Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“NOUVELLE VAGUE” – Cinefilia engraçadinha

Nos anos 1950 e 1960, desenvolveu-se a Nouvelle Vague francesa. Em sua origem, críticos e intelectuais da revista Cahiers du Cinéma começaram a dirigir seus próprios filmes em oposição ao cinema industrial e às convenções narrativas clássicas. Nomes como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Claude Chabrol, Alain Resnais e Agnès Varda revolucionaram a Sétima Arte com obras de baixo orçamento, narrativas não lineares na dimensão espaço-temporal, decupagem disruptiva, abordagem realista, temas cotidianos ou políticos e filmagens em locação. Um dos marcos históricos para o movimento e para o cinema em geral foi “Acossado“, filme de Jean-Luc Godard que tem seus bastidores ficcionalizados por NOUVELLE VAGUE. Como lidar com esse paradigma? As respostas dadas pela produção são incertas e contraditórias.

(© Mares Filmes / Divulgação)

Em Paris no fim década de 1950, Godard já era renomado como crítico e havia dirigido curtas-metragens. Diferentemente de seus colegas, ele ainda não havia dirigido um longa-metragem. Decidido a se lançar como diretor de cinema, convence o produtor Georges de Beauregard a apoiar a realização de seu filme. Muitos fatores, então, interagem nas filmagens de “Acossado“: a escolha do amigo Jean-Paul Belmondo para ser o protagonista, as divergências com a atriz Jean Seberg, a personalidade curiosa do diretor e os atritos com o produtor. Em meio à descrição dos bastidores movimentados, um senso de jovialidade e espontaneidade criativa emerge daquele período, local e artistas.

Como lidar com o paradigma cinematográfico “Acossado“? A princípio, o diretor Richard Linklater parece resumir a resposta à pergunta pelo viés da homenagem e do deslumbramento. Há uma postura de reverência cult na forma como ele encena o passado. Ao mesmo tempo que quer destacar a importância histórica da Nouvelle Vague e dos seus membros, quer também exibir seu conhecimento cinéfilo sobre personagens, situações e acontecimentos. É o que se pode sentir dos vários momentos em que uma legenda apresenta o indivíduo a aparecer na cena seguinte. E são muitos nomes marcantes para o cinema, como Godard, Truffaut, Chabrol, Jean Renoir, Agnès Varda, Eric Rohmer, Robert Bresson, Jean-Pierre Melville e Roberto Rossellini. Além disso, sequências importantes do filme de Godard precisam ser reconstruídas como a revelação da grande bagagem cultural de Linklater, como o desfecho filmado na rua e as interações entre Michel Poiccard e Patricia. Tudo isso é encenado a partir de uma fotografia em preto e branco que promove uma reconstituição eficiente da época e das características da película.

Porém, a postura de veneração intelectualizada poderia se passar por prepotência elitista. Seria possível supor que a narrativa se transformaria em um exercício baseado na seguinte questão para o público: “conhece todas essas pessoas? reconhece cada fato mostrado?”. Ao invés disso, Linklater faz com que a trama de bastidores se assuma como uma comédia irreverente que não se preocupe com a fidelidade histórica nem com a pura homenagem saudosista ou idealizada. Logo, a caracterização de Godard passa longe da criação de um ícone perfeito e revolucionário. O personagem é vivido por Guillaume Marbeck como um sujeito inquieto que não pode ser o único da Cahiers du Cinèma sem fazer o próprio longa. Ele também aparece como alguém excêntrico que cria seus próprios métodos inusitados de trabalhar e de compreender a arte, além de proferir uma série de frases de efeito. A descrição de Godard acaba por criar outro tipo de imagem cristalizada, não sob um pedestal de supervalorização, mas simplificada por um estereótipo que se repete sem qualquer nuance ou problematização.

A escolha pela comédia desemboca em outro problema que o filme não consegue se desviar: o risco da repetição de recursos narrativos. A partir do momento em que as filmagens se iniciam, a equipe de atores e profissionais técnicos se espanta com as excentricidades de Jean-Luc Godard. O cineasta não trabalha com um roteiro pronto para organizar a criação da cenas, utiliza citações de personalidades para escrever as linhas de diálogo, nega o som direto na câmera para passar instruções ao elenco durante as gravações, segue um cronograma incomum para filmar poucas sequências por dia, evita fazer mais de um take para a mesma cena, dispensa o trabalho de continuístas e maquiadoras por não corresponder a sua visão de cinema e entra em conflito com o produtor por ser pressionado a agir contra suas convicções. Todas as passagens cômicas se enquadram em apenas duas possibilidades. São estratégias para deixar o público interessado pela próxima ação excêntrica do autor ou pelas diferentes reações de surpresa, indignação ou irritação dos demais personagens. De qualquer modo, cria-se um padrão que acrescenta pouco à obra.

O efeito final da mistura entre a valorização da importância histórica do movimento cinematográfico, a reconstrução dos bastidores de “Acossado” e a utilização de um humor leve é uma contradição. Filmes do passado e realizadores conhecidos pela liberdade estética são inseridos em uma narrativa que não preza por esse adjetivo como uma de suas principais características. A sobriedade na decupagem e a falta de experimentações mais sólidas de linguagem fazem com que todas as imagens se apresentem como excessivamente comportadas. Em tese, poderia se imaginar que Linklater busca o contraste entre suas próprias escolhas formais discretas e a subversão linguística de Godard. Entretanto, nenhum impacto estilístico ou dramático surge dessa diferença em potencial na experiência da obra. Os únicos sinais pontuais de liberdade se concentram na dinâmica entre Aubry Dullin, interpretando Jean-Paul Belmondo, e Zoey Deutch, encarnando Jean Seberg, por deixarem de lado a seriedade e abraçarem a brincadeira diante das extravagâncias do cineasta. O destaque fica por conta de Jean Seberg, que começa querendo desistir do projeto e termina usando as manias do próprio Godard como humor contra ele.

Em suma, “Nouvelle Vague” não lida tão bem com a análise dos cânones. A sensação deixada em um primeiro instante pode até ser promissora. Contrariando as expectativas mais óbvias, não se trata de um filme que reverencia demais os símbolos do cinema francês e seus realizadores. As estratégias utilizadas para a reconstituição de época e o deslumbramento para a identificação de cada nome importante cedem lugar para uma trama cômica de bastidores. Embora Richard Linklater tente conferir um estilo singular à reconstrução dos passos para a produção de “Acossado“, uma fórmula repetitiva não custa muito tempo a se instaurar. Por boa parte da narrativa, as escolhas formais sóbrias não são aproveitadas para dar conta dos impactos deixados pela Nouvelle Vague e por Jean-Luc Godard à história do cinema. E o humor se fecha dentro de uma redoma confortável e esquemática, que tem pouco a explorar em termos de linguagem cinematográfica e reflexões dramáticas ou intelectuais sobre os artistas de outrora. Pudesse ver a obra, Godard não ficaria muito satisfeito.