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“MINHA MELHOR AMIGA” – Mais que amizade, cumplicidade

Por vezes, “amizade” pode ser um termo amplo demais. “Amiga” pode designar aquela com quem se mantém contato, mas de quem pouco se sabe. O termo também pode se referir àquela que se conhece muito bem, mas por quem não se guarda muito afeto. No caso de MINHA MELHOR AMIGA, a palavra é pequena demais para corresponder a tamanha cumplicidade da dupla principal.

Júlia e Clara são amigas há muitos anos, sempre passando por momentos similares. Chegando aos cinquenta anos e vendo suas filhas viajarem para o exterior sem elas, a aflição é reduzida quando têm a ideia de também viajar juntas para visitar as adolescentes e aproveitar um descanso.

(© Paris Filmes / Divulgação)

No melhor estilo buddy comedy, a maior parte do êxito cômico do longa se deve à química da dupla principal, Ingrid Guimarães e Mônica Martelli. No prólogo e no epílogo, o uso de voice over faz com que as duas vozes se complementem, como se elas fossem duas partes de um todo. Existe na obra uma referência expressa ao filme “Minha vida em Marte” – dirigido por Susana Garcia (que também dirige “Minha melhor amiga”) e com Martelli e Paulo Gustavo no elenco -, referência que é desnecessária em termos narrativos, mas muito simbólica para expor a união desse grupo de artistas. Isso é corroborado pelos erros de gravação durante os créditos, que demonstram que a camaradagem ultrapassa as telas. Guimarães e Martelli são boas humoristas cujas personagens dão gargalhadas no longa, um riso que não soa artificial, mas transparece como risadas tanto das personagens quanto das atrizes.

Como sói ocorrer nas comédias românticas – embora não se trate de uma -, boa parte do humor é fruto de desencontros (o passageiro pedindo para carregar o celular, o show da cantora Ludmilla etc.) e situações vexatórias (o patinete, o unicórnio…). A arquitetura do roteiro – cuja versão final é de Andrea Batitucci, mas elaborado também por Patricia Leme, Luisa Capri e Tati Bernardi, além de Guimarães, Martelli e Garcia – depende de contextos que propiciam piadas com facilidade, como o pós-divórcio (piadas com ex-marido e nova esposa), a própria condição (piadas com a altura de Martelli) ou encontros que deixam as duas encantadas (piadas com suas reações diante de homens cuja beleza as deixa sem saber o que dizer). É verdade que há muita repetição de gags que já constituem clichês das comédias (a pessoa desconhecida que encosta a cabeça no ombro no voo, a prova de roupas, a dificuldade de comunicação em um idioma estrangeiro), inclusive repetidas (a dependência de medicamentos, a dificuldade com tecnologia). Porém, o humor majoritariamente funciona.

Estilisticamente, a trilha musical é explorada para mesclar cenas de feel good movie (“Já sei namorar”, dos Tribalistas), romance (“Kiss me”, de Sixpence None the Richer) e road movie (“Tempo perdido”, da banda Legião Urbana), o que é reforçado pelo visual, notadamente os establishing shots exibindo cenários lusitanos e espanhóis deslumbrantes que variam entre urbanos, rurais, praianos e históricos. Embora isso sugira uma estética modesta, ela é suficiente para os propósitos do filme, que, ao contrário do que se espera, não é limitado a obviedades.

Em que pese à previsibilidade da trama e ao didatismo de algumas reflexões, o longa atinge um nicho sobre o qual pouco se pensa. A síndrome do ninho vazio é catapulta para a trama, fazendo com que Júlia e Clara precisem pensar em si mesmas e em seus medos (respectivamente, se apaixonar e ficar sozinha; por ironia, praticamente opostos). A partir daí, porém, o filme se amplia para pensar nas dificuldades em ser mulher (com foco na grande cobrança sobre si mesma), sobretudo na faixa dos cinquenta anos (questões hormonais, sexuais), extraindo um humor dotado de positividade. É o que ocorre, por exemplo, na cena em que Júlia e Clara experimentam roupas, que é engraçada em razão do vestuário e ainda mostra como elas podem ter segurança sobre seus próprios corpos. A mensagem de que essa etapa da vida pode ser uma continuidade, uma reinvenção ou um recomeço – a depender da escolha feita – é transmitida com êxito. Os medos não deixarão de existir, mas a obra deixa claro que a amizade pode constituir uma arma poderosa para enfrentá-los e os vencer. No caso de Clara e Júlia – quiçá de Ingrid, Mônica e Susana -, mais que uma amizade, o que elas têm é uma cumplicidade que poucos privilegiados alcançam.