“O ÚLTIMO AZUL” – Voando na distopia
A proposta de O ÚLTIMO AZUL é retratar um tipo de indivíduo bastante marginalizado pela sociedade e pouco representado no cinema. Sua protagonista é uma mulher idosa, de origem humilde, que, independentemente da idade, não está às vésperas do falecimento, entendendo que ainda tem muito a fazer. A partir de uma narrativa distópica, a obra pensa como seria se essa marginalização fosse mais radical – uma radicalidade que não se verifica no próprio filme.
Objetivando maximizar a produtividade do país, o governo faz com que todos os idosos se mudem para colônias habitacionais onde deixam de ter contato com seus familiares, deixando de ser motivo para (pre)ocupação. Aos 77 anos, Tereza se recusa a atender a ordem governamental, ingressando em uma jornada na Amazônia para fazer o que deseja.

Do ponto de vista estético, o longa dirigido por Gabriel Mascaro (e roteirizado por ele junto de Tibério Azul) é um verdadeiro esplendor. Isso se deve não apenas ao estonteante visual amazônico, mas a maneira como a obra é filmada. Justamente para evitar que a natureza amazônica ofusque outros elementos do campo (e tire a atenção do espectador), o diretor usa uma razão de aspecto quadrada, o que também serve para transmitir uma sensação de aperto, tal como sente a protagonista. O calor é palpável, como se vê do suor das personagens, o que torna o design de produção, de caráter fluvial, mais acolhedor. A câmera é colocada próxima à ação, com planos fechados, para que o espectador se sinta fazendo parte dela. A trilha musical de Memo Guerra abusa de batidas eletrônicas e é bem articulada em relação às cenas. A escolha é também muito boa, seja ao demandar o brega de Reginaldo Rossi (“Aonde você for eu vou também”), seja ao precisar de uma canção mais impactante (“Rosa dos ventos”, na voz de Maria Bethânia).
Assim como em seu último filme, “Divino amor”, Mascaro cria uma narrativa distópica que é, em princípio, pessimista. O governo é vilanizado através de afirmações como “a ordem do governo é que a senhora descanse” e “o governo quer que os jovens passem a produzir sem se preocupar com os idosos”, em um viés bastante unidirecional. Há setores da sociedade que discordam dessa decisão governamental (como se conclui de pichações como “devolvam o meu avô”), mas essa discordância aparece residualmente, pois o discurso das personagens é sempre favorável à medida (salvo o dos idosos). Econômico, o filme não explica as origens desse Estado opressor, tampouco se preocupa na datação. Em uma conversa junto a este crítico, inclusive, Mascaro afirmou que a história não se passa em um tempo passível de precisão, é apenas uma reflexão em torno de “como seria” se fosse assim. Na sua visão, portanto, não se trata de um diagnóstico ou de um prognóstico.
Apesar da premissa pessimista, o tom dado pelo cineasta é majoritariamente leve. Com esmero na criação de universo (o humilhante “cata-velho”, a colônia etc.), o diretor atenua os elementos substanciais dramáticos com elementos formais de contraponto, como a trilha musical e a dança, além de doses consideráveis de humor. Mesclando gêneros, a produção é um road movie (com a peculiaridade de que a estrada é fluvial) com pitadas de musical, drama, fantasia e comédia.
Após apresentar aquele universo, a trajetória de Tereza passa por três capítulos, em uma progressão enérgica que se afasta das mazelas inicialmente expostas. No primeiro, ela conhece Cadu (Rodrigo Santoro), que serve apenas para elaborar o lado fantástico da obra, com um esboço de backstory bem decepcionante. No intermediário, ao lado dela está Ludemir (Adanilo), alguém que poderá realizar um de seus sonhos. Em ambos, porém, o plot é desinteressante e os coadjuvantes, nada envolventes. Isso muda no terceiro capítulo, em que Roberta, vivida pela ótima Miriam Socarrás, ao invés de tomar os holofotes para si, brilha enquanto faz com que a Tereza de Denise Weinberg brilhe ainda mais. A interação entre elas é muito boa e dá significado enorme ao desejo de voar que Tereza tem.
Não obstante, o tom da trama atenua demais os efeitos do universo distópico e torna a obra muito menos impactante. Faz sentido um terceiro ato de caráter solar, mas o lado dramático, que poderia ser aproveitado nos outros dois, é blasé. É conspícuo que a intenção de Mascaro é demonstrar que a terceira idade não precisa ser uma fase de recolhimento, introspecção, despedida e solidão. Entretanto, para fins narrativos, o arco de Tereza deixa a desejar no que se refere à ameaça governamental, como se fosse fácil de ser driblada (há apenas uma cena em que seus efeitos perniciosos efetivamente aparecem). Em uma realidade opressora, voar deveria parecer mais difícil.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

