Nosso Cinema

A melhor fonte de críticas de cinema

“O DRAMA” – Sarcasmo anódino

Com um roteiro melhor em termos narrativos, O DRAMA seria um excelente filme. A premissa é inteligente e há diálogos ótimos, mas o texto padece de males que o tornam enfadonho e anódino, atenuando a majoritária sagacidade da direção.

Emma e Charlie são noivos felizes a poucos dias do casamento. Em um jantar com um casal de amigos, um deles revela um segredo sombrio sobre o seu passado, fato que pode abalar o amor que sentem um pelo outro e ruir o planejado matrimônio.

(© Diamond Films / Divulgação)

No primeiro ato, o diretor e roteirista Kristoffer Borgli fornece indícios de que a união pode não dar certo: Charlie inicia um diálogo com uma pequena mentira, Emma o frustra na primeira aproximação, um encontro acaba sendo desastroso… o contexto serve de subterfúgio para uma fala de Emma que se torna fundamental na trama: “quer recomeçar?”. O jeito atrapalhado de Charlie e a volubilidade de Emma (como na cena da dança), muito bem interpretados por Robert Pattinson e Zendaya, podem ser ingredientes para dificultar a união, mas o cerne da dificuldade está no passado de um deles e na (im)possibilidade de obliterar esse passado.

Com o incidente incitante, apresenta-se mais do que um backstory perturbador para fins narrativos e dramáticos, mas uma proposta de reflexão. Até que ponto é proveitoso conhecer o passado da pessoa com quem se pretende contrair núpcias? Em que medida o desencanto decorrente do contato com o lado mau pode afetar a imagem que se tem da pessoa amada? Quão vulneráveis são os laços afetivos supostamente consolidados? De maneira ainda mais ampla: tal como acreditava Parmênides, seria a essência das coisas imutável?

Existe no longa, ainda, um subtexto político, que se torna o fio condutor da trama e é responsável por suas maiores virtudes e seus maiores defeitos. Do ponto de vista positivo, Borgli constrói sua obra com uma carga alta de humor ácido e ponderações sobre os assuntos mencionados, sobretudo a imutabilidade da essência humana, por força da qual o passado que a personagem (chamada aqui de “A”) revela lhe pertence e dela não saiu, isto é, ela não pode ter simplesmente mudado. Isso gera cenas em flashback e em subjetividade mental que atormentam a outra personagem (“B”), inclusive de maneira obsessiva, sempre com um viés sarcástico. B, por exemplo, passa a enxergar (em sentido literal) A não no seu visual atual, mas como A era, imageticamente, naquele pretérito em que praticou os atos reprovados por B. O roteiro é também constantemente mordaz, como quando A revela para B (e vice-versa), com palavras dardejantes, as características que mais lhe agradam no outro, e provocativo, como ao citar a canção “I don’t like mondays” (de The Boomtown Rats) e o filme “Trinta anos esta noite” (de Louis Malle). Na mise en scène, Borgli trabalha até mesmo com alguns jump scares e elementos visuais (como a cor da vitamina) para criar uma atmosfera sardônica, o que é eficaz.

Por outro lado, esses aspectos não ocultam o vazio narrativo diante de uma trama rocambolesca em que B é uma personagem atormentada pelo histórico de A – em cenas com humor sarcástico – e nada mais se sucede. A proposta é boa, mas demasiado morna diante de uma repetição que não leva a lugar algum. Além disso, a rigor, o backstory de A é extremamente superficial. Provavelmente isso se deve à intenção de não justificar os atos de A, mas isso torna a personagem muito mais um mecanismo de roteiro do que uma verdadeira personagem. Na verdade, todos os elementos do filme servem de pretexto para a mesma piada que é reiterada à exaustão, o que permite até mesmo questionar a inteligência do filme. Veja-se, por exemplo, a montagem: há repetido emprego de montagem paralela, que fragmenta a narrativa com acontecimentos simultâneos ou cenas ilustrativas, geralmente flashbacks ou de subjetividade mental (como ironia, contrapondo-as à realidade). Não há praticamente nenhum ganho decorrente dessa fragmentação, que não enriquece as personagens ou a ideia governante. Ao final, um flash-forward é o ápice de uso de um recurso linguístico absolutamente inócuo, revelando um vício narrativo.

Ainda que “O drama” seja interessante na mise en scène e em sua ideação, a execução deixa muito a desejar. Questionar a imutabilidade do ser, quiçá a reparabilidade da conduta pregressa, é algo instigante, em especial quando a questão é moldada a partir de um assunto muito importante em termos políticos. Nada obsta que essa reflexão assuma a senda do sarcasmo. Se, todavia, o sarcasmo não serve a um propósito extrínseco, a piada é pedestre.