição necessária para fechar uma página e começar novas histórias. Abrir a possibilidade para um futuro preenchido por novos livros e memórias.



