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“O SOBREVIVENTE” (2025) – Esconde-esconde

Se adultos brincassem de esconde-esconde para receber dinheiro em um jogo no qual homicídios fazem parte das regras, o resultado seria O SOBREVIVENTE (2025), segundo o que afirma seu protagonista. Obra de um cineasta que já demonstrou talento, quem realmente se esconde no longa é o seu diretor.

A situação de Ben Richards é preocupante: ele perdeu o emprego, sua filha está doente e a esposa precisa de turnos extras para sustentar a família em um trabalho que o desagrada profundamente. Diante desse cenário, a solução que encontra é participar de um reality show no qual pode ganhar dinheiro suficiente para garantir o futuro de sua família, mas que pode lhe custar a vida.

(© Paramount Pictures / Divulgação)

O filme se baseia em um romance de Stephen King e o roteiro é coescrito por Michael Bacall e Edgar Wright (que também o dirige). Um de seus maiores problemas é a dificuldade em manter o foco com a progressão narrativa. Inicialmente, o que Wright apresenta é uma crítica feroz à cultura estadunidense de espetacularização, apontando que, no país, tudo se reduz a entretenimento, mesmo que para isso seja necessário colocar pessoas em situações indignas (como no programa do homem na roda), elaborar narrativas inverídicas (o backstory forjado dos participantes) e se livrar de vidas descartáveis. Todos têm um preço quando quem paga é o showbiz, no qual a única regra é elevar o apreço da audiência. A obra é contundente, ridicularizando programas de auditório com bailarinas seminuas gratuitamente, participantes cujos perfis são categorias estanques e a manipulação do que chega ao público.

À medida que a narrativa progride, porém, Wright perde o ponto de foco e passa a criticar a cultura estadunidense como um todo: o armamento da população (incluindo crianças), a hipocrisia generalizada (“isso é a América e não toleramos a mentira!”, diz um apresentador de televisão que mente o tempo todo), o abismo socioeconômico (a Cidade Alta e a Cidade Baixa) e a consequente alienação de um setor da sociedade (os ricos não fazem ideia da manipulação midiática). Ainda que o trabalho de worldbuilding seja razoável, a sua ideação é passível de questionamento. É interessante a criação de um futuro distópico e com tecnologia avançada, o que muitas vezes dialoga bem com a trama (por exemplo, a presença de telas em quase todos os lugares como denúncia ao vício em telas que ocorre já hoje), mas ele faz erodir a crítica inicial. Wright não decide se quer uma obra focada na crítica à espetacularização midiática que caracteriza a cultura estadunidense hodierna (hipótese em que a tecnologia futurista e mesmo a distopia seriam desnecessárias) ou se elabora um conto alegórico e pessimista sobre um futuro hipotético (e talvez hiperbólico). A indecisão prejudica a ideia governante e torna o design de produção um acessório irrelevante, dada a timidez na elaboração do universo para além do aspecto visual.

Muitas vezes, “O sobrevivente” parece ser um pretexto para intenções que sequer deviam existir, como o merchandising escancaradamente gratuito (ou melhor, muito bem pago) de uma marca de energético e a promoção de um ator cuja ascensão, aqui, acaba sendo forçada. Glen Powell não tem espaço para nuances em sua personagem, sendo um herói altruísta, mas que se enerva com facilidade. É verdade que as personagens secundárias são ainda mais rasas, apesar de grandes nomes como Josh Brolin e Colman Domingo. Entretanto, Powell parece escalado não como ator, mas como objeto a ser exposto, um exagero que o coloca em situações sexualizadas (incluindo uma sequência de toalha, seguida de nudez, que é um clichê de comédias muito mal utilizado) e que faz com que os necessários disfarces (já que o jogo é de se esconder) sejam rapidamente deixados de lado para que o astro apareça como o público o conhece.

Ignorando o desfecho pavoroso e a contradição gritante entre os atos e o discurso da personagem de Michael Cera, Edgar Wright decepciona ainda mais do que em “Noite passada em Soho”. Em “O sobrevivente”, as cenas de ação não são memoráveis, a tensão do jogo não é convincente (tudo parece sempre tão fácil para o protagonista!) e o humor é bastante tímido. Nem mesmo a articulação entre montagem e trilha musical funciona bem, sintoma de que o cineasta escondeu suas habilidades em um local que não consegue encontrar.