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“UMA INFÂNCIA ALEMÔ – Amadurecimento confuso

Muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial já foram produzidos, sobretudo durante o período nazista na Alemanha. Outros vários projetos encenaram períodos históricos a partir do olhar infantil, principalmente em trajetórias de amadurecimento. UMA INFÂNCIA ALEMÃ combina as duas perspectivas ao contar a história de um menino alemão em uma remota ilha nos anos 1940. O objetivo é encontrar originalidade em uma proposta já abordada ao enfocar espaços e temporalidades menos conhecidos. Já o resultado é bem menos claro quando o arco narrativo do protagonista não define o que quer contar.

(© Imovison / Divulgação)

No verão de 1945 na ilha de Amrum, Nanning é um garoto de 12 anos que trabalha para ajudar a família enquanto o pai está servindo no exército alemão durante a guerra. A comunidade local tenta levar adiante uma vida simples e comum com o trabalho agrícola nos campos, o comércio de pequenos armazéns e a pesca no litoral. À medida que a guerra se aproxima do fim, os moradores sentem cada vez mais seus efeitos sociais e econômicos. Ao mesmo tempo, Nanning se depara com segredos familiares e conflitos do dia a dia que ameaçam a rotina e o desenvolvimento emocional do jovem.

Em 1945, a Segunda Guerra Mundial terminou e Hitler se suicidou. Logo, a obra não se passa, como o cinema costuma escolher, no auge do conflito. O interesse é refletir sobre a situação de crise que a população deve enfrentar nesse momento. Todos os personagens sofrem, de algum modo, com a falta de alimentos básicos, como pão, manteiga, ovos e açúcar e se deparam com a pauperização geral da economia. Então, Nanning se lança em uma jornada para conseguir a única refeição que a mãe grávida parece disposta a comer: pão branco com manteiga e mel. Isso o faz parar de frequentar a escola, trabalhar para os fazendeiros vizinhos e pedir a doação de ingredientes. Tais atividades embrutecem o garoto, levando-o a se colocar em risco para atravessar a baía antes da subida da maré e a ficar próximo da violência da caça de uma foca e da limpeza de um coelho.

Ao longo do percurso factual em busca dos alimentos, o protagonista também atravessa um processo de questionamento pessoal que o faz refletir sobre a família e a sociedade. É possível perceber o ocaso do nazismo com a proximidade do fim da guerra e a morte de Hitler através de certos sinais: a falta de respostas para a saudação nazista feita pelo menino, a percepção de alguns adultos quanto ao fim de um ciclo, sobretudo a tia de Nanning, o suicídio de um dos tios (o mais engajado na ideologia oficial) e a retirada das bandeiras da frente de muitas casas. Além disso, nota-se o conflito interior do garoto, que cresceu em um lar dedicado ao nazismo, mas repensa se os pais não estariam errados. O questionamento decorre da discussão sobre a pureza racial e a linhagem pura dos alemães pela presença de refugiados poloneses na ilha e pelas dúvidas quanto à origem familiar de Nanning. Mais adiante, os dilemas crescem quando descobre, a partir de uma fotografia, segredos comprometedores dos pais e a possibilidade de terem sido cúmplices de atos violentos contra os próprios familiares.

O conflito vivido pelo jovem transborda pelo ambiente e encontra as escolhas formais do diretor Fatih Akin. A ilha de Amrum tem a beleza dos campos ensolarados, a vista paradisíaca do litoral e a simplicidade aconchegante das vilas de casas, potencializada pela fotografia de cores fortes, pelos planos abertos e pela grande profundidade de campo. A geografia do local pode se apresentar como um refúgio protetor e ameno para os moradores que estão distantes da guerra, mas o contraste entre a beleza visual e o caráter dramático dos eventos a que os habitantes estão submetidos logo inviabiliza qualquer sensação positiva. Mesmo as áreas mais longínquas estão vulneráveis ao discurso extremista do nazismo, a mentalidade racista de hierarquização de povos e culturas, a crise econômica do país, a falta de perspectiva de futuro após a derrota na guerra e a perda de referenciais sólidos para as novas gerações. Algumas cenas são simbólicas para retratar as dimensões negativas em um cenário aparentemente encantador: o esforço para atrair e abater uma foca, a travessia de Nanning pela baía durante a cheia do mar tentando segurar uma bicicleta e o mel e outra passagem pelo mesmo local quando o menino encontra com os poloneses. Nesses casos, a natureza pode ser ameaçadora.

Progressivamente, o arco narrativo de Nanning produz uma jornada dolorosa que faz o personagem se deparar com revelações angustiantes para sua idade. E a tomada gradual de consciência é o grande mérito da atuação de Jasper Billerbeck, já que o ator acentua as frustrações do menino diante das verdades que se interpõem ao seu amadurecimento. Ele percebe que, de fato, a família carrega traumas, sofrimentos e violências representados por quem fugiu para os EUA os foi preso pelo Partido Nazista ou pela relação tumultuada entre a mãe e pela tia. Da mesma forma, conclui que não se sente completamente integrado ao melhor amigo por este ser polonês e ter outra reação com a notícia da rendição da Alemanha. Até mesmo a busca pelo pão com manteiga e mel perde o sentido ao não ter a retribuição esperada, pois o desfecho dessa questão se apresenta como mais uma derrota para ele. Acima de tudo, a trajetória do protagonista termina com uma crise geracional muito forte, evidenciada pela impossibilidade de Hille de aceitar o término de um mundo familiar e a entrada de uma realidade absolutamente diferente. É o que se pode notar do conflito silencioso nas atuações de Jasper Billerbeck e Laura Tonke após uma ação desesperada em uma mercearia, capaz de fazer o filho enxergar mãe. com outros olhos.

Se o percurso de Nanning terminasse com uma conscientização desagradável em relação a si mesmo, à família e ao país, “Uma infância alemã” poderia se relacionar muito bem com as consequências deixadas pelo fim do nazismo e da Segunda Guerra Mundial para o povo alemão. Entretanto, Fatih Akin dá uma reviravolta no arco do protagonista e prefere um tom conciliatório com os demais personagens e com sua própria vida. O menino salva outro jovem com quem não tinha boas relações e se entende com uma garota polonesa que também havia se desentendido com ele anteriormente. Uma carta do seu pai é lida pela narração em voice over para sugerir possibilidades felizes para o futuro e até um acerto de contas com as emoções conflitantes da família. As dúvidas em relação à própria identidade são amenizadas pelo amigo polonês que traz uma solução para os embates internos. E a presença em um ambiente contraditoriamente belo e desconfortável se resolve com a decisão tomada pela mãe. A última cena pode, inclusive, ser compreendida como um reencontro com o passado e memórias positivas. A mudança de tom se torna, no mínimo, duvidosa em termos políticos e históricos ao tentar encontrar um desfecho apaziguador para histórias ficcionais ou não envolvidas e impactadas pelo nazismo e pela guerra.