“O TELEFONE PRETO 2” – Entrelaçamentos
Para quem não se lembra bem de “O telefone preto”, a boa notícia é que O TELEFONE PRETO 2 não demanda uma boa memória, ainda que não se preocupe em fazer uma recapitulação esmiuçada. É positivo que o filme não seja excessivamente didático, e ainda mais positivo que consiga conectar os eventos do longa anterior com uma trama nova e bem elaborada, em que pese à superficialidade em alguns aspectos.
Mesmo que tenham se passado alguns anos, Finn ainda sofre com o trauma de seu cativeiro. Paralelamente a isso, sua irmã, Gwen, tem visões assustadoras quando está dormindo, envolvendo três meninos no Acampamento Alpine Lake.

Não se trata de uma sequência genérica e sem criatividade, ao contrário do que se poderia imaginar (afinal, o terror é um gênero vantajoso na relação custo-benefício, e trabalhar com uma continuação aumenta a probabilidade de sucesso, pois uma história nova é mais arriscada. O fato de a mesma equipe criativa estar envolvida – o diretor e roteirista Scott Derrickson e o corroteirista C. Robert Cargill – é um ótimo sinal, confirmado por uma narrativa bem amarrada. O telefone que dá nome ao título tem função diminuta ao longo da trama, mas o retorno de Ethan Hawke ao papel do vilão “Sequestrador” (sobretudo considerando a caracterização macabra e a voz rouca e sombria) é um elemento potente para conectar os dois filmes. Ao mesmo tempo em que as repercussões do primeiro longa atingem Finn (Mason Thames) e, em menor grau, Ernesto (Miguel Mora, que infelizmente tem um papel bastante restrito ao alívio cômico e a um romance clichê, em detrimento do drama familiar), os sonhos de Gwen (Madeleine McGraw) criam uma necessidade sufocante de investigar eventos do pretérito.
Tendo como ponto de partida o telefone e os sonhos de Gwen, a narrativa constrói conexões instigantes de naturezas distintas. Sob o ângulo cronológico, Gwen inicialmente enxerga o passado (que também usa o telefone) a partir do contato com outra pessoa, mas as linhas temporais se entrelaçam à medida que o pretérito diegético ingressa no presente como um entrelaçamento temporal. Esse entrelaçamento ocorre também sob o ângulo onírico, pois são os sonhos da jovem que fazem com que ela vislumbre o passado e, posteriormente, permitem que o pretérito, de maneira fantástica, se alie ao presente como se fossem um só. A relação é complexa: às vezes, Gwen apenas assiste a eventos que já tiveram um desfecho, em outras oportunidades, contudo ela participa deles enquanto está dormindo; além disso, o que parece pertencer ao reino dos sonhos se torna real para todas as personagens, mas ainda assim é diferente na visão da personagem.
Para dar contornos gráficos a essa subjetividade, há uso de fotografia granulada, o que, primeiro, transmite uma sensação de filmagem antiga (como se fossem imagens de arquivo, ideia transmitida nos créditos iniciais), e, segundo, permite distinguir o ponto de vista (essa visão é apenas de Gwen quando está dormindo, ou seja, quando a visão é de outras personagens ou ela está acordada, a fotografia perde tal aspecto). Esse não é o único artifício adotado pela direção para melhorar a experiência do espectador. Abrindo mão de recursos pobres como o gore e jump scares gratuitos – ferramentas presentes, mas de maneira justificada dentro da narrativa -, Derrickson emprega movimentos de câmera para elastecer o terror enquanto aproveita o campo. Por exemplo, na cena em que Finn está na cabine do telefone e o Sequestrador aparece do lado de fora, a movimentação circular transmite a sensação de clausura (como se ele estivesse encurralado pelo vilão) enquanto o que se vê ao redor é apenas um amontoado de neve (como se não houvesse a quem recorrer). Ainda mais interessante é a cena em que Gwen está na cabine e os meninos estão ao seu redor, quando os movimentos da câmera simulam uma aproximação progressiva (o que geralmente seria feito através da montagem) deles em relação a ela (como se estivesse sendo cercada e com espaço cada vez menor).
O roteiro é bastante superficial em relação à religiosidade, que é limitada à hipocrisia de um casal e às episódicas orações de Gwen (cuja fé não é devidamente desenvolvida). Há entrelaçamentos temáticos e narrativos perspicazes (como, dentre outros, a conexão simbólica intergeracional representada por Finn e o pai, que preferem ficar entorpecidos a enfrentar um trauma) e o vilão é eficiente (o que é robustecido pela trilha sonora atormentadora e a fotografia extremamente gélida da neve sem fim). No entanto, o sobrenatural é explicado de maneira genérica e com uma solução deveras arbitrária (apesar da preocupação justamente em explicar), o que sugere que esses entrelaçamentos não são tão firmes como parecem.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

