“SUPERGIRL” (2026) – Três erros para um desastre
Inúmeros equívocos podem levar um filme a um fracasso (seja ele do público, seja da crítica). SUPERGIRL, de 2026 (não confundir com o homônimo filme de 1984), é um verdadeiro desastre em razão de três fatores que, mais do que equívocos, constituem erros graves em se tratando de um filme de super-herói (ou, no caso, super-heroína).
Kara Zor-El está fazendo vinte e três anos de idade e, apesar dos apelos de seu primo Clark (também conhecido como Superman), prefere viajar entre planetas, se embriagando e se divertindo na companhia de seu cão, Krypto, a estar na Terra. Quando ela conhece Ruthye, contudo, ela encontra motivação para praticar atos heroicos tal como faz Clark.

Dirigido por Craig Gillespie, a obra se baliza a partir de quatro referências principais, algumas mais remotas do que outras. Do ponto de vista da premissa e do motor da trama elaborada por Ana Nogueira, há uma vaga similaridade com a franquia “John Wick”, sobretudo com o primeiro longa, “De volta ao jogo”. Em termos de qualidade, todavia, há um abismo. Há um elemento do roteiro que também vagamente repete uma ideia presente em “Mad Max: estrada da fúria” – o rapto das mulheres -, mas aqui novamente a comparação é absurdamente injusta diante de tamanha diferença qualitativa. Por outro lado, sobretudo no primeiro ato e no início no segundo, há uma aproximação estilística grande com “Star Wars: episódio IV – uma nova esperança”, primeira aparição de Han Solo. Kara surge em seu filme como Han, ou seja, alguém muito sagaz e que age a partir de seus próprios interesses (Krypto seria o seu sidekick, Chewbacca). Assim como ele, Kara conhece locais onde pode obter informações para a sua empreitada, modus operandi comum entre os dois, que, inclusive, leva a uma estética também compartilhada: bares repletos de seres perigosos ou somente esquisitos, falando idiomas próprios. Ainda no estilo, o longa repete muito outra space opera famosa, “Guardiões da Galáxia”: humanoides com rostos bem maquiados, cenas de ação impulsionadas por músicas chamativas – aqui, porém, bem piores (tanto as músicas quanto as cenas) -, heróis moralmente dúbios etc. Na prática, portanto, Gillespie entrega um filme que definitivamente não se destaca pela criatividade, fazendo o mesmo – mais precisamente, piorando o – que já foi feito antes.
O segundo erro grave é desdobramento do primeiro: se é problemático o fato de o longa replicar seus antecedentes sem absolutamente nenhuma pretensão de inovar, é ainda mais problemático o fato de a réplica ser muito inferior aos seus originais, em especial na ação. Embora Gillespie tenha dois bons longas em sua filmografia (“Eu, Tonya” e “Cruella”), parece que a inexistência de filmes de ação não foi à toa: sua direção nos momentos de adrenalina é nada menos que caótica. Impulsionadas por canções genéricas, com um VFX terrível e uma mise en scène que denota preguiça, essas cenas são esteticamente péssimas, uma vez que desagradáveis no som e bagunçadas no visual. Imageticamente, o filme tem algumas virtudes, em especial as maquiagens de Krem (o vilão fajuto vivido por Matthias Schoenaerts) e Lobo (o fan service sem relevância narrativa interpretado por Jason Momoa). Na ação, entretanto, qualquer virtude erode diante de tamanho caos (chama a atenção que até mesmo uma cena em slow motion, copiando um recurso já desgastado depois de “X-Men: Apocalipse”, é uma catástrofe).
Poderiam ser citados equívocos menores como o roteiro raso e a conspícua inabilidade dramática de Milly Alcock no papel principal. Entretanto, o terceiro e mais grave erro consiste na fragilidade da protagonista enquanto tal. O backstory de Kara não é envolvente (o enorme flashback é anticlimático e ineficiente), sua estupidez é evidente (ainda que não supere o vilão no quesito, um mercenário que destrói a própria mercadoria sem motivo). A falha não está na concepção da super-heroína, pois não há problemas em criar uma figura badass e não sexualizada (ao invés da saia, ela geralmente aparece com um casaco castanho). A Supergirl não precisa ser uma bússola moral como o Superman, é inclusive melhor que não o seja, então gestos obscenos e apologia à embriaguez fazem sentido. O que não faz sentido é a sua fraqueza física (agonizando e quase morrendo em dois momentos sem que o vilão tenha feito nada) quando se considera a sua origem genética, bem como o seu não-protagonismo. Nesse sentido, Ruthye acaba, absurdamente, sendo a protagonista do filme por diversos motivos, que vão do talento melhor da atriz (Eve Ridley, que cria uma persona tão robótica quanto indômita) à melhor elaboração da sua história pregressa. São muito mais convincentes os seus motivos para agir e seu dilema moral, facilitando a identificação do espectador. Ela é, em síntese, uma personagem bem mais interessante (ainda que clichê).
Em “Supergirl”, o protagonismo fica com uma personagem pensada como deuteragonista, a ação esperada é uma bagunça e não remanesce nada minimamente memorável. De três erros, nasceu um desastre retumbante.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

