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“NATAL AMARGO” – Autocomplacência e metalinguagem

Sob o véu de uma assinatura marcante há em NATAL AMARGO tanto um mea culpa quanto uma autocomplacência. Não há como negar as qualidades estéticas do longa, que são virtudes reiteradas na filmografia de seu realizador. Dessa vez, porém, a escolha pela metalinguagem parece ter uma pessoalidade que obnubila um desenvolvimento robusto para além das intenções quase declaradas.

Raúl está escrevendo o roteiro de seu próximo filme. Sua protagonista é Elsa, uma mulher, também cineasta, que está padecendo de uma enxaqueca muito dolorosa. O que eles compartilham enquanto artistas é a inspiração em transformar experiências próximas em arte.

(© Warner Bros. / Divulgação)

Trata-se de mais um filme que martela a ideia de que a arte imita a vida. Aqui, todavia, a metalinguagem ocorre em dois graus. No primeiro, Raúl se apropria das pessoas de seu círculo social (além de si mesmo) para colocá-las – mediante algumas adaptações – em seu roteiro; no segundo, Elsa faz exatamente o mesmo, com a única diferença que ela é fictícia dentro da diegese, enquanto ele é real. A rigor, é possível que existam três graus de metalinguagem, pois tudo leva a crer que Raúl é o próprio Pedro Almodóvar, responsável por “Natal amargo” (a caracterização física da personagem, por exemplo, é bastante similar à do cineasta). Almodóvar (pessoa real) projeta a si mesmo no filme enquanto Raúl (pessoa real dentro da diegese, ou seja, personagem apresentada como real) tanto quanto Raúl projeta a si mesmo, em seu roteiro, enquanto Elsa (pessoa fictícia dentro da diegese, ou seja, personagem apresentada como fictícia). Da mesma forma que Raúl e Elsa, portanto, é possível que Almodóvar faça com que pessoas de seu círculo social sejam personagens de suas obras, ainda que mediante modificações pontuais.

O foco do filme, portanto, reside no entrelaçamento entre ficção e realidade na medida em que o autor/artista se apodera daquilo que vive para poder criar. A metalinguagem surge em diversos atributos do longa, como no design de som (o voice over, os ruídos de teclas), na imagem (o texto aparecendo na tela) e no texto. Há no terceiro aspecto um viés humorístico da obra quando Almodóvar tece críticas à indústria cinematográfica, como quando Elsa afirma que a publicidade permite auferir mais renda ou quando Raúl rejeita a hipótese de fazer um filme mais curto para ser exibido em streaming. Nos dois primeiros atos, a comédia surge de maneira pontual, por exemplo, na sequência do hospital (os rapazes acidentados, a explicação da expressão “cinema cult” e a “empolgação” da médica diante de Beau) e na participação de Rossy de Palma como antípoda de Elsa. Depois disso, entretanto, o longa assume um tom mais dramático, impulsionado pela belíssima interpretação de Amaia Romero cantando “Las simples cosas”. A escolha de canções imortalizadas na voz de Chavela Vargas (a música mencionada e “La llorona”) intensifica a melancolia, mas não se harmoniza plenamente com as composições instrumentais de Alberto Iglesias, que transmitem uma tensão que o filme não alcança.

Existem ainda outros problemas no longa, a começar pela protagonista. Elsa demora muito para encontrar o seu rumo e, antes disso, parece vagar em busca de um motivo para ficar aflita. Soma-se a isso a atuação ruim de Bárbara Lennie, cuja expressão transmitindo dor (pela enxaqueca) é de uma incoerente indiferença. Como se não bastasse, as subtramas das inspirações de Elsa são desconexas: o drama de Patricia (Victoria Luengo) e o de Natalia (Milena Smit), pelo momento em que surgem na narrativa, soam artificiais – leia-se, destinados exclusivamente a demonstrar como a arte imita a vida – e levam a uma indiferença. Afinal, quem vai se importar por personagens irrelevantes? A mesma lógica se aplica a Beau (Patrick Criado) e Santi (Quim Gutiérrez), que são os homens bonitos que dão apoio aos seus parceiros artistas.

Algumas dessas críticas são dirigidas por Mónica (Aitana Sánchez-Gijón) a Raúl (Leonardo Sbaraglia), como se Almodóvar estivesse atestando ao espectador que tem ciência de que o roteiro de Raúl – não o dele, mas o de sua personagem – tem defeitos. A estratégia mira na ironia, mas não tem a sagacidade de perceber que as falhas do roteiro de sua personagem são falhas de seu próprio roteiro. Não há inteligência em fazer Mónica afirmar que o script é autocomplacente: confessar a autocomplacência não elide a própria autocomplacência. Almodóvar pretende fazer de seu filme um mea culpa, admitindo que, enquanto cineasta, instrumentalizou as pessoas à sua volta para poder criar, independentemente dos sentimentos alheios. Porém, esse mea culpa é decepcionante justamente em razão da autocomplacência: na ótica do longa, se é verdade que o artista desconsidera o apreço por outrem se for pelo bem da arte, também é verdade que ele é escravo da própria arte e assim prejudica a sua vida pessoal e os laços que constitui. “Natal amargo” se esconde por trás de uma estética suntuosa, notadamente o design de produção usando tons de vermelho e de verde – não à toa, cores natalinas – e uma mise en scène digna do renome de seu realizador. A obra entregue, por outro lado, é muito aquém de sua grandiosidade.