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“SONHOS DE TREM” – Nos vazios de um mundo que seguiu adiante

Os filmes costumam indicar caminhos para os espectadores se envolverem com eles. Nos primeiros minutos da projeção, é possível discernir qual sentimento ou postura pode ser pertinente para aproveitar a experiência audiovisual. Em SONHOS DE TREM, a contemplação e a introspecção são essenciais. A observação começa nos ambientes grandiosos da natureza, passa para a trajetória de um homem comum e alcança os momentos banais do cotidiano. A confluência das três escalas coloca em contraste a ideia de progresso material de um país e os conflitos existenciais de um indivíduo em meio às perdas de uma vida em constante transformação.

(© Netflix / Divulgação)

No início do século XX, o lenhador Robert Grainier trabalha ao lado de muitos outros homens na construção de ferrovias que cortam os EUA. Ele cresceu órfão entre as florestas imponentes do Noroeste do Pacífico e se sente solitário até conhecer Gladys. Os dois se apaixonam e formam uma família quando Katie nasce. O tempo que passa afastado da esposa e da filha cresce a cada novo serviço que presta. Quando uma tragédia afeta a família, Robert precisa lidar com uma dor muito grande enquanto relembra os laços construídos ao longo do tempo.

A virada do século marca um período de crescimento econômico e de prestígio mundial para os EUA, um período histórico citado nas entrelinhas pelo roteiro. A expansão territorial do país permite acesso a riquezas, mas lidando com a violência da Guerra Civil e do massacre de povos indígenas. Em seguida, a extração de madeira e a construção de ferrovias mostram o desenvolvimento material da nação em articulação com o contexto da Primeira Guerra Mundial. A noção de progresso que aparece na narrativa trata tanto da superação de entraves anteriores para um modernização econômica plena quanto da percepção de que tudo está sujeito à obsolescência ou ao simples descarte. Um exemplo surge na narração em voice over que comenta sobre a substituição da recém-inaugurada estrada de ferro por outra mais moderna dali a pouco tempo. Mais adiante, o protagonista visita uma grande cidade e parece deslocado visualmente em um mundo de prédios altos, televisão, viagem espacial e espetáculos teatrais.

Robert é um contraponto para a velocidade das mudanças ocorridas no país e dentro de seu próprio universo de trabalho, espantando-se com os fatos presenciados ou com os sentimentos experimentados. A reação diante da perseguição e da execução de outros trabalhadores (imigrantes orientais ou foragidos procurados) é sempre de choque, um contraste emocional para a naturalidade da decupagem de cenas sem cortes chamativos e sob um plano aberto de destaque para a floresta. O homem não consegue se acostumar com a iminência da morte de alguém que até então estava a tanto tempo naquele ambiente, seja porque pode sofrer um acidente com a derrubada das árvores, seja porque pode ser afetado por doenças contraídas na velhice. Ele pode igualmente se sentir inadequado em um mundo que seguiu adiante e passou a ter outros hábitos. É o que fica evidente na sutil passagem de tempo que coloca o protagonista em contato com velhos conhecidos e trabalhadores mais jovens, dando a entender que seriam indivíduos muito diferentes pertencentes a gerações incomunicáveis.

Em função de uma série de estranhamentos com a rapidez das mudanças sociais e da proximidade da morte, Robert repensa a própria vida e encara questões existenciais. O diretor Clint Bentley impõe com muita força a melancolia crescente do homem enquanto está no trabalho, sendo ajudado pela trilha sonora composta por Bryce Dessner, sem precisar de muita exposição pelo texto dos diálogos ou da narração em voice over. A combinação entre imagem e som representa muito bem os questionamentos que faz sobre o seu lugar no mundo e o propósito na vida. As apreensões práticas do dia a dia convivem com uma sensação sombria que o acompanha de que algo terrível pode segui-lo. Em contraposição, a ida do lenhador para o ambiente familiar recarrega as energias e lhe dá um conforto alegre. Assim, o relacionamento com a esposa Gladys e a filha Katie proporciona grande satisfação nos pequenos gestos simples da rotina (o carinho do casal, uma refeição em família, o contato da menina com os animais…). Tais momentos são tão relevantes que os reencontros e as partidas são fortes emocionalmente, como se pode notar no dia em que Katie não responde à despedida do pai.

Por mais que algumas análises tenham comparado, em tom crítico, o estilo do filme com alguns projetos de Terrence Malick, Clint Bentley não cria apenas uma derivação sem identidade. As escolhas do brasileiro Adolpho Veloso para a fotografia são vitais para isso, sobretudo o uso da iluminação natural sem recorrer a uma plasticidade “perfeita”, vazia e de beleza inócua. Ao contrário, a composição visual das locações na floresta exploram as diferenças de escalas entre os planos e os contrastes de luz com o objetivo de tratar a natureza de forma expressiva. Os espaços frequentados por Robert para trabalhar ou conviver com a família são representados com diferentes simbologias: os mistérios ancestrais de elementos naturais tão antigos, a grandiosidade da floresta sobre as limitações humanas, o prazer sensorial pelo contato com os entes queridos, o pesar de perdas precoces e inesperadas e a reconexão com emoções genuínas aparentemente perdidas. Além disso, o uso de metáforas visuais ou recursos líricos variados faz com que a natureza crie paralelos com a história da humanidade no geral. Um exemplo é o paralelo que um colega de Robert faz entre a derrubada de árvores antigas e a trajetória do ser humano no planeta.

Como o personagem principal lida com o peso da passagem do tempo e das transformações em sua vida? A relação entre ele, o ambiente e os eventos da trama se dá em um ritmo lento de contemplação e enfrentamento, em geral, taciturno dos vazios existenciais que as perdas podem gerar. Joel Edgerton transparece a angústia de uma existência que sente os impactos físicos do trabalho e do passar dos anos, a inadequação em um mundo não mais compreendido e as consequências da tragédia sobre a família e o lar. O ator não depende de linhas de roteiro para fazer com que o público compartilhe a dor de encarar a solidão, tentar reconstruir uma personalidade devastada pelas perdas e aguardar sem nenhum sinal claro pelo restabelecimento da família. Ele compõe a atuação devido ao desgaste físico que demonstra no próprio corpo pelo tom de voz, pelo envelhecimento da pele, da barba e do cabelo e pela postura física. Além disso, a narração em voice over reforça o percurso dramático de Robert, contando tudo que passa, embora alguns momentos já fossem suficientemente sentidos somente pela construção visual.

Ao longo de seu arco narrativo, Robert precisa lidar com conflitos emocionais que estão diretamente relacionados à natureza. Inicialmente, podem ser ambientes que oprimem o personagem, criando mistérios existenciais acima de sua compreensão, marcando sua desatualização frente a um mundo que se transforma e deixa elementos para trás ou provocando situações ameaçadoras pra sua sobrevivência. A sensação de opressão pode vir também da subjetividade ampliada de um homem que retoma as recordações da esposa e da filha através de visões e vozes, ambas inseridas em uma área específica onde vive. Na sua percepção prévia, não seria possível estar em um mundo que seguiu adiante deixando para trás suas raízes e laços afetivos e impondo tristezas e vazios. Entretanto, a natureza é complexa, contraditória e ambígua. O mesmo que pode retirar também pode oferecer. Em “Sonhos de trem“, o terceiro ato pode promover novos encontros, a retomada de sensações felizes e a recuperação de memórias felizes do que passou, mas não seguiu adiante.