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“O CASTIGO” – Plano-sequência para a intimidade

Festim diabólico“, “Birdman“, “1917” e a série “Adolescência“. O que essas obras têm em comum? Elas se estruturam em torno de um grande plano-sequência (ocultando os cortes ou não, dividindo-se em episódios ou não). Em geral, a filmagem sem cortes, que transita de um espaço a outro e cria a sensação de tempo real, produz efeitos que extravasam a dimensão interna dos personagens. Pode promover a imersão dos espectadores, ampliar a tensão de um momento de perigo ou chamar a atenção para o desafio técnico do recurso. Em O CASTIGO, a técnica faz o movimento contrário e adentra nas contradições dramáticas de Ana, uma mulher colocada em xeque após uma decisão ruim na estrada com o marido e o filho.

(© Filmes do Estação / Divulgação)

Em uma viagem de carro para a casa dos pais, Ana está dirigindo com o marido Mateo e o filho de sete anos Lucas. Quando o filme começa, ela está séria e irritada. Ao seu lado, o esposo pede para que volte ao local na estrada em que deixou a criança desobediente como forma de castigo. No retorno, Lucas não está mais lá. O desespero toma conta dos dois adultos e, na busca pelo entorno, as divergências do casal vêm à tona e colocam à prova as relações familiares.

O desaparecimento do menino é o elemento disparador da trama, mas não a culminância dos interesses da narrativa. O diretor Matías Bize utiliza o fato como ponto de partida para discutir a exposição pública da maternidade. Ele faz isso ao mostrar como Ana é julgada constantemente por suas atitudes, emoções e expectativas de vida. Em primeiro lugar, os julgamentos partem da família. A procura pelo filho desencadeia discussões que fazem Mateo acusar a esposa de ser muito crítica com Lucas, exagerar nos castigos e cogitar sem razão alguma condição médica especial para a criança. Em tais momentos, a mãe sempre parece a figura associada a punições e à imposição de limites, enquanto o pai se coloca como alguém que proporciona felicidade e satisfação. Nas ligações da mãe de Ana, é novamente colocada contra a parede em relação ao horário de chegada e ao jantar favorito para o neto como se fosse incapaz de definir as duas situações.

Lucas continua desaparecido e Mateo decide chamar a polícia, apesar dos protestos da esposa. Quando os policiais chegam, os julgamentos se intensificam. Ao invés de fazer a narrativa adquirir contornos de mistério por conta da investigação do paradeiro do menino, o filme desenvolve ainda mais o conflito dramático ao redor de Ana. Ela é julgada pela detetive como um paralelo para os questionamentos feitos pela sociedade ou por órgãos de autoridade. Além dos familiares, a personagem é colocada contra a parede de duas maneiras: cria uma versão falsa para explicar o desaparecimento do filho e escolhe como castigo deixá-lo para trás na estrada. No primeiro caso, dificulta o trabalho dos investigadores que perdem tempo para ter acesso às informações corretas dos pais. Inclusive, é o momento em que o público tem contato com a razão para a ação impulsiva para colocar limites em Lucas. E no segundo caso, a criação materna é novamente avaliada porque, mesmo não ouvindo nenhum julgamento explícito, Ana entende que a detetive a critica e jamais imagina fazer algo semelhante com os próprios filhos.

A escolha pelo plano-sequência sugere que o próprio filme também julga a personagem. A ausência de cortes e a movimentação fluida da câmera não propõe cenas de ação ou de tensão decorrente de um mistério a ser resolvido. As passagens tensas até podem existir, porém surgem a partir das brigas do casal e das diferentes emoções experimentadas por Ana. Então, Matías Bize opera o equipamento em tempo real para colocar em prática diversos efeitos interessantes para a proposta dramática. É necessário situar a geografia do local e a dificuldade de deslocamento pela floresta ao lado da estrada. É importante seguir as reações dos adultos, sobretudo da mãe, logo o diretor desloca a câmera de planos gerais voltados para os eventos em si para closes mais fechados em Ana. É coerente deixar o foco narrativo concentrado nos pais para abordar as discussões sobre o relacionamento e as consequências do desaparecimento de Lucas. E é expressivo acompanhar os momentos em que os espectadores estão próximos de situações em que aparentemente nada de relevante ocorre (alguém está fumando ou observando o ambiente) ou de cenas íntimas que não deveriam ser vistas (o descontrole emocional de Ana).

Quando os enquadramentos são direcionados para o rosto da mãe ou para sua experiência emocional diante da preocupação com o filho, os espectadores também podem se sentir julgando a personagem. Por que ela parece apática ao ver que o filho não está mais na estrada? Por que acredita que Lucas está punindo os pais? Por que dá sinais de ser rígida demais na criação do menino? Por que chama por ele como se estive mais uma vez brigando? Por que inventa histórias ou desculpas para não assumir a verdade para a mãe e para os policiais? A princípio, o público pode sentir que deve haver algo de errado com ela. Entretanto, não leva tanto tempo para que a percepção mude. Por que julgar uma mãe que está lidando com uma situação de desespero? Existiria realmente uma reação adequada para o momento? No decorrer dessas dúvidas, o plano-sequência e a câmera próxima de Ana revelam a complexidade de emoções contraditórias e o protagonismo, de fato, do filme. Do que talvez pudesse ser considerado uma apatia, Ana vivencia outros sentimentos que perpassam sua vida como indivíduo, esposa e mãe a partir da atuação de Antonia Zegers.

O castigo” tem como protagonista Ana e como conflito dramático principal as contradições da maternidade. Se é possível ter a impressão de que a personagem está sendo constantemente julgada, não se trata de uma operação com a qual o filme e o diretor concordam. Não se trata de uma escolha de linguagem que a diminui, desvaloriza ou agride simbolicamente. A narrativa assume o sentimento que Ana nutre como mulher e mãe, vendo-se cercada por julgamentos que não a deixam respirar, reconhecer suas falhas e arrependimentos nem tentar compreender o que acontece com ela. Nesse sentido, o plano-sequência adquire uma função distinta da que se costuma ver no cinema comercial. Chamar a atenção para a técnica? Gerar tensão através de movimentos frenéticos da câmera e de uma decupagem chamativa? Matías Bize praticamente faz o recurso desaparecer em meio ao interesse maior na evolução dramática de Ana. E como culminância, o monólogo final evidencia o estado emocional de uma mulher que pode, ao mesmo tempo, amar Lucas, acreditar ser uma boa mãe, mas perceber que sua identidade e desejos foram apagados pela maternidade. Logo, a resolução do paradeiro do menino não se torna a preocupação principal, mas acompanhar o deslocamento da câmera para um último vislumbre de Ana.