“MORTAL KOMBAT 2” (2026) – De volta aos anos 1990
A trajetória da franquia de jogos “Mortal Kombat” para o cinema, em live-action, conta com quatro filmes: “Mortal Kombat” (1995), “Mortal Kombat: aniquilação” (1997), “Mortal Kombat” (2021) e MORTAL KOMBAT 2 (2026). O de 1997 é continuação do de 1995; o de 2021 é um reboot continuado pelo de 2026. Apesar do distanciamento de mais de três décadas entre o primeiro e o último, parece que este, ainda mais que seu antecessor, funciona como uma máquina do tempo.
Diante da intenção de Shao Kahn de dominar a Exoterra, Lorde Raiden precisa selecionar os seus campeões para lutarem no combate mortal. Raiden recruta Johnny Cage; aquele conta com Kitana. Estarão eles dispostos a morrer defendendo o lado pelo qual lutam?

Simon McQuoid retorna para a direção, mas o roteiro é agora assinado por Jeremy Slater. Nas duas áreas, as melhorias são deveras tímidas. Existe uma tentativa de criar uma trama com reviravoltas, mas nada realmente surpreende. O ponto de partida do enredo é o backstory triste de Kitana (Adeline Rudolph), o que se torna, na verdade, a motivação para os seus previsíveis atos – tão previsíveis quanto os de Jade (Tati Gabrielle), sua amiga. Apenas Kitana e Johnny Cage (Karl Urban, ótima adição ao elenco) têm arcos narrativos bem delineados, todavia a sua obsolescência é pueril: uma trama de vingança e uma progressão da autopiedade à autoconfiança.
No aspecto cômico, porém, a obra funciona melhor, em especial graças a Cage e, com menor destaque, a Kano (Josh Lawson), ambos com falas irônicas e referências à cultura pop que suavizam a suposta seriedade da trama (afinal, eles estão arriscando as suas vidas para salvar um planeta inteiro!). Com Cage, há duas camadas de humor. A primeira, mais singela, reside na função dele como identificação secundária, pois descoberta de um mundo novo resulta em alívio cômico através de sarcasmo (“parece tapeação, mas tudo bem”) e reações autênticas fáceis para um ator como Urban (como ao ver as crianças tarkatâneas). A segunda camada é mais perspicaz; trata-se de uma sátira a atores veteranos no gênero ação – como o próprio Urban, que já não é mais novo -, pois Cage é um ator decadente e que vive às custas do sucesso na década de 1990. Há uma referência gráfica bem clara à franquia “Missão impossível” na capa de um de seus filmes (uma piada sutil sobre Tom Cruise), além de uma citação a Keanu Reeves.
O tributo à franquia de jogos está presente na trilha musical, em falas clássicas (“finish him!”, entre outras), na fidelidade às personagens e suas caracterizações – repetindo inclusive as técnicas dos lutadores, como o uso do leque por Kitana e a movimentação acelerada de Shao Kahn (Martyn Ford) – e em easter eggs – em especial a participação de Baraka (CJ Bloomfield) e a reaparição de uma dupla icônica – que poderiam ser retirados, sem prejuízo, evitando o inchaço narrativo que ocorre. O grande defeito do longa é que esse tributo é levado às últimas consequências, não pela dose extra de gore (que faz sentido, já que é algo marcante na série), mas pela ausência de fotorrealismo. Do ponto de vista gráfico, a fidelidade é tão grande que o filme parece um jogo, o que, evidentemente, não é positivo. O VFX é paupérrimo e a preocupação em se aproximar da fonte prejudicou a estética. Por exemplo, o sangue é brilhante demais e os cenários são escuros e de pouca visibilidade. As coreografias de luta não são ruins, mas poderiam ser melhores se não fosse a obsessão pela fidelidade. O mesmo vale para o design de som.
Por fim, há dois fatores que fazem com que “Mortal Kombat 2” pareça um filme de 1990 trazido às telas de cinema de 2026 por um dispositivo de viagem no tempo. O primeiro é a má qualidade de seu anacrônico visual, fruto da deferência extrema aos jogos. Mesmo que uma obra seja de fantasia, ela ainda pode ser fotorrealista. O segundo fator, ainda mais evidente, é a cafonice da mise en scène de McQuoid. Sobram frases de efeito, algumas atuações fogem completamente do tom e se tornam caricaturais (é o caso de Shang Tsung, vivido por Chin Han) e, por vezes, paira uma atmosfera séria demais para tamanha tolice. Quando Johnny Cage pula um projétil, jogando-o para baixo, e ele acerta um helicóptero em pleno voo com apenas um corte, a cafonice funciona porque aquilo não é para ser levado a sério. Quando, contudo, o longa trata a ameaça de Shao Kahn como algo profundamente assustador, ele caminha em direção aos mesmos anos 1990 de onde saíram os filmes dos quais faz troça.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

