“SUPERMAN” (2025) – Um filme James Gunn
Ignorando os curta-metragens animados de 1941, o ápice do Superman no audiovisual foi com “Superman – o filme” (1978), dirigido por Richard Donner. A obra de Donner teve três sequências (com dois diretores diferentes) e foi o norte para “Superman – o retorno” (2006), de Bryan Singer (colocando o super-herói naquele mesmo universo). Com sua típica mão pesada na direção, Zack Snyder dividiu opiniões com “O homem de aço” (2013), mas obteve lucro suficiente para autorizar uma continuação: “Batman vs. Superman: a origem da justiça” (2016). SUPERMAN, de 2025, é uma miscelânea entre seus antecessores e, principalmente, a filmografia pretérita de seu diretor.
Depois de interferir em uma guerra iminente entre dois países, a popularidade do Superman está em queda. Enquanto isso, Lex Luthor tenta convencer o governo estadunidense que ele é uma ameaça e que pode detê-lo. Quando aumenta a dúvida sobre as intenções do kryptoniano na Terra, ele precisará da ajuda de Lois Lane, sua namorada, e de outros meta-humanos, para proteger a todos mais uma vez.

Em termos narrativos, James Gunn (que roteirizou e dirigiu o longa) não é ousado, salvo, em grau diminuto, no discurso político da sua obra. Retomando e aprofundando o subtexto concernente a guerras e a refugiados (presente na versão de Snyder), Gunn elabora uma alegoria bastante clara sobre o conflito entre Israel e Palestina, um tema que é, em si, pujante, mas que não é desenvolvido com a potência que merece. É positiva a presença do assunto, mas decepciona a timidez no seu trato. Parte disso se deve a uma dificuldade de equilibrar seus temas, notadamente a identidade pessoal e o significado do heroísmo: este é o fio condutor dos atos do Superman, aquele constitui o esboço do arco dramático do protagonista, na medida em que precisa reconciliar a herança kryptoniana com a educação terráquea recebidas. Chama a atenção o fato de que a história pregressa da guerra em que o protagonista se intromete é apenas contada, não exposta, como se a obra buscasse uma distância segura sobre o que pode ser controverso.
Se David Corenswet não decepciona no papel principal, ele tampouco encanta, interpretando um super-herói cujo sofrimento – que é inerente à personagem, já que é uma metáfora para Cristo – não representa melancolia. Gunn tem uma visão bastante solar do super-herói, diametralmente oposta à de Snyder. Isso se reflete na linguagem empregada pelo cineasta, que usa uma fotografia clara e de cores vibrantes, aliada às composições edificantes de David Fleming e John Murphy. Vale dizer, enquanto o diretor retoma o subtexto político de Snyder, a estética se aproxima à de Donner, focando mais no heroísmo do que no drama da personagem. Imageticamente o mesmo ocorre, por exemplo, no traje do Superman, com seus tons claros e o famoso calção externo à calça. Outro desdobramento dessa visão é o emprego dos coadjuvantes de forma meramente instrumental, quase sempre como alívio cômico. É o caso de Krypto, em que o carisma de um pet é preguiçosamente aproveitado, Jimmy (Skyler Gisondo), com uma piada única repetida várias vezes, e o trio de meta-humanos, Senhor Incrível (Edi Gathegi), Lanterna Verde (Nathan Fillion) e Mulher-Gavião (Isabela Merced). Isso poderia fazer crer que as demais coadjuvantes têm maior complexidade, mas não é o caso: Lois Lane é interessante pelo bom trabalho de Rachel Brosnahan, que consegue ampliar o impacto de falas quase isoladas sobre insegurança a respeito de si; Nicholas Hoult expõe bem a obsessão que Lex Luthor tem pelo Superman, mas é um vilão genérico; e a Engenheira (María Gabriela de Faría) é uma extensão física de Luthor (enquanto ele é a mente do lado antagonista).
Seria possível saber que “Superman” é um filme de James Gunn mesmo sem ter essa informação. Exemplo disso é a cena em que o Senhor Incrível luta enquanto Lois Lane assiste a tudo, assustada: o emprego da trilha musical ocorre para criar um contraste e atenuar o impacto da batalha, criando um momento de suspensão (idêntico ao que fez na franquia “Os Guardiões da Galáxia”, mais de uma vez). Outro exemplo é a comicidade que o cineasta sempre injeta em suas obras (o próprio Krypto é uma imitação de Groot), mas cujas piadas nem sempre funcionam. Outra marca do diretor está na dependência de computação gráfica, que, todavia, é utilizada com qualidade: apesar das doses homéricas de CGI (como no universo compacto), que poderiam ser reduzidas, elas são inerentes à sua visão. Para Gunn, os super-heróis habitam um universo fantástico marcado por cores neon, música empolgante, piadas constantes, um pouco de romance e um maniqueísmo escancarado. O que decepciona é o fato de que, comparativamente às suas outras obras, “Superman” não apresenta nada novo, ou seja, não há criatividade alguma no trabalho. Não se trata de um filme ruim, mas de um longa que bebe do otimismo de Donner e da politização de Snyder, e que, sobretudo, repete o estilo do próprio James Gunn, em uma fórmula previsível e que começa a saturar. Com isso, a produção se torna uma aposta segura para iniciar um universo cinematográfico DC, mas aquém do epítome dos super-heróis que é o seu protagonista.


Desde criança, era fascinado pela sétima arte e sonhava em ser escritor. Demorou, mas descobriu a possibilidade de unir o fascínio ao sonho.

