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“O DIABO VESTE PRADA 2” – Duas décadas transformadoras

Louis Vuitton. Yves Saint Laurent. Valentino. Dolce & Gabbana. Chanel. Dior. Prada, é claro. Essas e outras luxuosas casas de moda retornam em O DIABO VESTE PRADA 2, filme que, mesmo repetindo muito do seu predecessor, tem a virtude da consciência acerca dos desdobramentos da passagem do tempo.

Com uma carreira consolidada ao longo dos anos, Andy é agora uma jornalista respeitada e premiada. Quando ocorrem mudanças no veículo em que escreve, ela aceita uma oferta de trabalho na Runway, já que agora não seria a assistente de Miranda Priestly. Porém, isso não significa que a sua vida seria fácil.

(© 20th Century Studios / Divulgação)

Escrito por Lauren Weisberger, “O Diabo veste Prada” – o livro – pertence ao subgênero literário conhecido como chick lit, cujo foco são os dilemas atuais das mulheres heterossexuais de vinte ou trinta anos, isto é, questões como romance, amizade e mercado de trabalho para essa parcela social. A adaptação cinematográfica homônima, de 2006, tem o roteiro assinado por Aline Brosh McKenna e a direção, por David Frankel. Embora ambos retornem, “O Diabo veste Prada 2”, de 2026, tem um foco bastante diverso do primeiro longa.

Do ponto de vista estrutural, certamente a narrativa repete bastante os plot points do primeiro, como, por exemplo, o desespero de Andy ao aceitar trabalhar na Runway, os sofrimentos da protagonista no trabalho e na vida amorosa, um êxito profissional aparentemente impossível, um evento com pessoas influentes, as interações com sua rede de amizades, o choque com o universo fashion (e com as pessoas a ele pertencentes) etc. Além disso, o roteiro possui easter eggs deveras inúteis (a dica de Andy sobre o segundo andar da casa de Miranda, a doação das roupas a Emily…), deixando claro que a nostalgia é um fator relevante na produção. Por outro lado, o texto não apenas mantém a sagacidade dos diálogos (como a conversa dúbia da dupla principal frente à “Santa Ceia”), mas possui mais reviravoltas que o anterior, o que é resultado de um aumento de personagens. A rigor, as personagens de Lucy Liu, Kenneth Branagh e Justin Theroux são meros dispositivos de roteiro, mas funcionam o suficiente para movimentar a trama, a despeito de sua superficialidade.

O grande trunfo do filme, contudo, é a sua mudança de foco. Como se os vinte anos tivessem representado um amadurecimento, a obra traz agora reflexões sobre, justamente, a passagem do tempo e as suas consequências, englobando o perfil diferenciado da geração Z (representada pela assistente de Andy), a voracidade do capitalismo (cujos negócios podem mudar repentinamente e demonstram a suscetibilidade de entidades sólidas às vicissitudes financeiras), a crise do jornalismo (incidente incitante da trama), as ameaças da inteligência artificial (o que reverbera no mercado de trabalho) e os novos contornos do mercado editorial (em que a mídia impressa é obsoleta). O longa não apenas se movimenta a partir dessas ideias, mas coloca nos holofotes assuntos concernentes não a uma parcela social, mas ao funcionamento das instituições.

Os principais nomes do primeiro filme retornam, com destaque ao quarteto Nigel (Stanley Tucci), Emily (Emily Blunt), Andy (Anne Hathaway) e, é claro, Miranda (Meryl Streep). No geral, as personagens continuam iguais: Nigel é, de um lado, a sombra de Miranda à espera de um momento para brilhar, e, de outro, a âncora de Andy para a dureza da realidade; Emily é uma fanática por moda cujas ambições podem corroer relações; e Andy é a mesma profissional dedicada e bem-intencionada que se divide entre o desdém ao mundo da moda e o reconhecimento do quanto ele pode ser atraente. Miranda, por outro lado, mesmo mantendo a personalidade divertidamente sardônica e a pose icônica que ocultam a própria humanidade (salvo, mais uma vez, em uma cena em que ela desce do pedestal e se expõe para Andy), se defronta com conflitos externos que a tornam vulnerável. Seja pela fragilidade resultante de uma crise profissional (vide a primeira cena com Emily), pela redução no orçamento da revista (a cena do avião) ou pelas exigências do “politicamente correto” (falas e mesmo atitudes hoje inaceitáveis), há fatores estressantes – todos eles fruto do Zeitgeist de 2026, ausentes ou menores em 2006 – que exigem de Miranda uma adaptação, ainda que a contragosto. Mais do que um futuro em risco, seu presente traz dissabores. Os quatro retornam maravilhosos, mas Streep é hors concours, arrancando risadas deliciosas.

Características estéticas também retornam, notadamente na trilha musical (com canções repetidas e a manutenção do pop), no design de produção (cenários deslumbrantes, desfiles estonteantes, recintos luxuosos) e, é claro, no figurino. O vestuário é mais uma vez um meio de expressão das individualidades, de modo que as roupas de Andy também são fruto das nuances de seus momentos na trama. Mais uma vez, o filme é um deleite fashion.

Ao invés de se limitar a repetir o primeiro filme, “O Diabo veste Prada 2” se propõe a pensar a diferença que vinte anos podem fazer. Foram, de fato, duas décadas transformadoras. O longa mostra, assim, que é possível apelar à nostalgia sem ignorar que o hoje não é mais como o ontem.