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“VELHOS BANDIDOS” – Presente de filho para mãe

Durante a coletiva de imprensa para o lançamento de VELHOS BANDIDOS, Fernanda Montenegro, que interpreta uma das personagens principais do longa, afirmou que a produção é um “presente de seu filho para ela”. São palavras maternais contaminadas pelo vício da maternidade e, portanto, benevolentes demais para uma obra que provavelmente diverte mais os envolvidos na sua realização do que seu destinatário.

Marta e Rodolfo são idosos aposentados à espera de parceiros ideais para praticar um furto a um banco. Ironicamente, esses parceiros são Nancy e Sidney, um casal que tenta praticar o mesmo delito contra eles, sem êxito. Paralelamente, o quarteto precisa despistar um detetive que acredita que esse caso mudará a sua carreira.

(© Paris Filmes / Divulgação)

O longa é um heist movie que não é pensado para ser levado a sério, chave de leitura fundamental para um melhor aproveitamento da experiência. Sua estrutura narrativa parte de dois pilares: de um lado, um grupo disfuncional que se une para consumar o objetivo comum, de outro, uma autoridade que pretende impedir o crime. A isso adicionam-se duas características comuns que não não funcionam como deveriam: uma atmosfera de afabilidade e um tom cômico.

A primeira característica consiste na tentativa de dar humanidade às personagens: Marta sente arrependimento por ter convencido Rodolfo a agir de determinada forma no passado; Nancy diz ter pena dos idosos diante da chance de locupletar às suas custas; Rodolfo narra que Marta não desistiu da união mesmo tendo, na sua ótica, motivos para tal. Em um filme de aproximadamente noventa minutos, todavia, não há espaço suficiente para que essa tentativa logre êxito. Mais interessante teria sido apostado em criar bons momentos de aproximação do quarteto, o que ocorre de maneira diminuta. Do ponto de vista do conteúdo, é mais construtiva a ideia geral contrária ao etarismo, através da qual a postura de Marta e Rodolfo é subvertida não apenas para idosos audazes, mas idosos que certamente não pararam no tempo (dada a familiaridade com tecnologia e a atividade sexual). Outro aspecto positivo é a associação das mulheres como id e os homens como superego, algo explorado apenas sutilmente: Marta é o gênio por trás do plano, enquanto Rodolfo demonstra insegurança; no casal jovem, é Nancy quem toma as decisões; existe ainda a personagem de Vera Fischer, que aproveita o simbolismo da atriz para injetar sensualidade no filme e reforçar a bandeira contra o etarismo (é uma pena que, nesse quesito, haja uma fala didática ao extremo ao final).

No quesito comicidade, entretanto, a obra deixa muito a desejar (e quase nunca é engraçada). Desde o primeiro minuto se pode perceber a descontração abraçada, mas o longa chega a extremos que o tornam tedioso, como as atuações demasiado caricatas, quase infantis (a cena em que Ary Fontoura e Bruna Marquezine usam peruca é ridícula), e elementos que parodiam os heist movies que, com sagacidade, teriam algum valor (a cena do gás do riso como referência ao uso de entorpecentes e a roupa de látex usada por Nancy, por exemplo). Não é necessariamente um problema que a trama seja extremamente previsível (sobretudo em relação à personagem de Lázaro Ramos), o que é problemático é o modo simplista como tudo é desenvolvido, do desenvolvimento narrativo às relações interpessoais. Isso se reflete também na estética da produção, na medida em que Cláudio Torres faz opções de gosto, no mínimo, duvidoso, tais como: o filtro exagerado na fotografia, que a torna feia; a montagem usando wipes (geralmente horizontais) cartunescos (nesse caso, por que não apostar mais na paródia?); e a trilha musical que reconstrói uma canção grandiosa, “What a wonderful world”, em estilos distintos, o que seria interessante se houvesse um diálogo com a trama, porém, da forma como aparece, denota apenas preguiça.

É conspícuo que o elenco está se divertindo com “Velhos bandidos”. Montenegro e Fontoura lideram um grupo – composto por nomes como Fischer, Tony Tornado e Reginaldo Faria – que fez História na arte nacional (Ramos, Marquezine e Vladimir Brichta são consolidados, mas não têm o mesmo currículo). Trata-se de uma celebração que não exige quase nada do inegável talento do grupo e resulta em um filme leve, acessível a todos os públicos e que gerou risadas de seus partícipes. De fato, muito mais um presente de filho para mãe do que de artistas para o público.