“MICHAEL” – Falsa candura
A figura lendária que foi Michael Jackson não se resume ao que ele representou (e o legado que deixou) na música. Sua vida pessoal foi repleta de controvérsias e, de acordo com uma fala em MICHAEL, ser enigmático era um desejo seu. O longa traça um perfil do astro que é recheado de candura, norteando-se pela maior neutralidade possível. Essa candura pode ter um fundo factual, porém não apenas obnubila as controvérsias do biografado como também oculta interesses que estão por trás da produção.
Michael Jackson nasceu na pequena Gary (Indiana) destinado a ser grande. Cantor, compositor, dançarino e filantropo, sua habilidade foi moldada desde a infância por seu pai, Joseph “Joe” Jackson, com pulso firme, uma infância que deixou marcas indeléveis no “Rei do Pop”.

Trata-se de uma superprodução decepcionante enquanto tal, dado o CGI pobre e a dependência daquilo que fala por si só, leia-se, as maravilhosas músicas do acervo sublime de MJ. Após um prólogo in media res inútil, o roteiro escrito por John Logan inicia a trama em 1966, quando Michael, com apenas oito anos, junto de quatro irmãos mais velhos, integrava o The Jackson 5. O grupo misturava soul, R&B e pop de uma maneira única, encantando plateias com sucessos como “I want you back”, “ABC” e “I’ll be there”. A partir dos anos 1970, o cantor iniciou uma carreira solo e lançou singles incomparáveis, como “Ben”, “Don’t stop til you get enough”, “Billie Jean”, “Beat it”, “Wanna be startin’ somethin’”, “Human nature”, “Thriller”, “I just can’t stop loving you” e “Bad”. O filme cobre a trajetória de Michael de 1966 ao fim dos anos 1980, deixando de lado o período mais tumultuado. Ou seja, apesar de não ser explicitamente mencionado no marketing, esta é a primeira parte da cinebiografia; se fizer sucesso, haverá uma continuação para retratar os anos subsequentes.
O fato de os maiores escândalos envolvendo Michael se iniciarem nos anos 1990 não significa que não existiram polêmicas anteriormente. Elas existiram, contudo Antoine Fuqua dirige a sua obra com enorme distanciamento em relação a elas, sobretudo em termos qualitativos, tornando qualquer ponto controverso o mais raso possível. Isso começa com uma figura central na sua vida e carreira: Joe Jackson. Colman Domingo interpreta Joe como um vilão unidimensional repulsivo, mas mesmo isso é atenuado. Ao invés de um pai agressor, ele se mostra ameaçador; a ênfase fica, portanto, muito mais no temor reverencial do filho do que na violência física perpetrada pelo genitor (algo menos severo). Sem dúvida, Michael foi castrado pelo pai para ser um artista perfeito, todavia o longa se preocupa mais em expor as intenções de Joe – concretizar a perfeição almejada, ser reconhecido como o mentor do produto perfeito e obter o lucro do trabalho de mentoria – do que os seus métodos repugnantes para sacramentá-las. O que o filme denuncia não é a sua ganância, mas a sua visão de mundo ególatra segundo a qual o verdadeiro gênio era ele. Igualmente, Katherine (Nia Long) não era uma mãe omissa, mas uma companheira para assistir à televisão e que, quase como uma heroína, se rebelou no momento certo.
Há um nexo causal entre a castração paterna e o perfil traçado para o protagonista, o que parece fidedigno. De fato, Michael não teve amigos na infância porque seu tempo era preenchido por ensaios, o que, reforçado por seu fascínio por Peter Pan (retratado no filme), é um caminho para explicar o seu comportamento exótico. Entretanto, a produção deixa em segundo plano o lado sombrio de sua vida à medida que privilegia o lado álacre. Por isso, as canções são essenciais para ganhar os holofotes e criar um espetáculo igualmente alegre e contagiante. A escolha não seria tão ruim se as músicas dialogassem com a trama, o que, salvo em relação a “Beat it”, jamais acontece. Pouco importa se o processo criativo da composição e do clipe tem base factual, o que importa é que a sequência – a única realmente boa da produção – consegue enaltecer o artista ao mesmo tempo em que mostra a sua humanidade (alguém que se inspira em algo com que efetivamente se envolve).
Sobrinho de Michael, Jaafar Jackson cumpre com perfeição o que é proposto: parecido fisicamente com o tio (até mesmo no timbre, sem olvidar o figurino), o ator reúne a infantilidade genuína e a fascinante habilidade como dançarino que marcaram o venerado artista (embora a montagem desnecessariamente acelerada prejudique as danças). Para uma versão neutra, ninguém melhor do que uma pessoa capaz de mimetizar o biografado como se fosse uma marionete e, ainda, um ser divinizado por ser infalível e martirizado pela conduta paterna.
O filme é uma peça de propaganda que cria um mundo de candura (quase) sem maldade. Curiosamente, dentre seus produtores estão familiares de Michael (como La Toya Jackson), representados como pessoas gentis e bem-intencionadas, além de John Branca. CEO da The Michael Jackson Company, Branca também produz o longa e é interpretado por Miles Teller – um ator que chama a atenção por ser o mais famoso do elenco – como mais uma pessoa bondosa na vida do artista. Fiel ou não aos fatos, ter essas pessoas como produtoras, no mínimo, coloca em xeque a honestidade da obra e corrobora a percepção quanto à sua artificialidade e seu fim de lucro fácil (do contrário, por que, por exemplo, não deixar claro que é apenas a parte 1?). Enquanto algumas inflam o próprio ego ao se colocarem na tela com contornos angelicais, todas lucram em cima de alguém que não tem paz mesmo após falecer.
Em tempo: se o que os produtores desejam é honrar a memória de Michael, poderiam doar todo o seu lucro a entidades beneficentes. Fica registrada a sugestão.
P.S.: pode causar estranheza que Janet Jackson não apareça em momento algum. A estranheza se esvai quando se percebe que ela não está na lista de produtores.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

