“MORRA, AMOR” – Poderia ser, mas não é
A intenção de MORRA, AMOR é de um drama psicológico magnético. Esse magnetismo existe na mise en scène e o filme tem um trunfo que poderia torná-lo avassalador. Isso não ocorre, todavia, em razão do roteiro, que apresenta uma narrativa enfadonha, repetitiva e, principalmente, incapaz de criar uma progressão.
Grace e Jackson moram em uma região rural pacata onde criam seu filho recém-nascido. Apesar de os primeiros dias na casa serem de uma paixão intensa, após o nascimento do bebê, a relação entre eles não é mais a mesma, muito menos o comportamento de Grace, que parece ter perdido a sua sanidade.

O trunfo do longa é a atuação de Jennifer Lawrence no papel principal. A atriz teve nos últimos anos projetos que, de maneira geral, vão do descartável ao ruim, como “X-Men: Apocalipse” (2016), “Passageiros” (2016), “X-Men: Fênix Negra” (2019), “Não olhe para cima” (2021) e “Passagem” (2022), com apenas dois destaques positivos: “Mãe!” (2017) e “Que horas eu te pego?” (2023). “Morra, amor” está em um nível intermediário, mas seria muito pior se não fosse o trabalho de Lawrence. Grace é uma personagem que está em plena erupção, cujo comportamento escalafobético espanta a todos, exceto (ao menos no início) Jackson (papel de Robert Pattinson, que está bem, mas provavelmente concordaria que o filme é de sua parceira de cena). Selvagem, Grace engatinha, se esgueira, se oculta e salta, atividades para as quais tem a companhia episódica do marido, que, todavia, cada vez mais fala menos o seu idioma. Animalesca, ela quer sexo mesmo que seja vista pela sogra (vivida por Sissy Spacek), ela se desnuda (literal e metaforicamente) quando tem vontade simplesmente porque tem vontade, independentemente dos outros que estão ao seu redor. Grace encontra em Karl (LaKeith Stanfield) uma satisfação efêmera, mas ele é tão insignificante enquanto pessoa que ela o assusta, como se fosse destruir a sua vida. Ela causa lesões em si mesma e não tem receio no manejo de armas, afinal, a vida alheia não tem grande valor. Grace é o ocaso do superego.
Na adaptação do livro de Ariana Harwicz para o roteiro, porém, Lynne Ramsay (que também dirige o longa), Alice Birch e Enda Walsh não conseguem transformar a insanidade de Grace em algo crescente. Isso não seria um problema, a protagonista poderia ter uma conduta simplesmente pulsante, o que faria sentido com seus altos e baixos. Para fins narrativos, contudo, Grace age em uma espiral repetitiva em que nada mais surpreende e a expectativa de uma punch scene é frustrada. A trama, assim, é cansativa e basicamente não sai do lugar, reiterando a mesma ideia – a loucura de sua protagonista – inúmeras vezes, dependendo do brilhante desempenho de Lawrence. Para uma proposta de drama psicológico com tons de suspense, a ausência de ascensão é uma falha bem grande. Isso tudo sem desconsiderar, ainda, lacunas e inverossimilhanças do roteiro: como Karl se aproximou de Grace? Como Jackson consegue ser passivo por tanto tempo? Por que o bebê é pouco relevante no desenvolvimento da trama (sobretudo considerando sua provável importância na saúde mental de Grace)?
Ramsey, por outro lado, consegue estabelecer um poder magnético em sua obra. Imageticamente, “Morra, amor” é impecável, seja pela forte presença do design de produção (a casa de madeira é quase uma personagem, principalmente quando reformada, desempenhando uma relevante função narrativa), pelos enquadramentos inteligentes (no prólogo, por exemplo, as figuras quadriláteras sobrepostas são quase hipnóticas), ou ainda pelo primor da fotografia noturna acinzentada. Também o design de som é de alto nível, dado que os ruídos tanto ajudam a construir o ambiente bucólico (no farfalhar das folhas, por exemplo) quanto estimulam sensações similares às sentidas por Grace (em especial com os latidos do cachorro, que irritam por serem incessantes).
Apesar da atuação impressionante, “Morra, amor” não está no rol dos melhores filmes de Jennifer Lawrence. Da mesma forma, apesar da ótima direção, o longa não está entre os melhores de Lynne Ramsey (cujo ápice foi “Precisamos falar sobre o Kevin” (2011). Trata-se da perfeita definição de um filme que poderia ser esplendoroso, mas não o é graças a um detalhe gigantesco.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

