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“O SOM DA QUEDA” – Melancolia profunda [49 MICSP]

Profundamente melancólico, O SOM DA QUEDA é um retrato intergeracional sobre a vida – em especial das mulheres jovens – na cena rural alemã. Procurando refletir as suas curiosidades e frustrações, com técnica apuradíssima, o filme é um mosaico antológico mais depressivo que tocante.

Alma, Erika, Angelika e Lenka são moças que vivem em uma fazenda na Alemanha em momentos distintos. O cenário em que habitam se transforma com o passar dos anos, mas as dores dos tempos pretéritos parecem ecoar repetidamente.

(© German Films / Divulgação)

Do ponto de vista estrutural, a arquitetura da narrativa roteirizada por Mascha Schilinski (que também dirige o longa) e Louise Peter é a de um mosaico. Isso porque ela apresenta quatro arcos narrativos em linhas temporais assíncronas e que nem sempre seguem a própria cronologia. Prova disso é o subplot da perna de Fritz (interpretado por Filip Schnack na versão jovem e por Martin Rother na versão adulta), que somente é explicado com o avanço narrativo. Embora o design de produção de época possa auxiliar o público a se situar (o que faz em medida limitada, pois o cenário bucólico é uma constante) – além de elementos de roteiro inerentes ao Zeitgeist, como a admiração por uma novidade como os óculos mostrados por Angelika -, não há preocupação alguma em didatismo nesse quesito, motivo pelo qual, durante longos minutos, é alta a probabilidade de se sentir confuso sobre o momento histórico, as relações interpessoais e os arcos narrativos.

De todo modo, cada uma das quatro personagens principais tem um arco dramático norteado pela melancolia e com idiossincrasias que as marcam. Erika (Lea Drinda) é motivada pela curiosidade natural da idade (em especial em relação a Fritz), o que faz com que corra riscos pessoais e eventualmente seja punida por não trabalhar na fazenda (é assim que tudo começa para ela). Angelika (Lena Urzendowsky) é uma aparente contradição em si mesma, na medida em que consegue demonstrar sentimentos díspares em um curto espaço de tempo. De um lado, ela se mostra empolgada ao demonstrar para os familiares como se pode encontrar o ponto cego de cada um; de outro, ela fica desconfortável em razão da conduta assediadora do tio, Uwe (Konstantin Lindhorst). Igualmente, enquanto rejeita Rainer (Florian Geißelmann), parecendo encará-lo como criança (e a si mesma como mulher), lamenta a fama que conseguiu por supostamente praticar atos não muito diferentes dos que ele deseja. Lenka (Laeni Geiseler) é a representação da busca por individualidade, o que se aprofunda à medida que cria vínculos com Kaya (Ninel Geiger). Ao mesmo tempo, ela vive algo semelhante a Angelika no tocante à sexualidade: considerando a sua faixa etária, tem comportamento infantil e ingênuo, mas já é alvo de atos predatórios de homens mais velhos.

Como sói ocorrer em antologias, há um desnível entre as tramas. A de Erika, por exemplo, é a mais desinteressante, ao passo que a de Alma (Hanna Heckt) é a mais interessante. É paradoxal que a personagem mais nova, ainda na infância, seja obcecada pela morte, circunstância que aprofunda a atmosfera lúgubre que permeia o longa. Essa atmosfera é representada por atributos estéticos, como a prevalência de sons intradiegéticos (em detrimento de extradiegéticos, que, quando surgem, criam momentos líricos que soam como um respiro diante do sufocamento), a razão de aspecto reduzida (simbolizando a opressão e também esse sufocamento) e a fotografia granulada e de cores escuras. Trata-se de uma estética simplesmente fenomenal.

Com uma “licença poética” para não soar anacrônico na análise, pode-se dizer que o longa se aproxima do negativismo em razão, por exemplo, da abordagem de temas angustiantes (a existência, o isolamento, a violência, a morte…), da intensidade das emoções (trata-se de um melodrama) e da crítica social (o foco está na opressão das mulheres), características traduzidas também na estética forte. O uso de narração voice over é uma maneira de espelhar a subjetividade das personagens e reafirmar sua angústia decorrente de conflitos, sejam eles internos ou externos. Com o passar dos anos, a área (a casa, em especial) em que as quatro vivem se modifica substancialmente, mas as agonias parecem sobreviver ao tempo e atormentar as personagens reiteradamente. As fotografias podem se modificar em seu objeto (não mais envolvendo pessoas mortas) e em sua tecnologia, mas sempre retratam a tristeza e mesmo a fuga (por vezes, literal) da angústia de uma existência profundamente melancólica.

* Filme assistido durante a cobertura da 49ª edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo (São Paulo Int’l Film Festival).